[RESENHA #480] O FUNDO É APENAS O COMEÇO - NEAL SHUSTERMAN - Saga Literária

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terça-feira, 29 de maio de 2018

[RESENHA #480] O FUNDO É APENAS O COMEÇO - NEAL SHUSTERMAN



Título: O fundo é apenas o começo
Autor: Neal Shusterman
Editora: Valentina
Páginas: 272
Ano: 2018
ISBN: 9788558890625
Onde Comprar: Amazon - Saraiva

Sinopse: Caden bosch está a bordo de um navio que ruma ao ponto mais remoto da terra: challenger deep, uma depressão marinha situada a sudoeste da fossa das marianas. Caden bosch é um aluno brilhante do ensino médio, cujos amigos estão começando a notar seu comportamento estranho. Caden bosch é designado o artista de plantão do navio, para documentar a viagem com desenhos. Caden bosch finge entrar para a equipe de corrida da escola, mas na verdade passa os dias caminhando quilômetros, absorto em pensamentos. Caden bosch está dividido entre sua lealdade ao capitão e a tentação de se amotinar. Caden bosch está dilacerado. Cativante e poderoso, o fundo é apenas o começo é um romance que permanece muito além da última página, um pungente tour de force de um dos mais admirados autores contemporâneos da ficção jovem adulta.

Resenha: O Fundo é apenas o começo é uma narrativa sensível, visceral e assustadoramente encantadora que fala sobre doenças mentais e o medo social de falar sobre elas. Caden Bosch é um adolescente de quinze anos que nunca foi um menino de “panelinhas” na escola. Sempre fora o jovem que conseguia ser aceito por todos. Nunca se sentava apenas com um pequeno grupo de pessoas para lanchar. Ele era o “amigo” de todos. Comunicativo, ativo e dono de uma imaginação fantástica consegue isso para seus desenhos e trabalhar num projeto de jogo com seus melhores amigos.

Ele parecia “normal”. Tinha uma rotina tranquila e previsível para um adolescente. Era apena apenas o Caden, porém nos últimos meses não consegue mais se concentrar em nada. Ele se “desliga” das pessoas quando está nas conversas e é levado ao um mundo onde é um marinheiro de um navio que tem um objetivo para lá de tentador e excitante: encontrar um grande tesouro num lugar chamado Challenger Deep. Nesse lugar, ele é forte e comandado por um capitão cheio de enigmas e mistérios e que não consegue ouvir qualquer resquício de insubordinação de seus tripulantes e é confrontado constantemente pelo seu papagaio de um olho só.
“[...] Eles me admiram, mas é do jeito como as pessoas admiram algo que estão prestes a devorar.” p. 11.

Nessa aventura, Caden convive com tripulantes que perdem os cérebros e são levados ao fim de sua existência no cesto da gávea. A viagem parece ser uma fase de algum jogo mórbido e macabro para o jovem. Nesse lugar ele tem duas alternativas: matar o papagaio que fala sobre abandonar a viagem e matar o capitão – porque ele afirma que ele não é quem tenta mostrar a todos – e no outro lado tem o capitão que anseia pelo tesouro e tem certeza que Bosch é o enviado para essa missão e o incentiva a dar fim ao papagaio.

"- Não sabe? É um mundo de risos, um mundo de lágrimas. – Ele ergue o tapa-olho, revelando um buraco horrível, tapado por um caroço de pêssego. – Principalmente de lágrimas.” p. 62.

Você pode está imaginando que nosso jovem protagonista caiu em um mundo fantástico, entretanto o “mundo”, na qual Caden se encontra é apenas o lado de sombrio de sua mente. Ele não sabe disso e por isso não enxerga quando sua luz está se apagando, porque a Escuridão está se abraçando ele como a massa negra que segura todas as partes de seu navio. Bosch não percebe que é esquizofrênico e está perdendo o rumo de sua sanidade.

“– Se olhar para o abismo, ele olhará para você – sentencia. – Esperemos que o abismo não encontre nada de interessante.” p. 69.

Seus pais e amigos tornaram-se seus inimigos e seu destino é o Seaview Memorial Hospital, onde se deparará com uma vida de coquetéis de remédios taxas pretas e jovens com vidas assustadoras e perturbadas por suas mentes. Será que Caden Bosch conseguirá sair desse navio? Será que também não estamos sendo sufocados pela massa negra horripilante? Será que realmente sabemos lidar com as doenças mentais? E por que tanto medo de falar sobre elas?
Opinião: Caden Bosch é um jovem talentoso para o desenho. Ele sempre desenhou lindamente e com bastante técnica. Um filho calmo e cheio de amigos que viu sua luz diminuindo quando não conseguia mais manter meus amigos por perto, suas notas despencaram e hábitos nada saudáveis prejudicaram sua relação familiar. Uma obsessão por caminhar por horas a fio, porque não conseguia silenciar as vozes em sua cabeça acendeu a preocupação de seus pais.

Nesse pisca-alerta ligado, Caden vai parar num hospital especializado em jovens com doenças mentais. Desde o princípio ele sabe que está perdendo o controle de suas decisões e que não consegue mais fazer suas atividades normalmente. Ele percebe que está a beira do abismo e se cair, pode nunca mais retornar a superfície. Os pais de Caden são tipicamente o que grande parte da sociedade é: o medo insano de falar sobre distúrbios e doenças mentais. É como se as pessoas acreditam-se que somente dizer o nome delas e alguém que eles amam, ficará doente. É como se invocar a palavra “Morte” é fazer um sacrifício e chamar o próprio Ceifador. Tudo é uma questão de crendice e moralismo hipócrita.
Mackenzie que é a irmã mais nova de Caden e sempre foi ligada ao seu irmão. Tem uma ligação tranquila e de ajuda mútua com ele, por isso quando vê que ele está precisando de todo apoio e amor, é dela que vemos a melhor demonstração de ajuda que uma pessoa pode dar a outra: amar mesmo sem compreender a dor alheia. Nem sempre saberemos o que outro está passando e nem venha com aquela frase velha e insensível: “Eu sei o que está sentindo”. Não você não sabe. Não é você está internado ou doente e nem está no vale do caos mental. Quando tive depressão odiava escutar compaixão falsa e comprada. Queria apenas carinho e não palavras e frases prontas.

O que esse livro tem de excepcional? É uma declaração de amor. Neal Shusterman que é um escritor talentoso e cativante – autor de O Ceifador - escreveu esse livro juntamente com as ilustrações de seu filho Brendan. Esse jovem é na realidade a inspiração para essa obra. Brendan passou por esse navio sombrio chamado Doença Mental e venceu. Neal narra com crueldade em alguns pontos a realidade dos pacientes em instituições psiquiátricas e em outros momentos nos presenteia com analogias sensíveis e que consegue nos fazer chorar e ao mesmo tempo nos sentir péssimos diante nossa ignorância com essa problemática que jogamos para “debaixo do tapete”. O Capitão é o lado insano – aqui cabem os personagens loucos de Tim Burton – de Bosch e quer o levar a todo custo ao naufrágio e o papagaio quer salvar dessa ilusão e o deixar na superfície. 

E se eu lhe perguntasse agora: Como está o caos em sua mente? Você também tem medo de pronunciar os nomes de doenças mentais e falar sobre Morte, porque acredita que está as desafiando? Você sabe lidar com essa temática sem travar? Em algum momento da sua vida viu o meio escolar e acadêmico falar sobre os distúrbios mentais? E não seria a mente a mais fascinante parte do corpo?

O brilhantismo de Neal novamente se revela numa obra sensível e brutal ao mesmo tempo. Suas analogias e metáforas não foram feitas para crianças e sim direcionadas ao público adulto que necessita compreender que a mente também precisa de cuidados. A academia da mente é a compreensão e o amor. O Fundo é apenas o começo é um livro emblemático e inesquecível. Uma das melhores leituras que você terá em sua vida e cuidado com os “navios” que pega na vida.
Sobre a Edição: Os capítulos são bem curtinhos  - cento e sessenta e um ao total – e que são narrados por Caden. As ilustrações são de Brendan – época de sua internação – e caem bem com os momentos de instabilidade do personagem. As folhas são amareladas e combinam com a fonte agradável ao leitor. Amei a edição, a Valentina está de parabéns!
Sobre o Autor: Neal Shusterman nasceu em 12 de novembro de 1962 na cidade de Nova York, Estados Unidos. Ele é um premiado novelista, roteirista e escritor de televisão. Atualmente vive no sul da Califórnia com seus quatro filhos.

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