[RESENHA #378] PELA BOCA DA BALEIA - SJÓN - Saga Literária

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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

[RESENHA #378] PELA BOCA DA BALEIA - SJÓN

Título: Pela Boca da Baleia
Autor: Sjón
Editora: Tusquets
Páginas: 208
Ano: 2017
ISBN: 9788542209990
Onde comprar: Amazon - Saraiva

Sinopse: No ano de 1635, a Islândia é um pedaço de terra esquecido no meio do oceano gelado, obscurecido pela superstição, pela pobreza e pela crueldade. A curiosidade científica dos homens se confunde com magia e misticismo: alguns admiram o chifre dos unicórnios, os mais pobres idolatram a Virgem em segredo, e tanto livros quanto homens são jogados às fogueiras. Banido para uma ilha inóspita por práticas pouco convencionais da medicina, o velho curandeiro Jónas Pálmason recorda passagens dramáticas de sua vida, como as mortes de três de seus filhos, o exorcismo de um cadáver ambulante e o triste fim de um grupo de baleeiros espanhóis, massacrados pela população de uma vila pesqueira. Pela boca da baleia, do renomado autor e letrista islandês Sjón, é uma evocação mágica e envolvente de uma mente brilhante e de uma era há muito esquecida.

Resenha: A vida do velho Jónas Pálmason em uma ilha esquecida por todos, é tão solitária que o que lhe resta é falar com as aves do lugar. Jónas passou boa parte de sua vida sendo um curandeiro numa pequena vila da Islândia. Entediado e um pouco louco, começa a narrar sua conturbada história de vida à um pequeno pássaro daquela ilha inóspita onde tinha sido mandado há muitos anos por suas práticas medicinais não muito ortodoxas. Jónas era conhecido por muitos nomes, mas o mais usado era Jónas, o erudito. Seus conhecimentos foram passados por seu avô e ainda muito pequeno, começou a aprender a ler e escrever com os livros do velho curandeiro. 

"O avô se apoiou nas muletas, de modo que ficamos da mesma altura, abaixou-se até o chão para pegar a pena, segurou-a por um instante entre os dedos e depois a colocou no meu cabelo, atrás da orelha direita:
- Agora temos que te ensinar como se lê um livro..." p. 21.
O pequeno Jónas, tinha um memória muito boa e logo que aprendeu a ler, sempre dava um jeito de acompanhar os escritos do mestre médico Paracelso Bombasto, que ficava debaixo da cama de seu avô, o qual ele levava para a cozinha para ler sempre que algum forasteiro batia na porta deles. E tanto leu da obra de Bombasto, que acabou lhe rendendo a fama de curandeiro entre as mulheres da cozinha. Logo, Jónas, o curandeiro, já estava sendo consultado pelas mulheres quando tinham algum problema. Mas as coisas não foram fáceis para Jónas que acabou se encrencando um pouco com as mulheres após um acontecimento, natural da idade na adolescência.

"Aquela reação durou não mais que uns segundos, mas foi tempo suficiente para ela perceber, pois ambos tocávamos aquela parte do corpo da velha." p. 29.
Naquele tempo, os islandeses da ilha tinham uma tradição de consagrar o primeiro carneirinho do verão a são Pedro, na festa de Assunção de Maria. Com um pedido da avó, Jónas foi levado para acompanhar todo a procissão. O problema todo para Jónas era que aquela procissão se encaminhava diretamente para o morro da Virgem Maria, que tinha a fama de deixar as pessoas loucas, pois todos juravam que o lugar era habitado por espíritos ocultos da natureza que se defendiam com feitiçarias. Quando Jónas percebeu que era para aquele lugar terrível que estavam indo, a primeira coisa que fez foi dizer que não queria ver o tal do carneirinho. Mas como eu disse antes, as coisas nunca foram fáceis para o Jónas, o curandeiro, que mais tarde se tornaria Jónas, o erudito, justamente por causa dessa temerosa experiência de sua infância.
Opinião: Em "Pela boca da baleia", acompanhamos as histórias de Jónas Pálmason, um curandeiro e poeta naturalista do século 17 que foi condenado por feitiçaria e condenado a viver sozinho em uma ilha no meio do nada na Islândia. É ali que na velhice, Jónas começa a relembrar as passagens de sua vida desde criança, passando por seus aprendizados, suas curas, suas paixões seus desafetos e também seu julgamento e condenação por feitiçaria. Sjón, tem uma escrita um pouco densa, mas muito interessante, pois quando você se dá conta, já está arrebatado pela história do velho curandeiro. O autor mescla em sua narrativa através de Jónas, as religiões católicas que se misturam com práticas pagãs e um toque de mitologia nórdica. Naquela época estava passando pela reforma protestante e existem passagens no livro onde as pessoas rezavam em lugares escondidos, pois tinham até enterrado a imagem da Virgem Maria, a qual eram devotos. Sjón, é bastante ousado em sua narrativa no tocante a certas histórias do catolicismo, onde inclui até mesmo uma interpretação da criação do homem, Adão e Eva, muito interessante e para alguns pode soar um pouco chocante. Sjón também é um poeta e uma parte dessa poesia é passada para a escrita de "Pela Boca da Baleia", mesmo quando nos deparamos com partes mais violentas de um massacre, a escrita de Sjón, suaviza um pouco a situação mas sem tirar o horror dela. Realmente, Sjón é um escritor bastante eficiente, apesar de denso.
"Pela Boca da Baleia" é uma catarse através de mitos nórdicos, religiões proibida, ritos pagãos, mas também trata da hipocrisia do homem, da ganância pelo poder e conhecimento e também do amor; o amor naturalista que ainda existia na humanidade há séculos atrás, expressa na história de Jónas Pálmasson ou como era mais conhecido, Jónas, o erudito. Leitores, "Pela Boca da Baleia", é sim um livro IMPERDÍVEL e agradeço a editora Tusquets pelo envio dessa obra maravilhosa.

Sobre a edição: A editora Tusquets seguiu o padrão de suas edições trazendo em "Pela Boca da Baleia", uma capa belíssima. O livro vem no formato brochura, bem robusta, com folhas amareladas, fonte bastante agradável e ótima revisão. Uma edição muito bem feita e que foi traduzida diretamente do islandês, pelo tradutor Luciano Dutra.
Sobre o autor: Sigurjón Birgir Sigurdsson ou apenas Sjón, é um poeta e romancista islandês e nasceu em 27 de agosto de 1962. Já teve suas obras traduzidas para mais de vinte e cinco idiomas. Vencedor do Nordi Council Literary Prize, equivalente ao Man Booker Prize, pelo romance "A Raposa Sombria", é também letrista e mais conhecido pelas letras do disco "Biophilia" de Björk e também pelas canções de "Dançando no escuro", filme do diretor Lars von Trier.

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