19/06/2017

[RESENHA #271] AS TUMBAS DE ATUAN - CICLO TERRAMAR - LIVRO 2 - URSULA K. LE GUIN


Título: As Tumbas de Atuan - Ciclo Terramar II
Autor: Úrsula K. Le Guin
Editora: Arqueiro
Páginas: 160
Ano: 2017
ISBN: 9788580417074
Onde comprar: Saraiva - Amazon

Sinopse: Quando Tenar é escolhida como suma sacerdotisa, tudo lhe é tirado: casa, família e até o nome. Com apenas 6 anos, ela passa a se chamar Arha e se tornar guardiã das tenebrosas Tumbas de Atuan, um lugar sagrado para a obscura seita dos inominados. Já adolescente, quando está aprendendo os caminhos do labirinto subterrâneo que é seu domínio, ela se depara com Ged, um mago que veio roubar um dos maiores tesouros das Tumbas: o Anel de Erreth-Akbe. Um homem que traz luz para aquele local de eternas trevas, ele é um herege que não tem direito a misericórdia. Porém, sua magia e sua simplicidade começam a abrir os olhos de Arha para uma realidade que ela nunca fora levada a perceber e agora lhe resta decidir que fim terá seu prisioneiro. Finalista da Newbery Medal, que premia os melhores livros jovens de cada ano, As Tumbas de Atuan dá continuidade ao elogiado Ciclo Terramar com uma singela história que rompeu com os paradigmas de heroína quando foi lançada.

Resenha: As Tumbas de Atuan, nos conta a história de Tenar, uma garotinha que vivia com seus pais em uma choupana, mas que teve de ir embora assim que completou 5 anos. Ela foi levada pelas sacerdotisas da seita dos Inominados, pois na morte da Sacerdotisa Única das Tumbas de Atuan, sua sucessora deveria ser uma menina que tivesse nascido no mesmo dia de sua morte. E foi assim que levaram a pequena Tenar de sua família. Quando completou 6 anos de idade, Tenar na Sala do Trono, foi entregue aos inominados e assim perdeu tudo, inclusive seu nome. Tenar deixou de ser Tenar e se tornou Arha, A Devorada, a guardiã das Tumbas de Atuan.

"- Por que você deixa seu coração se apegar à menina? Vão leva-la embora no mês que vem. Para sempre. Melhor seria enterrá-la e acabar logo com o sofrimento. De que adianta se apegar a alguém que você está fadada a perder? Ela não tem serventia para nós. Se pagassem por ela, ainda seria alguma coisa, mas não é o que farão. Vão leva-la e pronto." p. 13.
A cada ano que se passava, ficava mais difícil, Arha, ter lembranças de sua mãe. Seu lugar era outro agora, ali nas tumbas, mas sempre que podia, ela pedia para que seu guardião, o vigia Manan, lhe contasse como ela foi escolhida, mesmo sabendo de tudo, pois a sacerdodisa alta, Thar, lhe contou toda a história até que ela a decorasse. Mas mesmo assim, ela pedia para que Manan lhe contasse como "ela", Tenar, havia sido escolhida e não a linhagem da Sacerdotisa Única, Arha. Então, ouvia mais uma vez como foi escolhida e como sua mãe tentou enganar as sacerdotisas e o Rei-Deus.

(...)"Lá estava a menininha de olhos brilhantes, deitada num catre de junco, chorando e gritando, com o corpo todo coberto de lanhos e manchas vermelhas de febre, e a mãe se lamuriando ainda mais alto que o bebê. "Ai, ai! Minha filhinha está com os Dedos da Bruxa" Era assim que ela se referia à varíola." p. 23.
A vida de Arha era solitária e rotineira, seu tempo era usado com aulas e treinamentos. Também aprendia músicas e danças sacras, histórias das terras de Kargad. Porém, somente Arha aprendia os ritos dos Inominados, que eram ensinados apenas por uma pessoa, Thar, a Suma Sacerdotisa dos Deuses Gêmeos.

Quando Arha chegou a idade de quinze anos, Kossil, uma Sacerdotisa do Rei-Deus, lhe apresenta uma das atividades a ser "lembrada" pela guardiã das Tumbas de Atuan: punir invasores. Para Arha a novidade era finalmente conhecer as tumbas, os labirintos e os grandes tesouros. Mas, dessa vez Arha somente iria até certo ponto nas tumbas e também não iria adentrar no labirinto, mas ela descobre que ali não é possível ver nada além de escuridão, pois as tumbas do Inominados não permitia a luz.

"Kossil, corpulenta e de roupas pesadas, teve que se espremer pela abertura estreita. Assim que entrou, apoiou as costas na porta e, empurrando com esforço, fechou-a. Um breu completo. Não havia luz. A escuridão parecia comprimir os olhos abertos como feltro molhado." p. 38.
Aquela incursão tinha um objetivo bastante claro para os deveres de Arha. Assim que chegou onde os prisioneiros estavam acorrentados, Kossil explicou a Arha o que os homens haviam feito. Também lhe disse que tiveram as línguas cortadas e que ela não deveria falar com eles, apesar de ambos serem de sua propriedade, mas para dar ao Inominados como sacrifício. O que ela efetivamente o fez, determinando o tipo de sentença de morte que teriam os prisioneiros. Assim resolvidos, Arha só queria sair dali o mais rápido possível, pois o fardo não havia sido pequeno.

"A menina assentiu. Ergueu os olhos para o rosto da mulher e pensou em como parecia estranho, empalidecido pelo medo a custo dominado, mas triunfante, como se Kossil se regozijasse da fraqueza dela. (...) Ao tentar se afastar de Kossil, sentiu suas pernas bambearem e viu a sala rodar. Desmaiou encolhida aos pés da sacerdotisa." p. 44.

Arha, ficou mal por vários dias e delirando com os condenados e só de pensar em como seria com o próximo grupo de condenados, a deixava muito aflita. Mas o Rei-Deus de Awabath não enviou outro grupo e aos poucos, Arha parou de sonhar com os condenados. Mas ela precisava voltar, pois a Sacerdotisa precisava conhecer seus domínios sem pavor. E assim o fez.

Em um de seus encontros com Thar e Kossil, Arha, descobriu o real motivo de muitos se atreverem a entrar no reino dos Inominados. Foi assim que ela conheceu a história do amuleto de Erreth-Akbe, o feiticeiro, e que a maioria dos invasores eram também feiticeiros que estavam em busca do amuleto quebrado de Erreth-Akbe, onde uma de suas partes estava guardada, justamente, nos tesouros das Tumbas de Atuan.
Numa noite, no final do inverno, Arha desceu até a tumba para ir a Sala Pintada, mas no caminho percebeu algo que jamais deveria acontecer naquele lugar: luz. Silenciosamente, ela se esgueirou e descobriu de onde vinha aquela iluminação. Arha, viu um homem que carregava um cajado e na ponta dele, ardia a luz que iluminava o caminho dos Inominados. A raiva tomou conta de Arha, pois sabia que aquele homem era um feiticeiro que viera ali para roubar os Poderes das Trevas, e sem pensar berrou a plenos pulmões que aquele intruso fosse embora dali. Afugentado, o homem apagou a luz do cajado. Arha, saiu dali e sabendo que só haveria uma saída possível das tumbas, trancou o feiticeiro na escuridão da caverna.

"Arha havia capturado seu ladrão. A porta pela qual ele tinha passado era a única maneira de entrar ou sair do Labirinto e só podia ser aberta pelo lado de fora. Agora ele estava lá embaixo, na escuridão subterrânea, e nunca mais sairia." p. 66.
Arha, sabia que o futuro do homem estava selado, ele deveria morrer, porém, ela ainda não estava certa do que fazer. Resolveu não contar nada para Kossil e assim, ficou a observar o feiticeiro e percebeu, pelas atitudes do mesmo, que havia algo mais ali do que apenas um ladrão de tesouros. Então, resolveu que queria descobrir mais sobre esse estranho homem que através da magia, conseguiu adentrar o labirinto das Tumbas de Atuan.

Opinião: Mais uma vez, Ursula K. Le Guin, nos mostra uma fantasia diferente do normal. Longe das batalhas, paredes de escudo, mortes violentas e tramas políticas, em As Tumbas de Atuan, a autora nos envolve no martírio de uma menina que é retirada do seio de sua família para servir de guardiã de uma seita dos poderes das Trevas. A narrativa é muito boa e nos envolve de uma forma que é bem difícil parar de ler e também não se sensibilizar com o que Arha, a guardiã das tumbas teve que passar em sua breve vida.

A grande virada na história, acontece quando Ged, o Gavião, entra no labirinto para roubar o amuleto de Erreth-Akbe e acaba ficando preso. É interessante ver que, mesmo Ged, sendo um feiticeiro já experiente, ainda comete seus erros e corre o risco de perder a vida como qualquer outro personagem comum ou sem poderes. A autora tira aquela aura de poder exponencial dos magos e nos apresenta algo mais humano ou o que seria mais próximo da "realidade". Desmistifica aquela história de que mago já nasce poderoso e quando aprende a usar seu poder, é praticamente invencível. E as diferenças não param por aí.
Hoje, já é bastante comum protagonistas femininas nos livros de fantasia, porém, ainda são extremamente exaltadas e poderosas, como se fosse uma mera cópia masculina do papel "herói". Já em As Tumbas de Atuan, a "heroína" é falha, insegura e, claro, inexperiente. Mas isso nada impede do leitor se identificar, gostar e torcer por toda a trama por ela, aliás, é exatamente isso que ocorre. Acredito que como sequência do aclamado "O Feiticeiro de Terramar", funcionou muito bem e manteve aquilo que, acredito, a escritora queria mostrar nessa série: Uma fantasia diferente e mais humana.

A edição de As Tumbas de Atuan, manteve a mesma qualidade e formato do primeiro livro. A capa ficou muito bonita, o livro foi composto com papel amarelado, fonte agradável e mapas de Terramar e das Tumbas nas primeira páginas. Agradeço a editora Arqueiro por ceder essa obra e me proporcionar mais uma vez, horas prazerosas no mundo de Terramar.
Meus queridos leitores, nem preciso dizer que "As Tumbas de Atuan - Ciclo Terramar - Livro 2" de Úrsula K. Le Guin é IMPERDÍVEL, preciso?!
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Clique aqui para ler a resenha de "O Feiticeiro de Terramar - Ciclo Terramar - Livro 1.

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