[RESENHA #573] HUMILHADOS E OFENDIDOS - FIODOR DÓSTOIÉVSKI - Saga Literária

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segunda-feira, 26 de novembro de 2018

[RESENHA #573] HUMILHADOS E OFENDIDOS - FIODOR DÓSTOIÉVSKI



Título: Humilhados e Ofendidos
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução: Fátima Bianchi
Editora: 34
Páginas: 416
Ano: 2018
ISBN: 9788573267143

Onde Comprar: Amazon - 34

Sinopse: Publicado em 1861, após dez anos de exílio na Sibéria, Humilhados e ofendidos ocupa uma posição-chave na produção de Fiódor Dostoiévski. Por um lado, é sua obra mais ambiciosa até o momento, na qual revisita e leva ao limite as suas concepções de literatura e sua visão dos males da sociedade. Por outro, suas páginas abrem o caminho para uma forma de romance que vai ganhar corpo nos grandes livros de sua maturidade, e não por acaso o leitor encontra nesta obra conflitos e personagens que parecem prefigurar suas criações posteriores. Para compor a trama de Humilhados e ofendidos, romance no qual deposita enormes esperanças, Dostoiévski coloca no centro da ação a figura do escritor Ivan Petróvitch, que é também o narrador do livro, e cuja vida guarda tantas semelhanças com a sua que não é equivocado ler certas passagens como um ensaio de autoficção avant la lettre ― gesto arriscado, que não foi plenamente compreendido pela crítica da época. Os leitores, porém, não tiveram dúvidas. Desde sua primeira aparição como folhetim no número inicial da revista O Tempo, o romance fascinou o público, que reconheceu ali um modo inédito de narrar, capaz de trazer à luz os sentimentos mais obscuros com uma intensidade nunca vista ― intensidade que encontrou sua equivalência precisa na tradução de Fátima Bianchi e nas gravuras de Oswaldo Goeldi. 


Resenha: Dostoiévksi nos apresenta o jovem Ivan Petrovicth, mais conhecido como Vânia. Ele é um escritor fracassado que já teve algum sucesso e está enfrentando diversos problemas, seja finaiceiros ou amorosos. Vânia foi criado no interior da Rússia pela família Ikhmiêniev e é nessa família que ele encontra a mulher da sua vida, a mulher por quem ele nutre um profundo amor, Natacha. Ela é a filha do casal que criou Vânia e eles moravam no interior da Rússia até que tudo muda para eles, pois o príncipe Valkovski, dono das terras em que eles moravam, acusa o patriarca de apropriação e de incentivar um romance entre Natasha e seu herdeiro Aliocha. Mas Nikolai Ikhmiêniev, o velho patriarca da família é um homem extremamente orgulhoso e correto, ele fica extremamente desolado e profundamente abalado com as acusações recebidas. Para piorar a situação, Nikolia fica ainda mais perturbado quando a sua filha foge para viver com Aliocha e diante dos infortúnios, a família resolve se mudar para São Petersburgo.

Em certa noite perambulando pelas ruas de São Petersburgo, Vãnia depara-se com uma dupla que lhe desperta curiosidade. Ao chegar em um bar ele vê um velho que aparentava ter quase cem anos e ao seu lado estava o seu fiel companheiro, um cachorro que parecia ser ainda mais velho que seu dono. Essa dupla caminhava extremamente devagar e ao entrar nesse bar, Vânia descobriu que eles eram frequentadores assíduos do local, mas o velho nunca pedia nada e não falava com ninguém, ele apenas gostava de se sentar pertio de uma lareira de onde observava tudo e todos com um olhar perdido e foi nesse bar que Vânia conheceu o velho homem chamado Jeremias Smith.
"No ano passado, na noite de 22 de março, aconteceu-me uma coisa deveras estranha. Tinha andado o dia todo pela cidade à procura de um alojamente. O antigo era muito úmido e na época eu já começava a tossir demais. Queria ter me mudado ainda no outono, mas protelei até a primavera. Em um dia inteiro não conseguira encontrar nada que me satisfizesse. Em primeiro lugar, queria um alojamento independente, que não fosse sublocado, e, em segundo lugar, ainda que fosse de um cômodo só, tinha de ser amplo e, ao mesmo tempo, o mais barato possível, é óbvio [...]" p. 11.

Desejando alugar uma apartamento ou casa para morar, Ivan após um certo acontecimento, vê a possibilidade de ficar com a antiga moradia do velho. Intrigado com Jeremias, ele fala ao senhor para continuar no apartamento, pois alguém poderia em algum momento procurá-lo. Esse misterioso homem tinha quase nenhuma posse, apenas dois livros. Nesse meio tempo, Vânia tentou descobrir informações sobre o ancião, mas nada conseguiu, pois ninguém no prédio tinha qualquer informação sobre esse homem solitário. Mas, Vânia estava certo ao dizer que alguém poderia procurá-lo, pois ele recebe uma visita inesperada, algo que mudaria a vida de Vânia, ele conhece Nelly.

"Pois é, o velho não estava de bom humor. Se não tivesse a sua própria ferida no coração, não teria se posto a falar comigo. Olhei-o atentamente no rosto: ele estava pálido, os olhos expressavam uma certa perplexidade, um pensamento em forma de indagação que não era capaz de responder. Mostrava-se impetuoso e estranhamente irascível. A mulher o olhava com preocupação e balançava a cabeça [...]" p. 45.

Nelly é neta de Jeremias, ela é uma garota órfã e extremamente doce, mas a tristeza e a miséria fazem parte da sua rotina. Mas o primeiro contanto entre Vânia e Nelly é pouco proveitoso, pois a menina fugiu logo após descobrir que seu avô e o velho cão Azorka haviam morrido no mesmo dia. Vânia extremamente intrigado e curioso decide ir atrás da misteriosa garota, mas essa sua incursão sequer teve início, pois ele recebeu a visita do seu pai adotivo, Nikolai Ikhmiêniev e para a grande infelicidade dos dois, Natacha e Aliocha continuavam juntos, decididos a lutar contra tudo e contra todos, tanto que em uma decisão intempestiva eles decidem morar juntos na cidade de São Petersburgo e o único aliado do casal era justamente Vânia, que em segredo nutria um grande amor por Natacha e um profundo ódio por Aliocha.

Durante o tempo em São Petersburgo, Vânia mantém um contato constante com Natasha e tenta agradar ela ao máximo, pois ela ainda não saiu dos seus pensamentos e devido a proximidade, com o tempo surge uma relação de amor entre eles. Natasha tem o amor de Vânia, porém ela é devotada ao seu marido,  o problema é que Aliocha é um homem indeciso, imaturo e ainda está sob forte influência do seu pai.
Opinião: Dostoiévski tem uma escrita incrível, tanto é que nos dias de hoje é ainda cultuado e admirado. O autor retrata em "Humilhados e Ofendidos" o sofrimento social e moral, o abuso dos mais favorecidos financeiramente em face aos humildes e pobres. Dostoiévski elabora um retrato demonstrando os limites da compaixão e do amor, algo enraigado em seus personagens. Aqui a história de amor apresenta um formato em base de novela, mas ele não deixa de lado aspectos marcantes que vemos em seus livros como o campo da filosofia e psicologia. Dostoiévksi é magistral na criação dos personagens, eles são profundos e dotados de características próprias e esses aspectos os deixam ainda mais reais. A cada página lida fiquei com mais vontade de conhecer a fundo a vida e história de Vânia ou Ivan Petróvitch, bem como o sentimento de paixão que carrega no peito por Natacha.

Um aspecto super positivo é a capacidade de Vânia unir os núcleos apresentados pelo autor em torno de si. O protagonista por sinal é um personagem de boa índole, de bom coração e, por isso, torna-se querido pelos outros personagens, mas também me cativou e tem a minha admiração. Os diálogos elaborados pelo autor é outro ponto positivo em seu livro, já que são cheios de profundidade e nos proporciona momentos de reflexão. Ao tecer criticas sociais sobre a Rússia do seu tempo e a própria análise comportamental do ser humano, Doistoiévski utiliza de temas como a bondade e honestidade, pobreza e riqueza, poder e ganância.

Ainda no aspecto social, fica claro que a sociedade de sua época era marcada pela hipocrisia, assim como a pobreza, algo que podemos considerar endêmico. Em alguns personagens, o sentimento de culpa é algo extremamente forte e em certos momentos nos gera o sentimento e sensação de vergonha. Um aspecto que enriquece os personagens é o fato de Doistoiévski utilizar e citar a religião, isso é algo comum aos seus livros, ele mesmo recebeu uma educação religiosa baseada nos preceitos da Igreja Católica Ortodoxa.

Em meio as humilhações e constrangimentos, em meio a vida humilde e árdua que seus personagens precisam enfrentar, Dostoiévski nos mostra que apesar de tudo devemos ter esperança e principalmente que o amor deve fazer parte da nossa vida e mesmo sendo um sentimento por vezes cruel, o amor é acima de tudo lindo. Humilhados e Ofendidos é um livro magnífico, é uma experiência de leitura ímpar e que nos leva a refletir sobre o quanto podemos ser cruéis com o próximo para conseguirmos o que queremos. Esse é um livro que merece a sua atenção.
Sobre a Edição: A Editora 34 está de parabéns pelo projeto gráfico apresentado, a capa é simples e elegante. Ao longo da leitura nos deparamos com algumas ilustrações que retratam certos contextos da trama. O livro é dividido em quatro partes e conta com epílogo. A fonte está no padrão de outros livros da 34 e está confortável. O papel utilizado foi o pólen soft. No geral gostei muito da edição e a 34 só demonstra a sua competência e zelo ao trazer para o mercado brasileiro livros de qualidade e alguns também inéditos.
Sobre o Autor: Dostoiévski – foi um escritor russo, considerado um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos.É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a "melhor proposta para existencialismo já escrita." A obra dostoievskiana explora a autodestruição, a humilhação e o assassinato, além de analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio: seus escritos são chamados por isso de "romances de idéias", pela retratação filosófica e atemporal dessas situações. O modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram influenciadas por suas idéias.

14 comentários:

  1. Oi Yvens quanto tempo!!!
    Essa história é encantadora por que eu amo demais animais sabia? Fiquei super curiosa e com muita vontade ler. Mas me pareceu triste... lendo a sinopse mas mesmo assim lerei
    Um abraço: keilycesporkeilaluciablog

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  2. Olá! Bom dia. A sua resenha está ótima, você abordou pontos bastante relevantes, no entanto, não é o meu tipo de livro, porém, gostei muito dos personagens e da diagramação.

    Oxente, leitora!

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  3. Gosto demais desse escritor e aos poucos estou lendo suas obras, iniciei pelas mais conhecidas e essa que resenhou está na fila para ser lido. Excelente resenha, esclareceu muito bem a obra e sua temática. Parabéns!!!

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  4. Olá!

    Já ouvi falar muito desse autor, mas nunca li nada dele.
    Pela sua resenha, parece ser uma escrita rica e com grande conteúdo, que fala de assunto importantes como sofrimento social e abuso dos mais favorecidos. Interessante!

    Grande beijo,
    Letícia Franca | Além de 50 Tons
    https://almde50tons.wordpress.com/

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  5. Oi Yvens, tudo bem?

    Ainda não li nada do Dostoivéski, mas tenho muita vontade de conhecer a escrita do autor pelos inúmeros elogios que leio a respeito dele. Gostei muito de conhecer o enredo desta obra dele, principalmente por saber que o personagem principal é cativante e consegue conquistar quem lhe ronda e o leitor também. Dica mais do que anotada, já quero ler!

    Beijos!

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  6. Adoro literatura clássica, e como as suas criticas sociais ainda são tão atuais, isso nos faz pensar que podemos ter evoluído mas os problemas sociais ainda continua os mesmo, como se tivéssemos apenas trocado de cenário. Realmente amei a tematica do livro e fiquei muito curiosa.

    http://luartico.com

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  7. olá!
    Não conhecia este romance do Dostoiévski, pelo que li deve ser uma ótima leitura.
    Parabéns pela resenha!
    Abraços.

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  8. Oi Yvens. Eu ainda não li nada de Dostoivéski, mas sei que preciso reparar isso rapidamente. E achei esse livro uma boa pedida para começar. Achei o enredo muito interessante, até porque gosto quando livros debatem temas ainda tão presentes na sociedade e é bom ver que a leitura é gostosa e o personagem é cativante. Sempre temos a impressão errônea de que autores mais conceituados podem ser chatos, mas isso só prova que não. Parabéns pela resenha. Beijos
    https://almde50tons.wordpress.com

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  9. Um clássico, mas acho muito difícil o estilo de leitura de Dostoiévski. Já tentei iniciar, mas não consegui me prender. A temática parece interessante, talvez valha dar uma segunda chance ao autor.

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  10. Conheço a obra, mas não a li ainda. E apesar dos elogios e da otima resenha, não é um livro que esteja nos meus planos atuais de leitura.
    Bjs Rose

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  11. Olá
    Eu, finalmente, estou entrando no mundo dos clássicos, e Dostoiévski está na lista, óbvio rsrs, pelo que parece não terei muita dificuldade com o autor, já que e um dos meus autores favoritos também gosta de personagens muito bem embasados

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  12. Olá!

    Sua resenha ficou incrível, muito bem construída, Ainda não li nada do autor mesmo sendo um clássico nunca me interessei, mas pretendo me ariscar em breve.

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  13. Dostoiévski é realmente muito interessante! Ele sempre traz crítica social e muita realidade às suas histórias. Com certeza, esse livro vai para minha lista. =)

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  14. Olá
    Tenho esse livro na minha estante que eu ganhei de presente, e por incrivel que pareça nunca me interessei de pegar e le-lo, talvez eu de uma chance para ele em 2019, acho que preciso ler mais classicos. A escrita dele parece ser ótima e tem um enredo que parece que ira fluir perfeitamente para mim.
    Adorei a resenha
    Beijos

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