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[RESENHA #600] SOLDADOS DO JAZZ - THOMAS SAINTOURENS

Título: Soldados do Jazz
Autor: Thomas Saintourens
Tradução: Fernando Scheibe
Editora: Vestígio
Páginas: 208
Ano: 2018
ISBN: 9788554126179
Onde Comprar: Amazon - Saraiva

Sinopse: Em 1º de janeiro de 1918, desembarcava na França um som até então desconhecido no Velho Continente: o jazz. O estilo, que estava nascendo na América, chegou à Europa pelas mãos do 15º Regimento de Infantaria da Guarda Nacional de Nova York, composto por soldados do Harlem, famoso bairro negro da cidade.

Carregadores de malas, estivadores, mecânicos, boxeadores, advogados e músicos, esses combatentes acabaram relegados a trabalhos secundários e a serviços de apoio. Negros de origens diversas que quiseram acreditar que combater lado a lado com seus compatriotas brancos faria deles seus iguais. Homens rejeitados pelo próprio exército, que encontraram nas tropas francesas irmãos em armas que os reconheceram por sua coragem – e não apenas porque levaram o jazz em suas malas!

Treinados pelo exército francês, logo mostraram que sabiam empunhar suas armas tão bem quanto seus instrumentos, e suas façanhas heroicas na guerra se tornaram tão conhecidas quanto sua música. Em novembro daquele mesmo ano, retornaram vitoriosos aos Estados Unidos ostentando a mais alta condecoração das forças francesas. A batalha, porém, estava longe de terminar. Se do outro lado do oceano haviam lutado pela liberdade contra os soldados do Kaiser, em casa teriam que lutar pela democracia contra inimigos ainda mais cruéis: o racismo e a segregação. Foram necessários quase cem anos para que, em 2015, os heróis do Harlem fossem finalmente reconhecidos e honrados de forma oficial pelo governo do presidente Barack Obama.

Resenha: Em 1º de janeiro de 1918, o 15º regimento da guarda nacional de Nova York, ou também conhecido como "O Velho 15º", desembarca na França e logo de cara já dá uma amostra do que os rapazes podem apresentar. Sob regência do capitão James Reese Europe, o Velho 15º apresenta uma Marselhesa em um ritmo que os franceses jamais tinham ouvido antes: o Jazz.
Mas as coisas não tinham sido nada fáceis para os garotos do 15º regimento. Criado nos Estados Unidos, o 15º era uma unidade apenas de soldados negros que vinham de toda a parte. O presidente Woodrow Wilson, depois de muito relutar cria o Ato de Serviço Seletivo, que obriga todo homem entre 21 e 31 anos a se alistar na força da guerra. Porém, Wilson, se depara com um grande impecílio que ao seu ver seria inconcebível, não fosse a grande necessidade de pessoas para ingressar nos combates: o alistamento dos negros.

"O presidente Wilson, apoiado por um amplo espectro de parlamentares oriundos do "Sólido Sul", não consegue se imaginar colocando um fuzil na mão desses animais de carga. Também lhe parece inconcebível que um soldado branco obedeça às ordens de um oficial negro. De qualquer jeito, mesmo entre soldados, eles não poderiam se falar de igual para igual, nem se olhar nos olhos..." pág.21

Uma grande surpresa acontece no alistamento, para o grande desespero dos segregacionistas, pois uma grande massa de afro-americanos começam a se alistar. Com uma manobra para barrar essa grande procura, pois poderia ficar totalmente fora de controle, Wilson, inaugura um campo de treinamento reservado aos oficiais negros. Porém, as regras são totalmente alteradas e quase impossíveis de serem cumpridas, resultando assim em um fiasco quase absoluto.
Foi no verão de 1917 que as unidades negras da Guarda Nacional foram convocadas para se juntar ao exército regular americano. Mas, como tudo para esses soldados eram do mais ínfimo desprezo, o 15º é incorporado provisoriamente a 93ª Divisão e começa a fazer trabalhos como vigiar focos de infiltração de alemães e coisas parecidas. 

Logo depois, são mandados para norte do estado para aprenderem os princípios básicos da disciplina e do combate. Passam por muitos problemas e não tem sequer fuzis para todos os soldados, nem metade deles. Mas, os cascavéis, como também são chamados, recebem a ordem de deixarem o campo e irem para a França e em 1º de janeiro de 1918, no porto de Bret, a França recebe um regimento de párias, soldados que o governo americano preferia esconder. Mas seus integrantes agem por honra e estão dispostos a lutar e a provar o seus valores individuais, nem que para isso tenham que enfrentar a morte nas trincheiras de uma guerra absurda e violenta; e é exatamente isso que os cascavéis fazem.

Opinião: É muito impressionante a qualidade de escrita de Thomas Saintourens em Soldados do Jazz. Inegavelmente, Saintourens conseguiu de uma forma crítica, ácida e ao mesmo tempo aconchegante e sensível, relatar todos os percalços dos Hellfighters antes, durante e depois da Primeira Grande Guerra Mundial.
Em um primeiro momento, o leitor pode imaginar um livro técnico, cheio de referências e infindáveis notas de rodapé. Porém, Thomas resolveu trilhar uma forma diferente de contar uma história real daqueles que participaram de um grande e marcante conflito entre os anos de 1914 à 1918: A narrativa em forma de romance histórico, o que diga-se de passagem, foi uma decisão brilhante, pois em momento algum a leitura das façanhas dos Hellfighters cansa o leitor, pelo contrário, a cada página virada, a ansiedade e curiosidade toma conta, o que deixa a ação de pausar a leitura um verdadeiro martírio.

A sensibilidade do autor consegue demonstrar toda a humilhação que os soldados negros do Harlem tiveram que se submeter para conseguir entrar de vez na guerra. Ao contrário do que se poderia pensar, foi bem longe de casa que os guerreiros do Velho 15º encontraram o respeito, a admiração e a realização de poderem demonstrar que eram tão bons, ou até melhores, que os soldados brancos naquele grande conflito. Foi ao lado dos combatentes franceses que eles puderem demonstrar inteligência, criatividade, camaradagem e principalmente, coragem, que teve início logo no desembarque onde esses soldados, que também eram músicos de Jazz, se apresentam aos franceses com uma Marselhesa jazzística.

Muitas batalhas foram cruciais para que o velho 15º, rebatizado como 369º, pudesse provar que tinha capacidade para enfrentar e derrotar os alemães em combates brutais e que exigiam forças além das imagináveis para qualquer ser humano e a trajetória desses gigantes da guerra não passou despercebido pelo governo francês que fez o que estava em seu alcance para abrilhantar toda a carreira desse regimento tão desacreditado e escorraçado pelo seu país de origem, que não deu muito crédito e fez de tudo para humilhá-los sempre que tinha uma oportunidade.
Thomas destila toda sua crítica contra os governantes dos Estados Unidos naquela época que nada fizeram para ajudar, apoiar ou mesmo congratular esses heróis que foram brilhantes no campo de batalha sempre que a necessidade os chamava. Mas mesmo com todo o brilhantismo de suas ações, muitas delas heroicas, não foram suficientes para que suas vidas pós-guerra fosse melhor do que antes dela. Seus compatriotas continuaram a lhes reservar todo tipo de crueldade possível como linchamentos, assassinatos e todo tipo de humilhação, somente por causa da cor de suas peles. É revoltante descobrir o destino de cada herói que arriscou tudo por seus compatriotas e não ter recebido nem mesmo uma pensão digna para conseguir sobreviver em um país totalmente segregacionista e violento.

Soldados do Jazz é um livro brilhante e uma das melhores leituras que eu fiz em 2018. Como disse antes, Thomas Saintourens, teve uma grande sensibilidade e respeito em contar a histórias desse heróis que não tiveram o reconhecimento que deveriam, mas que foram gigantemente corajosos em trilhar o caminho que lhes foram impostos. Homens de fibra, respeito, coragem e bravura. Não há dúvidas, meus caros leitores e leitoras, que Soldados do Jazz da editora Vestígio, do Grupo Autêntica é sem dúvida IMPERDÍVEL.
Sobre a edição: A editora Vestígio nos apresenta Soldados do Jazz no formato brochura com uma capa muito bacana e que te emociona bastante, depois de conhecer toda a história desse batalhão. A fonte é muito agradável e impressa em um papel amarelado [off-white], deixando a leitura mais do que agradável.
Sobre o autor: Thomas Saintourens é jornalista nas revistas Usbek & Rica, Le Parisien e Géo, nas quais discute especialmente questões raciais. É autor de Le Maestro: à la recherche de la musique des camps 1933-1945 (2012). Para escrever Soldados do Jazz, Saintourens teve acesso ao arquivo enviado à Casa Branca em defesa da concessão da Medalha de Honra póstuma ao bravo soldado Henry Lincoln Johnson.

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2 Comentários

  1. Caraca, que livro!!!
    Não conhecia mais este traço de preconceito e racismo da história americana. Que triste pensar que estes homens só receberam o conhecimento que mereciam um século depois.
    Que melhoramos como seres humanos, é esse o meu maior desejo.
    Parabéns pelo post e pela resenha!

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  2. Malu, realmente foi bem triste ver o que esses heróis tiveram que aguentar tanto antes como durante e também depois da guerra. Ser humano tem muito que aprender ainda. Muito obrigado e volte sempre. Beijos.

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