[RESENHA #532] DOSTOIÉVSKI-TRIP - VLADÍMIR SORÓKIN - Saga Literária

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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

[RESENHA #532] DOSTOIÉVSKI-TRIP - VLADÍMIR SORÓKIN



Título: Dostoiévski-Trip
Autor: Vladímir Sorókin
Tradução: Arlete Cavaliere
Editora: 34
Páginas: 104
Ano: 2014
ISBN: 9788573265613
Onde Comprar: Amazon - 34

Sinopse: Em um lugar indefinido, cinco homens e duas mulheres aguardam ansiosos a chegada de um incerto vendedor. Enquanto isso, conversam, discutem e até brigam acerca de grandes nomes da literatura mundial (Kafka, Púchkin, Céline...) e seus supostos efeitos nos leitores-consumidores. Não se trata, porém, de uma tertúlia amistosa entre amantes das letras, e sim de um bando de junkies que mal se conhecem, unidos apenas pela condição de viciados em literatura, todos ávidos pela próxima dose. 


Nesta peça em um ato, que se lê como um romance ou novela curta, Vladímir Sorókin, um dos nomes mais importantes - e radicais - da literatura russa atual, lança personagens e leitores em uma jornada tensa e intensa pelo universo de Dostoiévski, de seus dilemas filosóficos e existenciais, que ele aprofunda, potencializa, transcende e transporta para as formas do mundo e da literatura contemporânea. Lírico e pornográfico, escatológico e sublime, divertido e visceral, Dostoiévski-trip bate forte e tem efeito prolongado. Mas aqui não há lugar para cautela ou moderação. Boa viagem.

Resenha: Dostoiévski-Trip é uma peça de teatro e foi escrito pelo autor russo Vladímir Sorókin. Publicado originalmente em 1997, a obra chegou no Brasil em 2014 por meio da editora 34. Baseado no Idiota de Fiódor Dostoiévski, logo de início o autor nos apresenta um grupo de sete amigos, esse grupo é composto de cinco homens e duas mulheres, eles estão à espera de um vendedor, mas não é um vendedor qualquer, ele vende drogas (traficante) em forma de pílulas que são capazes de levar o ser humano ao êxtase e ao delírio, essas drogas são na verdade para pessoas viciadas em livros e por isso cada pílula tem um nome de algum autor, seja ele Alexandre Dumas, William Faulkner, Nabokov, Tolstói e outros.

"Não gostei? (Ri) Como é que se pode gostar disso?  Tolstói! Há três anos, eu e um cara descolamos uma grana, e então demos uma boa relaxada em Zurique: primeiro Céline, Klossowski, Beckett, e depois como sempre algo mais leve: Flaubert, Maupassant, Stendhal. E no dia seguinte eu já acordei em Genebra. Mas em Genebra a situação já era bem diferente de Zurique." p. 13.
Após um certo momento de espera e angústia, os personagens finalmente recebem o vendedor que até então nunca se tinha atrasado em qualquer entrega. Em meio a discussões sobre qual droga utilizar (citando nomes de diversos grandes autores), o vendedor vê a dúvida de todos e sugere uma droga nova, trata-se de uma das últimas descobertas, é promessa de um bom "barato" e ainda por cima é será fácil de sair dessa "viagem" por meio de outros autores, sem contar que essa droga vai atender todos eles. O vendedor recomenda Dostoiévski para todos e eles não conhecem esse autor, mas diante das promessas do vendedor resolvem fazer essa viagem.

"Vocês vão ler e depois vão correr atrás de mim para uma segunda dose. E ainda vão dizer "obrigado."" p. 19.

Após adquirirem o produto e utilizarem suas respectivas pílulas os personagens ficam saciados e some toda angústia, mas agora eles assumem e incorporam os personagens do célebre romance "O Idiota" de Dostoiévski que foi publicado em 1869. Desse momento em diante eles passam a encenar uma cena importante do romance de Dostoiévski, eles encenam o momento em que Nastácia Fillíppovna faz um leilão de si mesmo.
Opinião: Dostoiévski-Trip é ao meu ver uma releitura de parte de "O Idiota", o autor nos leva a conhecer a densidade dos personagens do livro de Dostoiévski fazendo uma análise desses personagens. É também interessante acompanhar os efeitos colaterais dessas drogas nos personagens, pois eles passam a realizar monólogos onde o drama e sarcasmo estão presentes em cenas surreais, mas que demonstram a construção trágica e fatídica de cada personagem. Essa leitura é uma viagem sobre o descobrimento sentimental onde existe uma ideia sobre um mundo a ser descoberto. O autor apresenta dilemas no campo da reflexão como os existências e filosóficos. Dostoiévski-Trip foi uma leitura que me tirou da zona de conforto, pois tenho explorado a literatura russa e do leste europeu há pouco tempo e confesso que gostei muito da leitura. 

A premissa e ideia de Vladímir Sorókin são muito boas, mas como eu li "O Idiota" apenas em quadrinhos sinto que me faltou profundidade, um maior conhecimento sobre a obra. Mas pretendo fazer essa releitura após ler "O Idiota", algo que quero fazer em breve. Recomendo a leitura de Dostoiévski-Trip para quem quer conhecer a escrita de Sorókin, mais por esse ser um livro intrigante, por apresentar um humor ácido, ser uma paródia ao livro do Dostoiévski e se apresentar como uma alegoria para aqueles que são viciados em livros (eu por exemplo).
Sobre a Edição: Dostoiévski-Trip conta com uma capa psicodélica e que ao meu ver está de acordo com o conteúdo apresentado pelo autor. A edição foi impressa em papel lux cream 80 g/m (folhas amareladas), a revisão ficou muito boa, a fonte e espaçamento ficaram bem confortáveis e seguem o padrão de outros livros da editora. A diagramação é simples, mas ficou excelente.
Sobre o Autor: Vladímir Sorókin nasceu em 1955, na cidade de Bykovo, perto de Moscou, e em 1977 graduou-se como engenheiro. Ainda nos anos 1970 participou de diversas exposições de arte e trabalhou como desenhista e ilustrador. Sua atividade como escritor se desenvolveu no mundo moscovita underground da década de 1980, e em 1985 seu romance A fila foi publicado na França. Os textos de Sorókin foram banidos durante o regime soviético, e somente em 1992 foi lançada em seu país uma edição de seus Contos escolhidos. Nas últimas décadas, escreveu, além de peças, como Dostoiévski-trip (1997), vários romances, entre eles O dia do oprítchnik (2006) e a trilogia Gelo (2002), O caminho de Bro (2004) e 23000 (2005). Manteve sempre um tom crítico em relação ao atual regime político da Rússia, e seus livros estão hoje traduzidos para mais de vinte idiomas.

14 comentários:

  1. Com certeza um autor que enfrentou censura e precisou lutar para que sua obra pudesse ser contemplada guarda histórias cheias de emoção e atrativos. Aceitarei sua sugestão e terei meu primeiro contato, sinto que será prazeroso!
    Abraços! 😊

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  2. Olá Yvens,
    Os livros que a Editora 34 lançam não são no estilo que costumo ler, apesar de, confesso, ter certa curiosidade em me arriscar. Achei legal, no entanto, você dizer que esse livro é mais ou menos uma releitura - ou desdobramento - de O idiota. Acho que muitos fãs do Dostoiévski podem aproveitar bastante essa leitura.
    Gostaria de ler sua resenha após a releitura do livro O idiota.
    Beijos

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  3. Olá! Apesar de nunca ter lido Dostoiévski, acredito que releituras bem feitas são um bom começo, porque apresenta a obra de maneira mais leve, e pra quem não tem intimidade com a obra original, eu acho um bom jeito de conhecer. Gostei da maneira como o autor usa a metáfora de cada escritor ser uma droga diferente, e que uma vez que a pessoa usa, acaba viciando, achei super legal. Agradeço a dica!

    Bjoxx ~ www.stalker-literaria.com ♥

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  4. Olá!
    Nunca li nenhuma obra do Dostoiévski, embora tenha muita vontade por gostar de clássicos e acredito que seria mais interessante lê-lo antes de começar esse do Vladímir. A metáfora de consumir as pílulas e incorporar os personagens de O Idiota é bem diferente, ainda mais que o livro relembra uma grande obra literária. Dica anotada!
    Bjs.

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  5. Tudo bem? Eu não li essa obra de Vladímir Sorókin, mas já tinha visto, pois uma amiga comprou e gostou bastante. Sua resenha está bem escrita, conduzindo o leitor que não sabe o que esperar e despertando interesse em quem aprecia este tipo de leitura.

    Não conheço essa edição mencionada, então não tenho muito o que falar
    além de observar os seus comentários a respeito da publicação/edição.
    Posso dizer que tem um ponto mega positivo em ter folhas amarelas, detesto folhas brancas.

    Da Editora 34 eu li obras como O Idiota de Fiódor Dostoiévski, Teatro completo de Nikolai Gógol e gostei muito; entre outras. São livros que o público em grande maioria não lê, mas "aprendi" a gostar por conta de indicações de amigas e do curso de graduação.

    Eu costumo amar releituras e vou adicionar aos meus desejados. Fiquei bastante curiosa sobre essa obra.
    Beijos e até a próxima

    www.alempaginas.com

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  6. Oiii tudo bom?

    Ainda não li nenhm livro de autores russos ou mais do leste, então não estou familiarizada com a escrita deles. Achei interessante essa trama, com drogas para viciados em leituras, cada qual tendo o nome de um autor. Eu não conhecia essa obra e não li O Idiota então imagino que ficaria um pouco perdida se partisse direto pra esse, pois o legal é ler já conhecendo os personagens do livro anterior (O Idiota).

    Não conheço a editora, mas se nota que a edição é muito bonita. Gosto desse estilo psicodélico da capa.

    Acho bacana quando o autor insere em suas tramas críticas ou rflexões sobre o contexto politico do mundo ou do lugar onde vive, literatura é uma forma de alcançar as pessoas e sempre expor um ponto de vista, principalmente é importante em lugares como a Russia, onde o regime apesar de chamar-se democracia costuma ser mais autoritário.

    Até a próxima

    www.derepentenoultimolivro.com

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  7. Caramba, que viagem! Eu achei o modo de introduzir essa espécie de releitura, muito bom, sem contar que coloca em pauta o debate sobre drogas também, né? O vicio em livros foi posto de maneira literal e fugiu do esperado, então sem duvida alguma já fui surpreendida logo por isso. Não conhecia a obra mas pra variar a editora 34 arrasou na edição, são sempre obras simplórias mas com um design extremamente cuidadoso. Valeu pela dica!

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  8. Olá, tudo bem? Caramba, não conhecia esse livro ainda, mas achei bem interessante. Que doideira essa coisa toda das pílulas, hahaha. Adorei tua resenha e já quero ler a obra!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  9. Alguns amigos meus são muito fãs do autor e várias vezes me indicaram, mas nunca tive vontade de ler. Porém eu não sabia que a obra "O Idiota" tem uma edição em quadrinhos, agora que eu sei vou procurar pra ler e quem sabe acabo me interessando por outros livros dele.

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  10. Olá!! :)

    Eu confesso que não conhecia este livro! Que bom que gostaste de fazer a leitura, mesmo não sabendo qual e o livro que serviu de base a este.

    Gostei da alegoria do viciado em livros (Ops…!) e do humor acido que referiste!

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webnode.com

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  11. Oi, Yvens!
    Gente, que legal essa coisa do vendedor de drogas, hein? E das drogas terem nomes de autores e cada uma dar uma viagem diferente. Adorei!
    Que legal o autor usar uma obra de Dostoiévski como pano de fundo para a sua obra, nos aprofundando nos personagens do livro, fazendo análises sobre eles.
    Essa leitura não é muito o que costumo ler, mas vi que te tirou bastante da zona de conforto, então parece uma leitura bem interessante a ser feita. Farei com toda a certeza se tiver oportunidade!
    Beijos!

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  12. Olá!

    Por mais interessante que pareça o livro não é uma história que funciona para mim, eu tenho uns problemas com leituras nesse estilo, não me prendem de forma alguma. Mas fico feliz que tenha gostado, mesmo não atingindo toda sua expectativa, espero que depois da releitura que irá fazer ele te agrade mais como é esperado. Boa leitura.

    Beijos

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  13. Oi, Yvens! Achei mto curioso um livro onde um traficante de drogas trafica píulas de... autores. Gostei da ideia, mas acho que seria mais interessante para quem já conhece Dostoiévski, já que é praticamente uma paródia de uma de suas obras (se essa ideia fosse usada por aqui, imagino um traficante saindo do morro com pílulas Machado de Assis, imagina que doido seria estar na pele de Bentinho ou Capitu rs).
    Bjs
    Lucy - Por essas páginas

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  14. Olá, eu achei a sua resenha muito bem escrita e você consegue transmitir bem os principais pontos da trama. Mas não é muito o estilo de leitura que eu costumo fazer, mas acredito que eu daria uma chance ao livro.

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