[RESENHA #481] KHADJI-MURÁT - LEV TOLSTÓI - Saga Literária

Novidades

Home Top Ad

Post Top Ad

quarta-feira, maio 30, 2018

[RESENHA #481] KHADJI-MURÁT - LEV TOLSTÓI

Título: Khadji-Murát
Autor: Lev Tolstói
Editora: Editora 34
Páginas: 264
Ano: 2017

ISBN: 9788573266641
Onde Comprar: Amazon - Editora 34

Sinopse: 
Em 1893, Lev Tolstói anotava em seu diário: “A forma do romance acabou”. Com isso o velho conde não queria dizer que estava no fim de suas forças. Muito pelo contrário: iniciava-se aí uma luta que levaria o autor de Guerra e paz e Anna Kariênina à criação de uma nova forma literária, com a concisão da novela, mas a abrangência e a multiplicidade de linhas narrativas dos seus grandes romances. O resultado é Khadji-Murát, uma obra-prima redigida entre 1894 e 1905, publicada postumamente em 1912, e que se mostra de uma atualidade impressionante. Ambientada no Cáucaso, no front entre o exército russo de ocupação e a resistência armada dos povos islâmicos, ela acompanha -como num filme os movimentos do rebelde Khadji-Murát (1796-1852), empenhado na sobrevivência e na afirmação de seus valores. Em vinte e cinco capítulos curtos, a ação se desloca do campo tchetcheno para o russo e vice-versa, instaurando um jogo de perspectivas entre as duas culturas que torna o derradeiro livro de Tolstói um acontecimento revolucionário na sua estrutura e nos temas abordados. O volume se completa com o ensaio “Tolstói: antiarte e rebeldia”, em que o tradutor Boris Schnaiderman, com base nos diários do autor e em extenso material crítico, faz uma síntese esclarecedora da vida e obra do escritor, destacando a posição ímpar que Khadji-Murát ocupa na sua produção.

Resenha: Khadji-Murát é uma obra que foi publicada postumamente, isso ocorreu em 1912, apenas dois anos após a morte de Lev Tolstói (1828-1910). Grande parte dos críticos acreditam que a obra tenha sido composta e escrita entre os anos de 1896 e 1904. A Editora 34 decidiu relançar o livro no Brasil no segundo semestre de 2017, esse volume conta ainda com o ensaio "Tolstói: antiarte e rebeldia". Boris Schnaiderman tradutor responsável pelo presente volume, sugere que a composição seja mais longa, ele argumenta que "os rascunhos encontrados após a morte de Tolstói somam 2.166 páginas".

A história começa quando um narrador sem nome estava voltando para a casa em pleno verão, atravessando os campos enquanto contemplava a natureza e se lembrava dos camponeses que se preparavam para ceifar o centeio. Foi em meio aos devaneios e reflexões que ele lembrou de uma antiga história caucasiana, a qual, inclusive, vivenciou parte dela e que completou por meio do depoimento de testemunhas oculares, que falava sobre um lendário guerreiro rebelde tchetcheno chamado Khadji-Murát.

"Colhi um grande ramalhete de flores diversas, e ia para casa, quando notei, numa ravina, magnífica bardana carmesim em flor, daquela variedade que recebeu em nossa região o nome de 'tártaro', e que os ceiferos sempre procuram cortar antes do centeio (...)" p. 25.
Era o fim do ano de 1851 e Khadji-Murát seguia para o aul (povoado) tchetcheno de Makhet, essa região era comandada por Chamil, um temido chefe caucasiano que entrou em guerra contra a ocupação dos russos nas regiões da Chechênia e Daguestão. Chamil é lider dos separatistas e entrou em conflito com Khadji-Murát, dando ordem de capturá-lo vivo ou morto; e quem  o desobedecesse seria punido. Murát precisando enviar uma carta aos inimigos acaba solicitando ajuda ao seu amigo Sado, pois esse conta com Bata, um guia competente que deve guiar o miuride (seguidor/guerreiro) de Murát até os russos com a carta que deverá ser entregue nas mãos do comandante e príncipe Vorontzóv.

Desesperado por ter a sua família como refém e querendo vingança pelas mortes cruéis do seus irmãos, Khadji-Murát quer acabar com Chamil, mas ele não tem força suficiente para vencer o seu inimigo sozinho. Querendo atingir o seu objetivo, Murát busca uma aliança com os russos. Conseguida a aliança, o guerreiro rebelde agora depende das ações dos seus novos aliados, contudo os russos permanecem inertes. Inconformado com o descaso e a falta de atitude dos russos a quem se entregou em troca de ajuda para libertar a sua família, Murát ao lado dos seus muriades toma uma decisão motivada pelo desespero, algo que determinaria a sua vida.

"(...) O príncipe recebeu-o imediatamente e, por isso, atrasou-se alguns minutos para o jantar. Quando entrou na sala, os convidados, umas trinta pessoas, sentados perto da princesa Ielisavieta Ksaviérievna ou agrupados junto às janelas, ergueram-se e voltaram o rosto na sua direção (...)" p. 76.
Opinião: Escrito a mais de 100 anos, Tolstoi nos apresenta uma narrativa elaborada em forma de memórias e que vejo essa obra como um romance de ficção histórica. A trama tem como ambientação o front de guerra, onde de um lado temos o exército invasor russo e de outro a resistência dos povos islâmicos das regiões da Chechênia e Daguestão. Tolstoi nos conta como Khadji-Murát após anos lutando ao lado dos seus amigos, passa a lutar ao lado do inimigo que avançava sobre o Cáucaso e passa a ser considerado traidor; mas ele muda de lado em busca de vingança, pois Chamil, o líder da resistência fez de refém toda sua família. É muito interessante ver esse embate de culturas entre povos islâmicos e os russos. Tolstoi inclusive serviu durante um período da sua vida no exército cáucaso como oficial.

Khadji-Murát é um grande romance de Tolstoi que nos demonstra de forma humana e comovente todas as perdas da guerra, desde as mortes de quem lutava na guerra como o impacto dela nessas famílias. Tolstoi nos faz refletir o quanto o ser humano pode ser brutal e indiferente a vida alheia. Esse romance é verdadeiramente um manifesto contra todos os poderes que subjugam e oprimem o ser humano. Por fim, temos aqui um Tolstoi orientalista, onde visa descrever um certo período da sua juventude e os meandros da política russa. Com uma linguagem poética, Tolstoi nos apresenta uma belíssima obra. Super recomendo essa leitura, principalmente para quem quer conhecer a escrita do autor.

Sobre a Edição: A edição elaborada pela Editora 34 é simples, contudo é bem feitinha. A capa está de acordo com a trama e o contexto histórico, as folhas são amareladas (papel pólen soft) e a revisão ficou muito boa. Outro detalhe que merece destaque são as constantes notas de rodapé (notas explicativas) que nos auxilia a entender um pouco dos usos e costume daquela época. Em suma, eu gostei do projeto gráfico apresentado.
Sobre o Autor: Lev Tolstói nasceu em 9 de setembro de 1828 na cidade de Yasnaya Polyana, Rússia. Tolstói é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos. Além de sua fama como escritor, Tolstoi ficou famoso por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e ideias batiam de frente com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza. Junto a Fiódor Dostoiévski, Gorki e Tchecov, Tolstói foi um dos grandes escrutires da literatura russa do século XIX. Suas obras mais famosas são Guerra e Paz, sobre as campanhas de Napoleão na Rússia, e Anna Karenina, onde denuncia o ambiente hipócrita da época e realiza um dos retratos femininos mais profundos e sugestivos da Literatura. Morreu aos 82 anos, de pneumonia, durante uma fuga de sua casa, buscando viver uma vida simples.

13 comentários:

  1. Bom dia!!!

    Confesso que não li nada dele e não conheço sua escrita! Espero um dia ler, mas hoje não me sinto curiosa para le-lo da maneira que merece.
    Bjs

    ResponderExcluir
  2. Não conhecia o livro, mas achei bem interessante, apesar de achar que pode ser uma leitura um tanto quanto difícil, ainda mais se levando em conta a época em que foi publicada, mas acho que as reflexões são válidas, ainda mais por tratar da opressão humana. Dica anotada.

    Abraços.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  3. Invejo quem consegue ler um livro desses e ainda escrever uma resenha tão maravilhosa assim! hahaha Sério! Eu acho que até conseguiria ler, mas agora resenhar...
    Fiquei interessada na obra, nunca li nada do autor, e tenho cada vez mais vontade de sair um pouco da minha zona de conforto literária.
    beijos

    ResponderExcluir
  4. Essas edições da editora 31 são sempre tao simples e ao mesmo tempo tao lindas! Eu acho o trabalho da editora incrível, principalmente no que diz respeito a traduções. Tolstói é um dos autores que pretendo ler em 2018, sendo assim, valeu pela dica!

    ResponderExcluir
  5. Não li nada do ator porque me sinto intimidada, acho que não vou entender, que a narrativa não vai fluir, que não é pra mim. Mas essa questão das perdas da guerra me deixaram curiosa e quero ler.
    Beijos

    ResponderExcluir
  6. Cada vez mais eu sinto vontade de conhecer o Tolstói. Ouço falar muito das obras dele (principalmente o tão famoso Anna Karenina) e esse livro me despertou o interesse por tratar de assuntos ainda tão presentes no nosso mundo, ainda que não em nosso país. A guerra está aí destruindo várias vidas, como na Síria e em outros países. E como o autor ainda faz um manifesto contra todos os poderes que oprimem as pessoas, podemos dizer que é uma história atual também para nós, em nossa realidade brasileira.

    ResponderExcluir
  7. Olá amore,

    Esses livros me dão um pouco de "medo" porque são muito intensos e pensantes, não sou preparada pra esse tipo de leitura, admiro quem seja hahaha.
    Parece ser bem intenso, vou passar a dica dessa vez, essas coisas de guerra não me atraem!
    Beijokas!
    www.facesdeumacapa.com.br

    ResponderExcluir
  8. Oi, Yvens!
    Ainda não li nada de Tolstoi, confesso que acho a Literatura Russa um tanto complexa demais pra mim, mas acho que se eu não arriscar também, nunca saberei, não é? Gostei da sua resenha, por ser um livro mais "curto" (e interessante notar que levou praticamente uma década para estar pronto), talvez eu acabe optando por ele para iniciar minha leitura desse autor, em um dia de inspiração para sair da zona de conforto.
    bjs
    Lucy - Por essas páginas

    ResponderExcluir
  9. Olá!
    Eu tenho um histórico de abandono de leituras que tem o mesmo gênero que esse. Mas até que fiquei bem curiosa pra ler. Um livro tão antigo e que fala sobre guerra e tudo mais, a gente já espera que seja enorme, então eu acho que esse pode até me conquistar. Vou colocar na lista.
    Beijos,
    Nay
    Traveling Between Pages

    ResponderExcluir
  10. Olá, maravilhosa a sua resenha. Ainda não conhecia essa obra mas já fiquei super curiosa para ler e descobrir mais da história de Murát, achei super interessante toda essa coisa de exércitos envolvida.

    ResponderExcluir
  11. Oi oi!
    Eu só conheço esse autor porque eu passei um tempo na faculdade de direito e vi uma roda de estudantes com esse livro na mão (estavam falando de vários livros desse gênero). Eu não li nada de Tolstoi, mas fiquei bem interessada nessa obra. Sei que o livro não tem nada a ver com os livros que eu costumo ler, mas esse séria um ótimo livro para me tirar da zona de conforto. Além de ter um ótimo enredo!

    Beijoss, Enjoy Books

    ResponderExcluir
  12. Olá!
    Não sei se incluiria nas minhas leituras por não ser um gênero que eu goste de ler, mas achei interessante a trama, principalmente por ter sido há muito tempo atrás e mesmo assim traz a tona uma reflexão e mergulho sobre o ser humano.
    Ótima resenha!
    Beijos!

    Camila de Moraes

    ResponderExcluir
  13. Olá! Tudo bom?
    Ainda não tinha ouvido falar do livro, mas talvez seja porque não é o meu estilo de leitura habitual. Já li livro com linguagem poética e alguns eu gostei e outros não, então não sei se é um ponto negativo ou positivo. Fico feliz que tenha gostado tanto da leitura, gostei da parte reflexiva da obra. Caso eu me depare com o livro, acredito que terei curiosidade o suficiente para abri-lo. ♥

    beijos

    ResponderExcluir

Post Bottom Ad