FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO - Saga Literária

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sábado, dezembro 24, 2016

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO

Estou aqui passando pelo Saga para desejar um Feliz Natal e Próspero Ano Novo aos leitores e colunistas que suam a camisa para escrever resenhas e artigos que são lidos por toda parte. Obrigado Yvens Castro, Mayara Frossard, Joanice Oliveira e Felipe Marcato por fazer funcionar as engrenagens da Saga Literária. Em 2017 estaremos juntos novamente.  




Gostaria de deixar a indicação de um livro para o final de ano. "Dia de Folga -  Um Conto de Natal" do escritor John Boyne que ficou famoso com o livro "O Menino do Pijama Listrado".


Neste conto breve e melancólico de poucas páginas, John Boyne (autor do best-seller O menino do pijama listrado) acompanha o dia de folga de um jovem soldado inglês e seus companheiros, que passam a véspera de Natal em uma das trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Enquanto relembra os natais da infância e o conforto do seu lar, ele vê e ouve as bombas alemãs caindo a sua volta. Em meio a um dos piores conflitos do século XX, o jovem irá vivenciar um espírito natalino muito diferente do que estava acostumado.


Confiram textos do livro:

Hawke, um lobo em forma de gente, emergiu da floresta engatinhando e tirando agulhas de pinheiros das palmas das mãos. Seu casaco estava impregnado de uma resina vegetal pegajosa que exalava um aroma adocicado, um perfume que lembrava os jardins do Hyde Park Square, nos fundos de sua casa, onde ele havia se escondido do pai em diversas ocasiões quando criança. Ele rastejava pela mata fechada, com a visão se ajustando para examinar o espaço aberto à sua frente. Era noite, agora. Ele estava cansado e faminto. Não comia nada desde aquela manhã em que Cole lhe dera uma lata de carne em conserva roubada da mochila de Westman, uma gosma vermelha e gordurosa vazando da embalagem metálica, que o fazia lembrar dos crânios partidos nos corpos que ele arrastava pela lama revolvida pelas botas, quando era incumbido de carregar a maca. Isso é trabalho de desertor, ele reclamava, mas ninguém lhe dava ouvidos. O próprio Westman havia levado um tiro no olho uma hora antes; os miolos ainda estavam secando em seu rosto, formando uma crosta nos cílios compridos, enquanto as mãos de Cole saqueavam seus suprimentos.

Havia, é claro, duas latas. Cole pegou uma para ele, que devorou avidamente, com um dedo lambuzado do sangue que havia restado, misturando-se ao seu próprio enquanto ele o chupava, os olhos fechados de prazer. Ele deu a outra a Hawke porque gostava dele. Eles torciam para o mesmo time de futebol, e isso já parecia ser o suficiente para forjar uma amizade. A carne enlatada tinha um gosto podre, seu caldo era uma gosma horrenda que empesteava o ar, mas Hawke comeu tudo antes de vomitar na latrina. Ao seu lado, Oakley estava de pé, com o pau na mão, escorado na parede e mijando nas próprias botas, chorando. Mas Oakley era um chorão; todo mundo sabia disso. Ele chorava quando o sol nascia. Ele chorava quando o tiroteio começava. Ele chorou quando chegaram as notícias de que Lord Kitchener tinha morrido no Hampshire, e isso que ele nem conhecia o cara. “Então você ficou sabendo do Westman?”, Hawke perguntou, mas Oakley o ignorou. Ele não gostava de ser incomodado quando estava chorando. Terminou de mijar e Hawke terminou de vomitar. Antes de se afastar da latrina ele disse a Oakley para guardar o pau dentro das calças. “Se ajeita aí, rapaz”, ele murmurou.

Na Inglaterra era véspera de Natal. Talvez fosse véspera de Natal aqui também, era difícil saber. Não seria como os Natais de antigamente, é claro. O racionamento está brutal, a mãe dele contou na última carta. Está nos transformando a todos em selvagens. Por sorte eu conheço um homem no Departamento de Guerra que tem ajudado tremendamente nesse sentido. Eles tinham oficialmente um dia de folga. Staines começou a tocar “Noite feliz” em sua gaita, mas ninguém se interessou muito. Shilton disse a ele pra parar ou o faria engolir aquela merda.

“Ei, Hawke”, disse Delaney, o garoto irlandês que todo mundo chamava de Charlie Chaplin por causa da semelhança. “O que você pediu para o Papai Noel esse ano?”
“Uma noite de sono”, disse Hawke.

“Eu tive uma dessas algumas semanas atrás. Mas não adiantou muita coisa. Eu
continuava me sentindo morto quando acordei.” Por que Westman estava na floresta era o que todo mundo se perguntava. Um grupo criminoso de alemães deve ter passado por ali e o matado, em vez de tê-lo feito prisioneiro. Era o mais provável, mesmo. Havia alemães por todos os lados nessa parte do mundo. Mas era difícil encontrá-los. Westman tinha um cão sobre o qual ele falava o tempo todo. Aquilo deixava os homens irritados. A maioria tinha esposas ou namoradas em casa, mas tudo que o Westman tinha era um cachorro. Dava pra jurar que ele era casado com aquele bicho, pelo jeito que falava. O cachorro tinha ficado com os pais dele em Canterbury. Seu nome era Schubert.

Hawke tinha meias limpas em sua mochila e havia passado o dia inteiro ansioso para vesti-las. Mamãe as havia enviado como presente de Natal. Ela tinha colocado um pauzinho de canela no meio delas, e ele não sabia muito bem o porquê. As meias velhas, aquelas que ele estava tirando, estavam cobertas de sujeira e sangue e fediam ainda mais que a carne enlatada, mas, por algum motivo, ele as aproximou do nariz por um instante e aspirou o fedor. Ele nunca achou seu próprio cheiro ofensivo. O cheiro de outros homens, sim, é claro. Eles eram animais, a maioria deles. Mas o cheiro dele, não. Era uma forma de lembrar que ainda estava vivo, ainda produzia as gosmas e mucos que um corpo humano produz durante um dia. Queenie, sua antiga babá, costumava brincar com os pés dele quando era criança. Havia algo de perturbador no jeito em que ela o sentava no sofá e encostava alguns dedos em sua boca, chupando-os enquanto olhava o menino bem no fundo dos seus olhos azuis, os mesmos que as amigas de sua mãe diziam que um dia arrasariam corações. Este procedimento se repetiu até os seus onze anos. Papai a flagrou certa vez e deu-lhe um tapa; algumas horas depois, ela tinha ido embora. Arrumou um emprego no circo, ou pelo menos foi o que disseram a Hawke. Alguns dias depois, Papai morreu. Foi atropelado na rua.

As meias limpas eram feitas de lã grossa e cinza e não eram do modelo padrão. Mamãe as havia enviado e, de alguma maneira, elas puderam chegar até ele sem ser confiscadas. Ele mal podia acreditar na sua sorte quando abriu o pacote. Também havia uma carta lá.  Jane havia ficado noiva de um rapaz que era cego de um olho. Seu nome era Harry Stanley e ele vinha de uma boa família. Joseph já tinha tentado se alistar três vezes, mas seguia sendo rejeitado por conta da idade. Era só uma questão de tempo, disse Mamãe, até que algum idiota acreditasse que ele tinha dezoito, e então ele seria despachado para a França ou para a Itália, ou para onde quer que fosse que eles mandavam garotos irresponsáveis que não sabiam a sorte que tinham. Vovó havia morrido e eles a tinham enterrado ao lado do vovô. O tempo estava bom, surpreendentemente quente para essa época do ano. Ele tirou as meias velhas e choramingou inesperadamente à medida que sua carne, seus ossos e músculos iam relaxando devagar. Ele não sabia se aquilo o fazia sentir uma dor tremenda ou um prazer insuportável. Mas o fez lembrar do que sentia quando passava
algumas semanas sem se masturbar. A intensidade do orgasmo adiado. Quase impossível de suportar.

Ele olhou para os pés, que não se pareciam mais com pés. Eram umas coisas
atarracadas, as unhas dos dedos destroçadas e apodrecidas, as solas cobertas de bolhas, sangue negro escorrendo das feridas abertas. Queenie não chegaria nem perto desses pés agora se ela visse como eles estavam. Ela desmaiaria ou gritaria ou faria qualquer coisa que mulheres estúpidas fazem quando deparam com algo desagradável.

Hawke sempre era levado ao parque de diversões na véspera de Natal. Uma estrutura de aço, alta , pintada de dourado e amarelo, se erguia do chão, e presa a ela um disco rodava e se levantava, girando tão rápido que as pessoas sentadas nos balanços presos a ele gritavam e riam enquanto eram projetadas no ar. Uma sensação de leveza. Um medo de cair. Hawke tinha catorze anos quando seu sapato esquerdo saiu voando enquanto ele estava perto do topo, o céu aceso pelos fogos de artifício como um arco-íris destroçado. O garoto sentado ao seu lado, um garoto que ele nunca havia visto, ria porque os dedos de Hawke saíam pelos furos de sua meia.

“Você é pobre?”, perguntou o garoto, e Hawke enrubesceu de vergonha. “Sua mãe não cerze suas meias?”

Ele não pensava naquilo havia anos. A lembrança havia voltado agora. Ele não cheirou as meias limpas. Elas eram novinhas em folha; não haveria nada de errado com elas. Ele as vestiu e enfiou os pés de volta nas botas, enrolando os tornozelos com uma faixa. Por algum motivo, as meias novas não eram tão confortáveis quanto as velhas. Ele ficou se perguntando se as bolhas o incomodariam mais nos dias seguintes. Dois rapazes, Arthurs e Crouch, começaram a brigar ali perto. Um comentário havia sido feito. Alguma grosseria. Arthurs acertou um soco no nariz de Crouch, e Crouch soltou um grito enquanto uma grande quantidade de ranho despencava sobre suas mãos.

“Desgraçado filho da puta”, ele disse.
“Desculpa”, disse Arthurs. “Mas você precisa aprender a hora de calar a boca.”
Hawke pensou em tirar um cochilo, mas já eram quase seis da tarde. A essa hora, os corais começariam a cantar em sua cidade. Toda a família estaria lá. Ou, pelo menos, o que sobrou dela. Um ano antes de a guerra estourar, quando tinha dezesseis anos, ele estava lá, e Cathy Bligh tinha pedido que Hawke a acompanhasse até sua casa, uma vez que já estava escuro. Havia um homem nas redondezas, ela disse, um maníaco sexual que atacava garotas inocentes.

“Então você estará segura”, disse Hawke, sorrindo, e ela deu uma risadinha, dizendo a ele para não deixar que o pai dela o ouvisse dizendo esse tipo de coisa. Ele fez o que ela pediu e a acompanhou até em casa, e tentou beijá-la quando estavam perto de chegar, mas ela lhe deu um tapa no rosto e perguntou que tipo de garota ele pensava que ela era, afinal de contas. A coisa toda o deixou intrigado. Logo em seguida, Cathy falaria pra todo mundo  que ele tentou se engraçar pra cima dela e seu irmão foi bater na porta da casa de Hawke na manhã de Natal, querendo puxar briga.

“Se você quer brigar, vamos lá”, Hawke disse calmamente, saindo de dentro de casa e arregaçando as mangas, com um cigarro pendurado na boca. “Só que longe da minha irmã, ouviu?”, o garoto respondeu, agora apavorado e derrotado. “Ou vai ver só o que te espera.”

Hawke deu de ombros e voltou pra dentro de casa, onde Jane disse a ele que a coisa toda tinha sido eletrizante demais pra ser posta em palavras. Agora era um momento perigoso. Se cochilasse, ele acordaria por volta das duas da manhã e provavelmente não dormiria mais. Não, era melhor que ficasse como estava. Ele dormiria às nove. Talvez às oito e meia, se o sol se pusesse rápido.
O sargento passou por ali e perguntou se Hawke tinha visto seu livro.

“Não o vi, senhor.”
“Não viu?”
“Não, senhor.”
“Bom, me avise se você o vir.”
“Qual é o título?”
“Não faço ideia. Alguma coisa sobre um órfão. E tem uma mulher nele que é
terrivelmente grosseira.”

Hawke não era muito de ler. Livros o entediavam, ainda que ele não admitisse para ninguém, pois isso o faria parecer ignorante. Não, seu negócio era a escultura. Ele gostava desde criança, quando moldava corpos nus com argila. Ele tinha a impressão de que seria  muito bom esculpindo em pedra ou mármore, mas ainda não havia tido a oportunidade de testar. Depois da guerra, ele dizia a si mesmo, ele tentaria. Ele conhecia um cara na sua cidade, Bestley, cujo pai administrava uma galeria de arte na Cork Street. Ou o Bestley tinha morrido? Ele tinha ouvido algo do tipo? Ele tinha morrido no Arabis em Dogger Bank? Bom, seu pai provavelmente estaria vivo, de qualquer jeito. Talvez ele desse uma  passada lá na próxima vez que estivesse em Londres para pedir uns conselhos. Talvez houvesse um camarada lá que pudesse dar umas aulas a um amigo. Mostrar a ele como começar.

Mas ler? Não, aquilo não o interessava muito.
Ele decidiu fazer um chá. Bellamy estava na barraca-refeitório, rabiscando um pedaço de papel com um lápis.
“Escrevendo pra família?”, perguntou Hawke.
“Minha mulher teve um bebê”, respondeu Bellamy. “Acabo de receber a notícia.”
“Puxa, que bom pra você.”
Bellamy o encarou. “Faz um ano que não volto pra casa.”
Hawke se segurou pra não rir. “Sinto muito”, ele disse, olhando em volta e franzindo a testa. “Não estou achando o chá.”
“Eu tomei o último.”
Alguns galhos de azevinho estavam dispostos perto de uma sacola. De onde eles tinham vindo?
Ele estava impaciente agora. Esse era o problema dos dias de folga. Eles eram tão raros, e você esperava tanto por eles, mas quando eles chegavam, seu corpo estava tão acostumado a se mover constantemente que era quase impossível relaxar. A floresta ficava ali perto. Ele decidiu dar uma caminhada. Ele pôs seu capacete e levou seu rifle, caso os alemães que mataram Westman ainda estivessem por ali.

“Aonde você vai?”, perguntou Sumpton.

“Entregar uns presentes”, disse Hawke. “Para todos os garotinhos e garotinhas que se comportaram bem.”

Foi prazeroso afastar-se do batalhão, entrar na floresta sozinho. Ele ficou pensando naquela canção de Natal, “O Holy Night”. Ele sempre gostou daquela música. Na véspera daquele último Natal, um garoto que morava na vizinhança, cuja voz ainda não havia mudado, tinha cantando ela sozinho, e quando chegou na parte em que havia uma mudança de tom, ele sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A música às vezes o afetava desse jeito. Mamãe disse que os corais agora só tinham garotos soprano e mulheres, uma combinação estranha. E o buffet era simplesmente horroroso, ela escreveu. Ela iria novamente este ano; provavelmente estava lá agora, com seu homem do Departamento de Guerra, fosse ele quem fosse. Bastavam alguns pares de meia-calça ou uma barra de chocolate e pronto, Mamãe era de novo uma mulher jovem e atraente. No passado, Papai e Mamãe sempre faziam do Natal uma festa com muita dança e cantoria. Eles tratavam aquilo como se fossem crianças. Mesmo quando ele próprio era uma criança, Hawke sempre achou que aquilo tudo era muito barulho por nada.

O som dos galhos se esmigalhando sob suas botas o agradava, e ele pisou com mais força por algum tempo, sem pensar nos alemães. Então ele se lembrou e pensou, ah, que se dane. E continuou pisoteando.

Alguma coisa estalou em sua mente e ele percebeu que estava cheio daquela maldita guerra e decidiu não voltar. Ele simplesmente continuaria andando. As pessoas faziam esse tipo de coisa, ele se perguntou? Deserção não premeditada? Ele não estava levando nada com ele, nada de suprimentos, de casaco mais pesado, de modo que todos ficariam surpresos. Talvez eles até mesmo presumissem que ele tivesse sido pego pelo inimigo na floresta. Os alemães de Westman talvez o tivessem capturado. Não havia nada que desse qualquer sinal de uma deserção real. Na verdade, ele percebeu, esse era provavelmente o melhor jeito de fazê-lo.

Ele começou a gargalhar. Aquilo era bem engraçado, levando tudo em consideração. Num minuto ele estava sentado, sem fazer nada, e no seguinte ele era um desertor da Força Expedicionária Britânica. Ele conhecia alguns. Browne e Peace tentaram fugir um dia e foram flagrados, nos braços um do outro, há alguns quilômetros de distância, escondidos num celeiro. Eles foram trazidos de volta e fuzilados. O sargento disse a eles que parassem de ficar de mãos dadas e morressem como homens, mas eles o mandaram se foder e então as balas voaram. Bancroft também tinha sido fuzilado, mas ele não havia desertado, é claro. Ele abaixou suas armas depois daquela história com o garoto alemão na trincheira e disse me desculpe, mas estou de saco cheio dessa loucura.

Isso significava que ele jamais poderia voltar para casa? Que ele nunca conheceria o noivo cego-de-um-olho de Jane? Nunca mais responderia nenhuma das cartas de Mamãe?

Não, afnal de contas, a guerra não podia continuar pra sempre. Aliás, ela já tinha durado tempo demais. Mas, pera aí, só porque a guerra talvez terminasse algum dia isso não significava que os desertores seriam perdoados e esquecidos, não? Será que haveria algum tipo de anistia? Pouco provável. Ele balançou sua cabeça. Não podia pensar em tudo aquilo agora. Ele tinha tomado uma decisão. Claro que o problema era que ele não sabia exatamente onde estava. Ele não estava sequer totalmente convencido de que sabia que país era aquele. Dava pra reduzir a uns dois ou três, é claro, mas seria difícil apontar o certo a partir daí. Para onde ele deveria ir? Suíça, ele supôs. Era pra lá que todo mundo ia, não era? Ele poderia ajudá-los a proteger a fronteira no Jura. Ou simplesmente se esconder do outro lado.

A clareira à sua frente não fazia muito sentido. Parecia uma plantação após uma
colheita no meio dos incontáveis acres de uma floresta. Ele poderia atravessá-la, mas as árvores do outro lado talvez se estendessem por várias centenas de quilômetros. E se isso fosse verdade, ele estaria marchando ao encontro da própria morte. Aquilo não pareceu incomodá-lo tanto assim e ele ficou preocupado que talvez estivesse ficando louco. Uma  coisa dessas deveria incomodá-lo, afinal de contas.

Ele ouviu um farfalhar às suas costas e se agachou, enterrando-se na vegetação
rasteira. Um pássaro saiu voando de um galho, seguido de outro; mais adiante havia algo mais pesado, fazendo mais barulho. Ele empunhou seu rifle e se aproximou pisando com força, esperando por uma raposa ou talvez algo mais maligno. Mas nada apareceu, e ele relaxou novamente, pendurando o rifle de volta no ombro.

Ele seguiu caminhando, observando a lua crescente, e estimou que devia ser por volta de nove da noite. Mamãe, Jane e Joseph estariam em casa agora, pendurando meias na lareira. O homem do Departamento de Guerra deveria estar lá com eles, sendo alvo dos olhares frios de Joseph. Os empregados estariam começando os preparativos para o café da manhã de Natal. Os que ainda estivessem lá, é claro. Ele tinha topado com William, que havia trabalhado para eles durante sete anos, quando os caminhos dos seus batalhões se cruzaram alguns meses antes.

“Olá, William”, ele disse. “Bom te ver por aqui.” William havia batido na porta do seu quarto tarde da noite, certa feita, quando ele tinha dezessete anos, e perguntado se havia alguma coisa que poderia fazer por ele. Hawke balançou a cabeça, surpreso.

“Nada, obrigado”, ele disse.
“Tem certeza, senhor?”, perguntou William.
“Absoluta”, disse Hawke. “Acho que vou entrar agora. Boa noite, William.”
Demorou meses até que ele entendesse o que tinha acontecido e, quando finalmente entendeu, ele quis desesperadamente contar pra alguma pessoa, mas não conseguiu pensar em ninguém. Ele ficou com a sensação de que talvez não fosse sair muito bem daquela história.

“É, soldado Hinton, soldado Hawke”, disse William, quando eles se encontraram na trincheira, tirando o cigarro da boca e examinando a bituca. “Nós somos iguais, eu e você.”

Ele pensava no ganso, agora, e nas batatas assadas. Nos nabos, na couve-de-bruxelas e no faisão. Tortas de fruta, creme irlandês e molho de pão. Mamãe pedindo mais vinho e contando a eles a história de como, quando era jovem, um amigo do seu irmão a havia levado sentada na barra da bicicleta até a igreja para a missa da manhã de Natal, um escândalo do qual ela levou meses para se recuperar. Papai, quando ainda era vivo, propondo um brinde ao Rei. A vez em que Jane engasgou com um osso de peru. A manhã em que Joseph deu um chilique quando acabou de abrir os presentes. Será que eles estavam pensando nele agora, ele se perguntou?

À sua frente, vozes. Seu rifle se ergueu mais uma vez. Ele parou e ficou escutando, atento ao sotaque alemão, suas palavras ásperas, os sons guturais que se formam no fundo da garganta. Seria tão ruim assim ser feito prisioneiro? Ou levar um tiro? Ele tinha visto aquilo acontecer tantas vezes e geralmente acabava numa questão de segundos. Era difícil imaginar que você sentiria dor. Caso acontecesse, ele preferia ser alvejado no peito. Ele não gostava da ideia de ter sua cabeça rachada ao meio. Ele ficou em dúvida sobre que caminho seguir, as árvores o cercavam, ele sentiu-se claustrofóbico. Marchou em frente; decidiu correr o risco.

McGregor, com um gorro vermelho na cabeça. Um gorro de Papai Noel. De onde ele tirou aquilo? Oakley, pela primeira vez sem chorar, estava sentado, olhando para o nada. Summerfield distribuía pedaços de marzipã, uma guloseima natalina.

“Algo a relatar, Hawke?”, perguntou o sargento, e ele sacudiu a cabeça. Ele tinha voltado pro lugar de onde havia partido. Ele olhou para suas botas; elas o tinham traído. Que ano mesmo era esse que estava chegando? Isso não poderia durar mais muito tempo, não é? Aquela coisa toda já estava ficando ridícula.
“Achei que você tinha dado no pé quando não conseguimos encontrá-lo”, disse o
sargento.

“Eu, senhor? Não, senhor.”
“Só estou brincando, Hawke. Não leve tudo tão a sério. Por que não come um pedaço de marzipã? Summerfield, venha aqui e dê um pedaço de marzipã pro Hawke. Sabe, minha mãe fazia marzipã toda Noite de Natal. O cheiro se espalhava pela casa inteira. Uma lembrança maravilhosa.”

Hawke pegou um pedaço e deu uma mordida, o sabor das amêndoas e do mel adocicando sua saliva. Ele entrou na trincheira e seguiu por ela até um buraco vazio, colocou o rifle ao seu lado e se encostou na parede, fechando os olhos. Sons à distância, através dos campos, além das escadas e do arame farpado, o gramado revolvido, a lama ensanguentada. Botas dançando nos estrados de madeira. O tiroteio começando, as armas disparando. O barulho dos homens quando caíam em suas linhas. Era véspera de Natal e não haveria folga para os ímpios. Ele pegou seu rifle mais uma vez e ajeitou o capacete na cabeça. Ele precisava chegar à escada número cinco. Não havia tempo a perder. Bombas explodiam no céu sobre sua cabeça, um dos maiores shows de fogos no planeta. Melhor estar aqui do que numa floresta sozinho, ele pensou, quando pôs sua bota no degrau e começou a subir, sem hesitar enquanto se jogava para cima, ficava de pé e começava a atacar.


É uma bela visão, ele pensou, enquanto o campo se acendia à sua frente como se fosse a entrada para outro mundo. A gente não vê esse tipo de coisa em casa.




                                                         John Boyne


John Boyne nasceu na Irlanda, em 1971, e mora em Dublin. Escreveu diversos romances que já foram traduzidos para mais de quarenta idiomas. Seu livro mais célebre, O menino do pijama listrado (2007), lhe rendeu dois Irish Book Awards, vendeu mais de 5 milhões de exemplares pelo mundo e foi adaptado para o cinema em 2008.

http://www.johnboyne.com/;
https://twitter.com/john_boyne



2 comentários:

  1. Feliz Natal para toda a equipe da Saga Literária.

    Beijos,
    Blog Gaby DahmerFanpage

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    1. Obrigado Gaby Dahmer, a equipe Saga Literária deseja um maravilhoso final de ano para você, feliz 2017.

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