02/05/2017

[RESENHA #240] O REFLEXO PERDIDO E OUTROS CONTOS INSENSATOS - E.T.A. HOFFMANN


Título: O Reflexo Perdido e outros contos insensatos
Autor: E.T.A. Hoffman
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 264
Ano: 2017
ISBN:9788574482644
Onde Comprar: Amazon - Saraiva

Sinopse: Esta coletânea intitulada "O Reflexo Perdido e outros contos insensatos" é organizada, traduzida, prefaciada e anotada por Maria Aparecida Barbosa - de "Reflexões do gato Murr", também publicado pela Estação Liberdade -, propõe um recorte abrangente e revelador da obra de E.T.A. Hoffmann (1776-1822). Os textos atestam o virtuosismo estilístico e temático do autor, que se tornou um dos principais expoentes do Romantismo alemão por sua originalidade, irreverência e iconoclastia.
A difusão de fronteiras entre realidade e ficção, a intertextualidade com seus contemporâneos (inclusive "emprestando" personagens de outros autores), o teor filosófico com que envolve seus temas fantásticos e de horror: essas são algumas marcas de Hoffmann que tiveram grande influência na literatura alemã posterior a ele. Sobre o princípio que permeia esta edição, o prefácio da organizadora, citando o autor, explica: "a poesia deve ser imbuída de fecunda fantasia, as personagens cheias de vida devem feições plásticas delineadas de modo de envolver com força mágica [...]".

Resenha: Cavaleiro Gluck - Uma lembrança do ano de 1809: Quando nosso personagem, músico de certo talento, se acomoda em um pequeno café na região central de Berlin e, acossado pelas terríveis notas tocadas por um indesejável trio, desfere um comentário à terrível e já citado trio, um homem o responde com um murmurio, despertando assim a curiosidade de nosso músico para com aquele homem sentando na mesma mesa que a sua. Sem saber explicar, nosso amigo fica intrigado e interessado em saber mais daquela figura soturna. Após pequena e enigmática conversa, o misterioso personagem o deixa sozinho no café sem dizer palavra. Ainda interessado naquela figura, que também é um músico, vaga por alguns dias na busca dele. Peorém, foi o acaso que os colocou juntos novamente, quando nosso amigo passava m frente a um teatro onde seria apresentada a ópera Armida de Gluck. Antes que pudesse entrar no teatro, nosso amigos avista o misterioso músico que o interpela e o convida a ouvir Armida, mas não no referido teatro e sim na sua própria casa, onde nosso querido personagem irá descobrir a verdadeira origem do misterioso, confuso e soturno músico.

"Ao pronunciar as últimas palavras, ele deu um salto e caminhou em direção à saída do salão com passos rápidos e juvenis. Depois de esperá-lo inutilmente por algum tempo, decidi retornar à cidade." p. 22.
Kreisleriana: Sofrimento musical do compositor Johannes Kreisler: Nesse conto acompanhamos um músico e compositor, cansado e entediado de festas onde tocava para pessoas com discernimento musical quase zero, infeliz por ter que acompanhar cantoras terríveis aos ouvidos dos eruditos em festas dadas pelo conselheiro Röderlein, um homem rico, com duas filhas que dizem dançarem com deusas, falarem francês como anjos e tocarem, cantarem e pintarem como musas. Porém aos ouvidos do nosso protagonista são apenas muitíssimo razoáveis, o que o aniquila a cada vez que tem a necessidade de acompanhá-las como pianista. Sua única felicidade até então é seu pupilo Gottlieb que o acompanha lindamente com seu violino, e o toma como muito talentoso e sensível. Nosso protagonista busca seu refúgio através da música de Mozart, Haydn e Beethoven, o que o encanta e o maravilha.

"Como a música é altamente maravilhosa, quão pouco o homem penetra seus profundos segredos! Mas não é verdade que a música habita o próprio coração do homem e preenche seu íntimo de tal maneira com suas manifestações encantadoras que todo o sentido se volta a elas, e uma vida nova e transfigurada arranca do homem aqui mesmo a pressão, a tormenta opressiva da existência terrena?" p. 34.
O Reflexo Perdido [ou As aventuras da noite de São Silvestre]: Quando nosso personagem encontra em uma festa do Senhor Desembargador, seu antigo amor, Julia, suas esperanças se renovam em tentar retomar seu amor avassalador. Porém, descobre que sua amada se casou e toda suas esperanças vão ao chão. Atordoado e infeliz, corre da festa e adentra a noite tempestuosa afora. Entrando em uma taverna, pede uma cerveja e mal tem tempo de degustá-la, um homem pede entrada na taverna. A primeira coisa que o tal homem pede é que cubram todos os espelhos e depois de um encontro insólito com nosso personagem, ele se vai. Aturdido pelo estranho encontro e infeliz pela descoberta na festa que sua amada Julia ter se casado, percebe que não tem mais como ir embora e pede um quarto ao taberneiro. Para sua surpresa, acaba ficando no mesmo quarto que o misterioso estranho. Certo ter havido uma confusão na escolha do quarto pelo taverneiro, tenta se retirar, mas o homem ali deitado diz não ter restrições e poderia perfeitamente dividir o quarto com ele. Diferente da atitude que teve na taverna, talvez pelo sono, aquele misterioso homem mais calmo, tem uma breve conversa com nosso personagem e na manhã que se segue, conta toda sua história através de uma carta, onde detalhada suas mazelas por causa de uma amor, sua Giulietta, o fez perder tudo e todos, inclusive seu próprio reflexo no espelho.

"Em sua voz havia qualquer coisa de horrível, e quando tornei a olhá-lo com espanto, ele se transformara radicalmente numa outra pessoa. O homenzinho entrara com uma fisionomia jovem, mas naquele momento me encaravam dois olhos cavernosos de um semblante velho com traços enrugados, pálido como a morte." p. 47.
O Homem-Areia: Quando pequeno, Nathanael, sempre ouvia de sua mãe que o Homem-Areia viria buscá-lo se não fosse deitar no horário estipulado. A curiosidade o levaram a descobrir quem era realmente esse Homem-Areia, mesmo com sua mãe dizendo que ele não existia e que era só uma história para se colocar medo nas crianças para que fossem dormir. Então quando completou 12 anos de idade, já com seu quarto separado dos irmãos menores, Nathanael, descobriu que na verdade, o Homem-Areia, era um conhecido de seu pai que o visitava todas as noites depois que as crianças já estavam dormindo. Por essa descoberta e um acontecimento terrível em sua família, Nathanael vê sua vida mudada completamente. Já adulto, encontra um vendedor de barômetros que tem certeza ser o mesmo homem de seu passado. Ao mesmo tempo em que conhece e se encanta amorosamente pela filha de seu professor e esquece tudo e à todos tamanha devoção à sua linda amada, Olímpia. Porém, o destino guarda mais acontecimentos terríveis na vida de Nathanael, e ele terá que usar de todas as suas forças para que a loucura não o domine totalmente.

" (...) - Sim, Nathanael! Você tem razão. Coppelius é um princípio maligno e nocivo, ele pode exercer efeitos negativos como uma força demoníaca imiscuindo-se visivelmente na via, mas somente se você crê nele, ele existe e age; a fé nele o fortalece." p. 95.
O Anacoreta Serapião: Conta a história de jovem que se recolheu da sociedade e resolveu viver em uma pequena casa, construída por ele mesmo, e viver de sua própria horta. Quando um médico que está de visita na cidade, descobre a verdadeira história do sacerdote, resolve impetuosamente fazer uma visita ao tal homem, que se intitulava o próprio Serapião de séculos atrás. Achando que o tal homem está acometido de algum tipo de loucura, o médico tenta, meticulosamente, se embrenhar na razão daquele estranho homem para tentar dissuadi-lo a, pelo menos, deixar de achar que é o próprio anacoreta Serapião. 

"Se então afirmo que o senhor está acometido pela incurável loucura de tomar o deserto de Tebas por uma pequena floresta, e a remota, muito remota Alexandria pela cidade de Bamberg do sul da Alemanha, o que o senhor poderia objetar? A velha controvérsia não teria fim e nos arruinaria a ambos." p. 130.
As Minas de Falun: Quando Elis Fröbom, um marinheiro, retorna a sua cidade natal depois de um ano no mar, tem a notícia devastadora que sua tão amada mãe havia falecido há pouco mais de seis meses. Desiludido, triste e amargurado, numa noite ele encontra uma velho mineiro que lhe explica em uma longa conversa as vantagens de ser um mineiro. E, melhor ainda, ser um mineiro nas minas de Falun. Mas o que Elis não sabe é que uma velha superstição ou até mesmo maldição que pode recair sobre ele. Resoluto e caído de amores pela filha de seu patrão, resolve trabalhar nas minas de Falun, afim de merecer o amor de Ulla Dahlsjö.

"A partir do instante em que a viu, foi como se um raio trespassasse sua alma, infundindo todo o divino prazer, toda a nostalgia do amor, o fervor até então velado. Ulla Dahlsjö era quem lhe havia estendido a mão firme no sonho fatídico, ele foi capaz então de adivinhar o sentido profundo daquele oráculo e bendisse o destino que o guiara até Falun, nisso se esquecendo, contudo, do velho mineiro." p. 149.

O Conselheiro Krespel ou O Violino de Cremona: O Conselheiro Krespel é um homem excêntrico, jurista e diplomático e também um luthier de violinos. Quando consegue construir sua casa, exatamente nos moldes desejados, por ele, se muda trazendo uma misteriosa cantora que tem uma voz belíssima. Quando um professor, amigo de Krespel, começa a frequentar a casa dele, para descobrir e ouvir essa tão misteriosa cantora, é rudemente expulso pelo Conselheiro sem mais explicações. Algum tempo depois, vem descobrir o grande segredo da misteriosa e bela cantora, pelas palavras do próprio Conselheiro Krespel.

"(...) - Queria que Satã de penas negras atirasse o infame torce-notas no fundo do inferno! - e prosseguiu violento e selvagem. - Ela é um anjo celeste, nada além da pura sonoridade e melodia abençoada por Deus! Luz e constelação da canção!" p. 168.
O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos: O natal na casa dos Stahlbaum sempre trazia vários presentes, mas o ponto alto dos festejos sempre era o que o Magistrado Drosselmeyer, padrinho de Marie e Fritz, as crianças da casa, trazia como presente para eles. Eram presentes que ele mesmo construia e tinham sempre uma beleza incomparável. Enquanto Fritz brincava com seus soldadinhos Hussardos que havia ganhado, Marie notou um pequeno bonequinho, um homenzinho com tórax largo e longo, desproporcional às suas perninhas finas e a cabeça também parecia grande demais. Indagando seu pai, descobriu que era um boneco quebra-nozes. 

Marie gostou tanto do pequeno boneco, que seu pai acabou deixando-o sob seus cuidados. Porém, seu irmão Fritz acaba quebrando o boneco quebra-nozes, deixando sua irmã angustiada e triste por tal acontecimento. Tratando-o com muito cuidado, Marie o guarda em seu armário de brinquedos para que ele descanse até que o Magistrado possa consertá-lo. Mas antes de ir dormir, Marie presencia um ataque de um exército de camundongos contra os brinquedos em seu quarto. Testemunha todos seus brinquedos tomando vida e se preparando para o ataque dos camundongos. Até mesmo seu querido Quebra-Nozes sai, mesmo ferido, em ataque ao exército rival. Mas um acidente faz com que Marie se machuque e fique de cama por alguns dias. 

Quando o Magistrado Drosselmeyer sabe do acontecido, vem correndo em auxílio a pequena Marie e para entretê-la conta a história de uma bela princesa que foi amaldiçoada por uma ratinha, a senhora Ratonilda, que a deixou deformada e somente poderia ser curada, se uma certa noz muito rara fosse quebrada por um jovem imberbe e que jamais tivesse usado botas. E foi assim que as crianças conheceram a verdadeira história do querido Quebra-Nozes.

"A princesa engoliu logo a polpa e - que maravilha!! - a feiura sumiu e surgiu em seu lugar uma imagem angelical de mulher, com rosto tecido em flocos de seda rosados e alvíssimos, olhos azuis brilhantes e abastados cabelos cacheados em caracóis quais fios de ouro." p. 229. 

Opinião: Conheci a escrita de E.T.A Hoffmann através do livro O Castelo Mal-Assombrado, edição da extinta e saudosa editora Círculo do Livro. Na época, um adolescente de 15 anos de idade, já fiquei impressionado com a escrita de Hoffmann. Hoje, 30 anos depois, me deparo com esse livro da Editora Estação Liberdade e com uma tradução, organização e notas de Maria Aparecida Barbosa, que realmente é impressionante.
A bela escrita de Hoffmann continua a me impressionar e suas descrições nos contos presentes são pequenos deleites daqueles que realmente gostam histórias magistralmente escritas. Um dos pontos na escrita de Hoffmann é justamente a inclusão de assuntos como a música, presente praticamente em todos os contos dessa edição. Podemos ver o amor que ele nutria pela composição, execução e audição no conto "O Cavaleiro Gluck - Uma lembrança do ano de 1809", onde presenciamos a singularidade de um compositor na forma do personagem misterioso. Ou, em "Kresleiriana - O Sofrimento musical do compositor Johannes Kreisleir", título esse, autoexplicativo e, também presente no excepcional conto titular "O Reflexo Perdido".

Apesar de ter conhecido o escritor pelo gênero Terror Clássico, presente aqui através das situações extremas em que alguns personagens são obrigados a passar nos contos, também temos uma história bem no estilo conto de fadas ou fábulas clássicas no conto "O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos", que é realmente uma bela fábula e que deu origem ao famoso Ballet russo composto por Tchaikovsky.
A literatura de Hoffmann pode ser considerada como literatura fantástica dentro do romantismo alemão e em suas obras é comum personagens passarem as provações do amor e da loucura. 
É muito interessante ver como se comportava uma outra geração em situações de relacionamento amoroso, por exemplo, e, também como as pessoas davam real importância a própria palavra. A confiança e honestidade eram importantíssimas no caráter da maioria dos personagens das histórias de Hoffmann. Claro, o lado contrário também tem sua parcela de grande importância no livro, afinal de contas, não existe tragédia humana sem um personagem vil e asqueroso. Outra coisa que o escritor costumava fazer é trazer personagens reais as tramas ou até mesmo "emprestar" alguns de outros escritores, o que é muito bacana.

O Reflexo Perdido e outros contos insensatos, teve um trabalho de tradução, organização e notas fenomenal e a editora e a tradutora responsável Maria Aparecida Barbosa, estão de parabéns pelo cuidado com a obra de E.T.A. Hoffmann. A edição da Editora Estação Liberdade é em brochura com capa brilhante, fonte agradável e papel branco. 
O Reflexo Perdido e outros contos insensatos é um livro que nos presenteia com um dos melhores escritores de sua época, E.T.A. Hoffmann, e é realmente IMPERDÍVEL para qualquer leitor que goste de histórias muito bem escritas.
Agradeço IMENSAMENTE à Editora Estação Liberdade pelo envio do livro, que me proporcionou uma leitura saudosa e prazerosa.

6 comentários:

  1. Não conhecia o autor. E apesar de você falar como a maestria da escrita de E.T.A Hoffmann acho que esse não é um livro que me chama a atenção no momento. Quem sabe no futuro eu dê uma chance.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Hoffmann vale muito a pena. Dê uma chance sim. Muito obrigado, profano feminino.

      Excluir
  2. É interessante, apesar de não ser o tipo de leitura que me atrai de primeira. Gostei muito de como você colocou sua opinião, achei a resenha bem completa. Beijos e sucesso!

    Carolina Gama

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado pelas palavras, viu Carolina. Olha, vale a pena ler Hoffmann, você pode se surpreender. Mais uma vez, obrigado e beijos.

      Excluir
  3. Oie
    muito legal sua resenha, não sei se é bem o meu tipo de leitura mas com certeza fiquei curiosa por ser algo diferente, e é ótimo dar uma variada ainda mais com coisas tão inteligentes

    beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Catharina, com certeza é bom variar sim. Muito obrigado pelas palavras. Dê uma chance ao Hoffmann, vai gostar. Beijos e mais uma vez, obrigado.

      Excluir

INSTAGRAM

Publicações Recentes

recentposts

Publicações Populares