[RESENHA #256] NÓS - IEVGUÊNI ZAMIÁTIN - Saga Literária

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segunda-feira, maio 29, 2017

[RESENHA #256] NÓS - IEVGUÊNI ZAMIÁTIN


Título: Nós
Autor: Ievguêni Zamiátin
Editora: Nós
Páginas: 344
Ano: 2017
ISBN: 9788576573111

Onde Comprar: Aleph - Amazon

Sinopse:
 Nós é um romance distópico escrito entre 1920 e 1921 pelo escritor russo Yevgeny Zamyatin. A história narra as impressões de um cientista sobre o mundo em que vive, uma sociedade aparentemente perfeita mas opressora, e seus conflitos ao perceber as imperfeições dele, ao travar contato com um grupo opositor que luta contra o "Benfeitor", regente supremo da nação. O livro só adentrou legalmente a pátria-mãe do autor em 1988, com as políticas de abertura do regime soviético, devido à censura imperante no país.

Resenha: A trama em Nós é narrada por D-503, girando em torno desse personagem. D-503 é um matemático e engenheiro chefe de um ambicioso projeto que tem por objetivo a construção da Integral, um foguete/espaçonave que visa explorar outros planetas e levar a felicidade plena para esses outros locais, tendo em vista que a sua sociedade é considerada perfeita. D-503 é também um motivo orgulho para todos e enquanto trabalha nesse projeto ambicioso, ele vai narrando como é a vida mil anos após a Guerra de 200 anos, que dizimou grande parte da humanidade.

"Isso eu não consigo compreender de maneira nenhuma. Afinal, por mais limitada que fosse sua inteligência, eles deveriam, apesar disso, entender que esse tipo de vida era um verdadeiro assassinato em massa, cometido aos poucos, dia após dia [...]" p. 31.

Essa sociedade em que D-503 vive é conhecida como Estado Único, uma sociedade totalitária, onde cada questão é calculada de forma milimétrica, pois utilizam a matemática como base para tudo, por ser uma ciência exata e racional. Os usos e costumes dos povos ancestrais, aqueles do século XX, não são adotados, os povos desse século são considerados bárbaros e irracionais. 

"De longe já era visível uma mancha turva e esverdeada, lá atrás do Muro. Em seguida, sem querer, um leve aperto no coração - para baixo, para baixo, para baixo, como se descêssemos uma montanha escarpada [...]" p. 47.

Nesse mundo pós-guerra, os sobreviventes construíram uma enorme muralha física, liderada pela figura do Estado Uno e representada pelo Benfeitor, que foi o responsável mudanças nessa sociedade. Aliás, nessa sociedade apresentada por D-503, as pessoas vivem em apartamentos com vidros transparentes, isso serve para que as pessoas possa vigiar de forma mútua a vida das outras, mas a transparência significa falta de liberdade.

No Estado Único, vemos que todos tem funções e horários determinados à cumprir, as pessoas são designadas como números e todos se vestem de maneira semelhante, utilizando seus unifs (uniformes). O simples ato de comer uma fruta é visto como algo animalesco e a comida que consomem é na verdade sintética, derivada do petróleo. A liberdade é suprimida, pois o governo dessa sociedade considera que a felicidade só pode aparecer e ser alcançada, quando não existir a liberdade.

"— Por que você pensa que as bobagens são coisas ruins? Se a tolice humana fosse nutrida e cultivada ao longo dos séculos da mesma maneira que a inteligência, talvez conseguíssemos dela algo extraordinariamente precioso." p. 181.

Em certo momento, D-503 conhece I-330 e tudo começa a mudar em sua existência, pois ele começa a duvidar e questionar toda essa perfeição que é apresentada em sua sociedade, abrindo a sua mente aos poucos, o protagonista adota comportamentos que são considerados estranhos entre eles, D-503 começa a imaginar, sonhar e se apaixonar, algo que não faz parte do cotidiano dessa sociedade, o que o leva a acreditar que está doente, além disso se vê no meio de uma revolução que está para acontecer.

Opinião: Nós, de Ievguêni Zamiátin é considerado por muitos como o marco inicial da distopia. Esse trabalho do escritor russo serviu de inspiração para o surgimento de livros como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell, sedimentou o caminho para outros livros distópicos como Fahrenheit 451 de Ray Bradbury e muitas décadas depois Jogos Vorazes de Suzanne Collins. 
Esse é um livro inteligente e muito reflexivo, super indicado aos fãs de ficção científica, tendo em vista o cenário distópico apresentado pelo escritor russo, permeado pela opressão e o totalitarismo. Vemos que grande parte dos diálogos, bem como os pensamentos do protagonista, possuem cunho político, social e filosófico. A figura do Benfeitor é totalmente totalitarista e ao mesmo tempo algo que remete a morte, pois todos aqueles que fogem das regras nessa sociedade, praticando condutas alheias impostas para todos, recebem como punição a morte.
Em Nós, o Estado Único é formado por uma sociedade que vive e respira do racionalismo, tudo é matemático e calculado, a liberdade e direitos individuais nesse universo apresentado por Zamiátin beiram ao nulo, ninguém é conhecido como pessoa, todos são designados como números. Essa é uma sociedade simplesmente robótica, os sentimentos humanos como o amor ou o ódio são meras lembranças e até mesmo o sexo é algo controlado.
A edição publicada pela Editora Aleph traz dois texto complementares. O primeiro texto é uma resenha elaborada por ninguém menos que George Orwell (1984, A revolução dos Bichos), que exalta o livro Nós do escritor russo Zamiátin. O segundo texto, é uma carta elaborada pelo próprio autor para Stálin, líder máximo da União Soviética naquele ano de 1931, pois Zamiátin estava sofrendo censuras em seus trabalhos e queria mudar de país.
O projeto gráfico é maravilhoso, está certamente entre as cinco edições mais bonitas que a Aleph lançou nos últimos anos. O design, a arte, encadernação em capa dura, as bordas pintadas de laranja e preto, todos esses aspectos saltam aos olhos, impresso em pólen soft, o livro apresenta fonte e espaçamento confortáveis. A editora está de parabéns pelo belo livro que publicou.

8 comentários:

  1. Olá! Tudo bem? Quando comecei a ler sua resenha, logo pensei em como os autores russos parecem sempre estar à frente de seu tempo, enquanto paralelamente são atemporais, já que seus textos acabam sempre se encaixando com​ a realidade atual. Esse livro parece ser um belo exemplar disso, especialmente pela época em que foi escrito, como se o autor tivesse uma janela aberta para o futuro breve que se seguiria e uma ampla intuição sobre o que pode vir a surgir na atualidade diante de tantos "dramas" vividos na sociedade moderna - mas esse é assunto pra outra pauta ;)
    Adorei a resenha!!! Bjoooo

    www.blogpapelpapel.blogspot.com.br

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  2. Olá! O livro deve ser muito bom para ser um marco inicial da distopia e servir como inspiração para o surgimento de outros livros. Até mesmo inspiração para Jogos Vorazes? Uau! Não sou muito de ler ficção científica, mas acho interessante. Anotei a dica. Beijos'

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  3. Acho muito legal que esse livro seja considerado o marco da distopia e tenho muita vontade de conhecer melhor a obra.
    Beijos
    Mari
    www.pequenosretalhos.com

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  4. Percebi de verdade que ele é um livro super especial.
    Apreciei muito as curiosidades sobre ele, e saber que ele é considerado o marco inicial da distopia, só fez crescer meu interesse.
    Eu sou louca por distopias. Mas gosto de assisti-las, ao invés de lê-las.
    Histórias distópicas têm sido o que eu mais tenho visto ultimamente, mas leitura de livros com essa temática, eu não aprecio tanto, entende?
    Mas esse livro por ser um clássico e por ter essa relevância tão grande em relação à obras desse tipo, é algo que precisa ser lido por alguém que como eu, tem embarcado em obras distópicas tão frequentemente.
    Eu gosto muito de entrar em contato com os filmes e ir traçando um paralelo sobre a realidade encontrada em nossa sociedade atual.
    Adoro refletir dessa forma.
    Sim! O projeto gráfico realmente está magnífico!
    Grata pela dica, moço! A resenha foi incrível!

    Eliziane Dias

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  5. Olá, tudo bem? Apesar de saber a importância que a história tem para o gênero distopia, e toda alta que tem hoje em dia, nunca me interessei tanto por ele. Acho a edição lindíssima e digna de pagar qualquer valos, mas ainda não tive o click de querer realizar a leitura. Quem sabe futuramente?!
    Beijos,
    diariasleituras.blogspot.com.br

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  6. Olá, estou muito empolgada para ler esse livro, ainda mais por que vai ser uma das referencias ao meu TCC, sem falar que gosto muito do genero! gostei muito da sua opinião sobre a obra, obrigada por partilhar!

    Bjs

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  7. Oii!!
    Eu já comecei a ler imaginando nossa deve ter sido um dos primeiros livros distópicos pela data, e realmente foi o marco!
    Eu gosto muito de distopia que já fiquei bem curiosa para ler esse, tomara que eu tenha a oportunidade.

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  8. Oi Yvens, tudo bem?
    A edição realmente está mito bonita, a editora caprichou. Adoro distopias e sou fã de ficção científica, portanto acho que o livro é para mim, risos... E senti que aqui tem uma crítica política muito mais apurada que os livros distópicos de hoje em dia. Parece ser uma obra imperdível. Sua resenha ficou ótima!!!
    beijinhos.
    cila.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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