[RESENHA #333] MAL-ENTENDIDO EM MOSCOU - SIMONE DE BEAUVOIR - Saga Literária

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domingo, outubro 15, 2017

[RESENHA #333] MAL-ENTENDIDO EM MOSCOU - SIMONE DE BEAUVOIR

Título: Mal-Entendido em Moscou
Autora: Simone de Beauvoir
Editora: Coleções Folha (Folha de S. Paulo)
Páginas: 80
Ano: 2017

ISBN: 9788579493348
Onde Comprar: Coleções Folha - Livraria Folha

Sinopse: 
Dois intelectuais que passaram dos 60 contam o que pensam da vida de casados, do país que visitam e do desassossego com a idade que chega. O bom casamento não tem mais paixão. A boa carreira não teve realização maior. O corpo decai; há o susto de se perceber velho quando ainda ontem a gente se imaginava jovem. Mas o "Mal-entendido em Moscou" vai além dessa história comum. Trata de modo refinado uma crise conjugal e política, a decepção com a União Soviética. É difícil dissociar os personagens das figuras de Simone de Beauvoir (1908-86) e de Jean-Paul Sartre (1905-80), dupla central no debate intelectual francês entre os anos 1940 e 1970. A novela alterna os pontos de vista de Nicole e André. Contrapõe pensamentos que os casais não revelam. Mal-entendidos se acumulam até o ponto de uma crise. A decepção com o comunismo não transparece por meio de crítica social, mas na observação frustrante do cotidiano dos russos nos anos 1960, como em um diário de viagem."Mal-entendido em Moscou" é, enfim, um diálogo sobre percursos da vida: casamento, carreira e política. 

Resenha: Escrito por Simone de Beauvoir em 1966, Mal-Entendido em Moscou traz a história de Nicole e André, um casal culto, burgueses e intelectuais de esquerda, outrora professores e atualmente aposentados que estão na casa dos sessenta anos. O casal vive de forma harmoniosa e acompanhamos o envelhecimento de ambos e os efeitos que a idade avançada imputa em suas vidas, o que acarreta em mudanças no dia a dia em decorrência desse estágio avançado da idade.

"Ela ergueu os olhos do livro. Que tédio, todas essas arengas banais sobre a não comunicação! Quando se quer comunicar, mal ou bem, consegue-se. Concordo que não seja com todos, mas com duas ou três pessoas, sim. Sentado no assento ao lado, André lia um romance policial da Série noire." p. 9.

É por volta dos anos 60, em plena Guerra Fria, que o casal resolve embarcar para Moscou em sua segunda viagem à União Soviética e lá, eles encontram Macha, a filha do primeiro casamento de Andre que acaba servindo como guia para o casal. Porém, Macha acaba sendo um estorvo para Nicole e atrapalha seus planos de ter o marido todo para si durante a viagem. Macha é a representação pura e viva do real socialismo, algo completamente diferente daquele idealizado pelo casal, principalmente por seu pai.

"Ele se sentia plenamente feliz, sentado na poltrona entre as duas camas onde estavam instaladas de um lado Macha e do outro, Nicole." p. 17.

A viagem para Moscou acaba por tornar-se frustante para Nicole e com isso abala as suas convicções políticas e também o próprio casamento. Para piorar, todos os locais que Nicole e Andre queriam visitar se faz necessário uma autorização prévia das autoridades competentes, demonstrando toda a burocracia assustadora e limitadora que fere a liberdade das pessoas de se movimentarem por diversos locais em Moscou.

"Indomável Nicole, pensou ele com ternura. Tão enérgica e tão ávida quanto aos vinte anos. Sem ela, ele teria se contentado em dar voltas pelas ruas de Moscou, falando pelos cotovelos, sentando-se em bancos. Quem sabe desta maneira teria se integrado melhor à atmosfera da cidade. Mas, se tivesse lhe dito isso, ela teria ficado aflita, o que não queria de modo algum neste mundo." p. 38.

Com saudades da sua vida em Paris e principalmente da intimidade que tinha com o marido em sua casa, Nicole vai ficando insatisfeita, mesmo com Macha sendo amável e dando atenção para ambos, ela fica incomodada. É nessa viagem que surge a ruptura, mas ao mesmo tempo pode ser algo benéfico para ambos. Fica claro no ar o pesado fardo da velhice e do tempo que resta para cada um deles, deixando em aberto a questão de como aproveitar da melhor forma o tempo que lhes restam, assim como o caminho que ambos podem e devem seguir em busca da difícil harmonia.

Opinião: Essa foi a minha primeira experiência lendo Simone de Beauvoir e já deixo claro que foi um imenso prazer ler Mal-Entendido em Moscou. Fica claro em seu texto toda a habilidade, inteligência e conhecimento teórico que a autora despeja no leitor através da sua escrita. A narrativa é em terceira pessoa e Simone demonstra intimidade com os personagens que, por sinal, são singelos e verdadeiros. A intimidade de Simone com os personagens é algo que remonta as experiências de sua própria vida e também do relacionamento que teve com o seu marido, o filósofo Jean-Paul Sartre.
Mal-Entendido em Moscou é um livro profundamente reflexivo, leva ao leitor um assunto que para muitos é um tabu, o envelhecimento. É com esse tema que a autora nos apresenta as dificuldades da idade avançada, todos os medos e desejos, além é claro da importância do amor em qualquer fase da vida, mas principalmente nessa fase em que os seres humanos estão caminhando para o fim da vida e o amor torna-se algo para unir e complementar. Simone tece os conflitos existenciais por meio de um retrato muito real e sincero. Simplesmente adorei o livro e recomendo para todos que querem conhecer a escrita de Simone de Beauvoir.
Sobre a Edição: A edição é em capa dura, está muito bonita e mantém o padrão de qualidade que encontramos nos volumes anteriores da coleção Mulheres na Literatura. A revisão ficou muito boa, as folhas são amareladas, a fonte e o espaçamento ficaram em bons tamanhos. A diagramação está ótima e a editora realizou um belo trabalho.
Sobre a Autora: Simone de Beauvoir nasceu em 9 de Janeiro de 1908 na cidade de Paris, França. A francesa foi escritora, filosofa existencialista, ativista política e feminista. Simone teve uma vida libertária, foi companheira de Sarte, contudo sempre teve uma relação aberta para outras experiências.

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