[RESENHA #617] MORRER SOZINHO EM BERLIM - HANS FALLADA - Saga Literária

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1 de março de 2019

[RESENHA #617] MORRER SOZINHO EM BERLIM - HANS FALLADA

Título: Morrer Sozinho em Berlim
Autor: Hans Fallada
Tradução: Claudia Abeling
Editora: Estação Liberdade
Páginas: 640
Ano: 2018
ISBN: 9788574482750
Onde Comprar: Amazon - Saraiva
Sinopse: Alemanha, 1940. Quando seu único filho morre na guerra lutando pelo Führer, Otto e Anna Quangel decidem que não podem mais viver como se nada estivesse acontecendo. Se eles já não simpatizavam com os rumos do país, os privilégios dos membros do partido, o constante medo da vigilância de cidadão por cidadão, os abusos de autoridade e os boatos de horrores inimagináveis, eles agora decidem agir. A partir da história real de um casal de operários e sua inabalável coragem e resistência, Hans Fallada compõe, em forma de thriller, um retrato objetivo e cru dos horrores da vida sob a ditadura nazista. Entre trabalhadores, marginais, pequenos tiranos, acusados e acusadores, o autor apresenta os tipos de uma Berlim sitiada, sufocada pelo vício e pelo medo, mas também marcada pela esperança. Um fenômeno de vendas após sua primeira tradução para o inglês em 2009, Morrer sozinho em Berlim, publicado originalmente em 1947, é um clássico da literatura alemã, escrito por um dos mais populares autores do país no século XX.

Resenha: No mesmo dia em que os alemães comemoravam a rendição da França sob o poder da ofensiva nazista, Otto e Anna Quangel recebiam a pior notícia que quaisquer pais poderiam receber: O filho Ottinho, como era chamado, havia morrido em batalha. Longe de ser o herói que aquele telegrama dizia que o filho dos Quangel era, todos que o conheciam sabiam que Ottinho jamais quis participar daquela guerra insana. Anna, sua mãe, sabia bem mais que Otto, seu pai, que sempre fora distante e frio, atos condizentes com sua personalidade, que o desejo de seu Ottinho sempre havia sido o conforto de sua casa e o monta e desmonta de seus rádios. Porém, agora, ele não existia mais.

"Quantas vezes ele me contou, durante o tempo de recruta, das maldades do pessoal e de que daria a mão direita para escapar dali! E agora é um exemplo de soldado e morte de herói! Mentiras, só mentiras! Vocês são os responsáveis por isso, você e seu Führer, com essa guerra de merda!" pág.22

Depois do ataque de fúria de sua mulher, Otto, pensou que tinha outro problema para resolver também, pois alguém teria que falar com Trudel Baumann, a namorada de Ottinho. Como ela trabalhava na fábrica onde Otto era o supervisor, ele poderia falar com ela, mas Anna queria contar pessoalmente. Otto concordou em trazê-la depois do trabalho e assim Anna poderia conversar com ela no jantar. Mas Otto não parava de pensar no que sua mulher havia vociferado em sua cara alguns minutos antes: "Você e seu Führer!". Aquilo ficou martelando na cabeça de Quangel. Ele não parava de pensar naquilo, bem mais do que na morte do próprio filho.

Nem tudo corre como Otto deseja, e quando tenta convidar Trudel para ir na casa dele na hora do jantar, ela já pressente que há algo de errado e descobre a morte de seu Ottinho. Quangel, vê que Trudel é uma garota forte, inteligente e corajosa e justamente nessa situação que ela lhe revela, sem querer, um segredo que pode levar qualquer um à morte.
Naquela noite, depois de um longo dia de trabalho, Otto chega em casa e tem a surpresa de encontrar duas visitantes que não deveriam de maneira alguma estar em sua casa, pois o perigo da Gestapo, estava em todos os lugares e olhares. Mesmo assim, tudo poderia ser resolvido bem cedo pela manhã.

Otto já sabia o que poderia fazer para que a frase de sua mulher desaparecesse de sua cabeça, que seu lamento pela morte de seu filho pudesse se transformar em vingança e resistência; já havia naquele mesmo dia se decidido a fazer o que poderia, pela simples menção, tirar sua vida, de sua esposa e de todos que ele conhecia: Ele iria resistir.

"Anna Quangel sentiu um tremor. Tornou a olhar para Otto. Talves ele tivesse razão: fosse a ação grande ou pequena, ninguém podia arriscar mais do que a própria vida. Cada um agia de acordo com suas forças e condições. O principal: a resistência." pág.170

Otto sabia muito bem que sua ideia era apenas um pequeno ponto branco em um grande quadro negro, mas também sabia que para muitos esse pequeno ponto poderia incomodar, e era exatamente isso que ele queria, incomodar. Quangel, tinha absoluta certeza que naquele mundo em que vivia, o maior horror de todos, punível com a morte diga-se de passagem, era apenas dizer a verdade, e isso, ele poderia fazer através de seus cartões. Mal sabia os horrores que sua atitude iria trazer para diversas pessoas, inclusive para os Quangel.
Opinião: Mesmo depois de tantos anos, a Segunda Guerra Mundial ainda vai dar muito o que falar. É claro que não existe, e nem jamais existirá, guerra sem horrores. O termo por si só já é terrível, agora imaginem as testemunhas que participaram dessas histórias que assombram a qualquer ser humano que se preze. Baseado em fatos reais que envolveram o casal alemão Otto e Elise Hampel, retratos no livro como Otto e Anna Quangel, Hans Fallada conseguiu construir uma trama muito bem intrincada e cheia de horrores e pesadelos relacionados à toda insanidade que foi a Ascensão do Reich Alemão.

Talvez, como eu, os leitores e leitoras não tivessem notado uma peça importante na história da Alemanha Nazista que foi a resistência. Nunca me passou pela cabeça, efetivamente, que existiam muitos alemães que eram totalmente contra a guerra deflagrada por Hitler e muito menos que, quando descobertos, as punições eram muito severas, geralmente, a pena de morte. Enquanto avançamos na história de Otto e Anna, Hans nos apresenta uma Alemanha cruel, onde ninguém confia em ninguém. O medo impera e seu próprio parente pode te condenar a pena máxima e o que é pior, seja você culpado ou não.

A rede de personagens que Fallada nos apresenta, se interligam de uma forma que a história encontra apenas um caminho a ser trilhado, mesmo que alguns deles sequer tenham se cruzado durante a trama. O que dita o destino de cada personagem é a delação. O regime Nazista impôs ao cidadão alemão a perigosa tarefa de policiar o próximo, o que no decorrer daqueles dias trouxe consequências desastrosas ao próprio povo da Alemanha. O medo não se restringia, como o leitor ou leitora pode observar, aos "impuros" que viviam na Alemanha, mas para qualquer cidadão que tinha que obedecer o toque de recolher e todas as regras impostas naqueles tempos funestos e, mesmo assim, todos corriam risco da guilhotina.
Hans foi brilhante na exposição de como era a vida do povo alemão durante o Nazismo e trouxe um horror de gelar a espinha cada vez que alguém era interrogado pela Gestapo, pois para eles, todos tinham culpa, mesmo que não fosse aquele do motivo de sua prisão. O tratamento nesses interrogatórios eram violentos e desumanos ao extremo, o que em certas passagem, me emocionou bastante, pois é absolutamente terrível ler aquelas palavras e saber que aquilo aconteceu de verdade e que não é mera imaginação de seu autor em alguma novela de ficção.

O sentimento de impotência é ainda maior quando vemos todas as palavras de um interrogado serem distorcidas e revertidas em confissões de culpa de crimes que sequer chegaram a ser cometidos. O leitor e leitora, se sente exausto, humilhado e horrorizado juntamente com o personagem que sofre todo tipo de acusação e violência. A morte é constante e a cada página torcemos para que ela chegue aos nossos personagens, tamanha desconstrução aplicada em cada interrogado.

Os horrores do regime Nazista foram muito bem mostrados em Morrer Sozinho em Berlim, onde o autor não poupou palavras deixando o mais realístico possível, onde podemos ver que a Gestapo e a SS faziam de tudo para conseguirem impor a soberania de Hitler, mesmo que para isso tivessem que matar cidades inteiras em campos de concentração ou nos porões da Gestapo.
Mas em meio a esse horror, conseguimos encontrar personagens que se valeram da tolerância, do amor e solidariedade para ajudar quem quer que precisasse, durante aquele tempo de guerra. Mesmo que esses personagens sejam minoria na trama, é justamente por causa deles que aquele sentimento de acreditar que o ser humano ainda tem salvação, acaba nos movendo dia a dia. E Fallada demonstrou muito bem isso em Morrer Sozinho em Berlim.

Mesmo que, na palavra do próprio autor, Morrer Sozinho em Berlim, seja um livro em que há muitas mortes, podemos acreditar que toda a trama também é de esperança e luta, pois Otto, Anna e alguns outros personagens, mesmo que em pequenas doses, tiveram sua parcela na resistência interna contra a guerra e contra o regime de Hitler, demonstrando que o Nazismo nunca foi uma unanimidade na Alemanha, como muitos ainda acreditam.

Não tenho palavras para descrever tamanho prazer em ler um livro tão marcante como esse e realmente acho que todas as pessoas que gostam de um livro extremamente bem escrito e com uma história que nos marca profundamente, deveriam investir em sua leitura. No mais, só posso dizer que Morrer Sozinho em Berlim de Hans Fallada e publicado pela editora Estação Liberdade é ABSOLUTAMENTE I.M.P.E.R.D.Í.V.E.L.
Sobre a edição: A Editora Estação Liberdade, como sempre, caprichou na edição de Morrer Sozinho em Berlim que tem uma capa muito bonita e simboliza muito bem a trama de Hans. O livro vem no formato brochura, muito robusto e firme. Suas folhas são amareladas, com fonte bastante agradável e com ótima revisão. A edição ainda conta com um posfácio e anexo para as notas explicativas e fotos de Otto, Anna e de seus cartões também. Uma ótima e bela edição de uma história espetacular em todos os sentidos que vale cada centavo investido.
Sobre o autor: Rudolf Ditzen nasceu em Greifswald, no nordeste alemão, em 1893,  filho de um respeitado jurista. Em 1920, assumiu o pseudônimo Hans Fallada, inspirado em contos dos irmãos Grimm. Obteve grande sucesso na Alemanha e no mundo na década de 1930 com o romance E agora, seu moço? (Livraria do Globo, 1934), que narrava a condição miserável no país antes da ascensão de Hitler. Faleceu em 1947, algumas semanas antes da publicação de Morrer sozinho em Berlim.

10 comentários:

  1. Estou curiosérrima com esse livro! A capa já me seduziu, sou dessas! Mas sua resenha!!! Que história que promete! Abçs

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  2. Olá tudo bem? Morrer sozinho em Berlim me parece uma história surpeendente e como você diz imperdível. Não conhecia o autor e a temática me agrada, gosto de ler sobre esperança e luta.

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  3. Um tema que eu gostaria de ler. A segunda guerra e seus bastidores, a questão histórica muito me desperta para a leitura. Nao conhecia o livro e fiquei bem instigada a ler após a sua resenha.

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  4. Sou fascinado por História, nunca dispenso as obras que retratam as experiências e vivências da humanidade, e esse livro já me conquistou! Imaginar as atrocidades cometidas no período sangrento que até hoje reverbera é de difícil conquista, nossas entranhas se revoltam perante a aspiração do massacre. Aposto que seja mais um livro que nos enriquece de conhecimentos. Ótima sugestão!

    Abraços!

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  5. Mergulhar nas dores dessa época, que se tornou uma das páginas mais cruéis da história da humanidade, quase nunca é fácil. Também acredito que possamos tirar algo de bom nisso, mesmo que seja o aprendizado para que jamais aconteça algo parecido novamente. A crueldade humana às vezes parece sem limites. Não conhecia o livro, mas já anotei a dica. Realmente parece imperdível.

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  6. Livros que retratam histórias passadas durante a Segunda Guerra Mundial geralmente apresentam tramas muito intensas e com Morrer Sozinho em Berlim não é diferente O fato da obra se basear em fatos reais deixa tudo ainda mais impactante.

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  7. Ola, esse é bem o tipo de temática que gosto de ler. Adorei a sinopse e com a sua resenha pude ter uma boa noção do me espera. Já adicionei a minha listinha e com certeza vou procurar por esse livro. Obrigada!

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  8. Essa é uma época bem cruel não é? Não é meu estilo de leitura favorito, mas fiquei curiosa pra ler.

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  9. Que livro interessantíssimo!!! Eu gosto muito dessa temática e fiquei conhecendo essa obra agora, o que me despertou muito a curiosidade para ler. Anotada a dica.

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  10. Um livro muito interessante.Quando seu único filho morre na guerra lutando pelo Führer, deve ser doloroso viver na guerra, confesso que é muito triste,que sofrimento Morrer Sozinho em Berlim...

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