[RESENHA #633] A GAROTA ALEMÃ - ARMANDO LUCAS CORREA - Saga Literária

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13 de abril de 2019

[RESENHA #633] A GAROTA ALEMÃ - ARMANDO LUCAS CORREA

Título: A Garota Alemã
Autor: Armando Lucas Correa
Tradução: Denise de Carvalho Rocha
Editora: Jangada (Grupo Pensamento)
Páginas: 408
Ano: 2017

ISBN: 9788555390968
Onde Comprar: Amazon - Saraiva

Sinopse: Baseado numa história real, A Garota Alemã é um romance magistral. A bordo do famoso transatlântico St. Louis, uma garota de 11 anos e 936 refugiados judeus fogem da Alemanha Nazista. Berlim, 1939. Hannah Rosenthal, de 11 anos, tinha uma vida de contos de fadas. Ela passava as tardes no parque com seu melhor amigo, Leo Martin. Mas, agora, as ruas estão cheias de nazistas. Eles vislumbram uma esperança para sair desse inferno: o St. Louis, um transatlântico que pode propiciar aos judeus uma travessia segura para Cuba. Mas logo as circunstâncias da guerra mudam e o navio que era sua salvação agora parece ser a sua sentença de morte. Nova York, 2014. Anna Rosen, ao fazer 12 anos, recebe um envelope misterioso de Hannah, uma tia-avó que criou o pai falecido. O conteúdo do envelope inspira Anna e a mãe a viajarem a Cuba para conhecer Hannah e descobrir a verdade sobre o trágico passado da família.


Resenha: Quando Hannah, na Berlim de 1939,  vê seu mundo ruir, seu país a rejeitar e ser odiada por aqueles que outrora foram seus amigos, ela entra em um certo desespero. Seus pais perdem tudo quando a Alemanha Nazista toma o poder e a guerra eclode. Aconselhados a não sair de casa, seus vizinhos que vivem no prédio pertencente a sua família também não os quer por perto. A situação começa a piorar a cada dia e o medo começa a tomar conta de todos os judeus por toda a Alemanha. Hanna então, com 11 anos, pensa seriamente e só consegue descobrir uma única saída: matar seus pais.

"Qualquer coisa sangrenta estava fora de questão, porque eu não suporto a visão de sangue. Começo a suar frio e desmaio. Então, o melhor seria que morressem por sufocamento." pág.13.

Claro que depois de ponderar, Hanna chega a conclusão que jamais poderia fazer isso. Seu desespero era tanto que aquela era a única forma que conseguia pensar em livrar toda a sua família daquela situação. E quando ela se sentia assim, Hannah, ia se encontrar com seu único amigo em todo o mundo: Leo.


Leo e Hannah já sabiam que iriam viver a vida inteira juntos ou alguma coisa perto disso, pois eles iriam sair de Berlim e ficariam juntos sempre. Os pais de Hannah já estavam providenciando a única saída que o novo governo alemão havia dado aos judeus no país. Eles poderiam pagar pela saída do país, desde que deixassem tudo para trás, principalmente coisas de valor. O preço era exorbitante, principalmente para uma família, mas era a única forma deles saírem dali com vida. 

O pai de Leo não tinha dinheiro, mas era amigo íntimo do de Hannah, e seu pai jamais deixaria Leo e sua família para trás, jamais. Então, eles iriam sair daquele lugar e rumar ao desconhecido em busca de liberdade e vida. Esse lugar tinha um nome, Cuba, uma ilha bem longe de onde estavam, mas que serviria de pousada até que, tanto a família de Hannah quanto de Leo, estivessem prontos para o destino final: Estados Unidos.

"Tenho que me apressar. Leo já deve estar na estação, andando de um lado para o outro, tentando ficar fora do caminho dos pedestres que correm para pegar o trem. Pelo menos eu sei que ele me acha limpa." pág.20.

Numa Nova York de 2014, todo o mês de setembro é uma penúria para a pequena família de Anna, que vive apenas com sua mãe. Seu pai desapareceu antes mesmo de Anna nascer, mas sua mãe insiste em dizer que se naquele fatídico dia ela não preferisse esperar para contar a novidade mais tarde, seu pai ainda estaria com elas.



Anna, por outro lado, gosta de imaginar que seu pai não desapareceu mas sim, está perdido em algum canto do mundo mas que logo vai voltar. Mas enquanto isso não acontece, vive uma vida de fantasia com as fotografias deixadas pelo pai perdido.

Mas as fantasias terminam e quando Anna descobre o que realmente aconteceu com seu pai, os desejos, os sonhos e histórias fantasiosas sobre o paradeiro dele ficam relegadas apenas para algumas noites mal dormidas e somente para sentir aquela pequena parcela de esperança. Sua mãe, por outro lado, acaba se fechando cada dia mais e como vê que sua filha consegue se virar sozinha, a menina de 11 anos acaba se tornando meio que a babá da própria mãe.

"Todos os dias, antes de ir para a escola, levo para ela uma xícara de café preto sem açúcar. À noite, ela se sente para jantar comigo como um fantasma, enquanto invento histórias sobre minhas aulas. Ela escuta, leva a colher até a boca e sorri para mostrar o quanto é grata por eu ainda estar com ela e preparar a sua sopa, que ela engole por obrigação." pág.24.

As coisas começam a mudar quando chega um pacote do Canadá, mas que tinha sido enviado de Havana, a capital da ilha onde o pai de Anna nasceu. Tendo insistido que o pacote deveria ser aberto por ela e sua mãe, Anna descobre que o conteúdo daquele pacote tinha a ver com a família de seu pai, principalmente, da tia que o criou. Um segundo envelope chamou a atenção de ambas, pois era direcionado para a menina que estava quase completando seus 12 anos e dizia: "Para Anna, de Hannah". Ali começava a verdade sobre os ancestrais paternos de Anna e sua ligação, mesmo que distante, com aquela que havia sido chamada de "A Garota Alemã" em uma capa de revista no ano de 1939.



Opinião: Parafraseando um ditado popular, os livros certos lhe chegam por caminhos tortos. E foi exatamente assim que A Garota Alemã chegou as minhas mãos. Por uma confusão de nomes, a editora acabou me enviando esse livro por engano. E ainda bem, pois não fosse por isso, talvez nunca leria essa história tão bacana.

Armando Lucas Correa é um escritor de mão cheia e, diga-se de passagem, começar um livro com a seguinte frase: “Tenho quase 12 anos e já decidi: vou matar meus pais.”, é simplesmente genial. Ele incute ao leitor a curiosidade de saber quem é essa Hannah que vive numa Berlim de 1939 em meio a eclosão da Segunda Grande Guerra Mundial e o porquê dela querer acabar com a vida de seus pais. Vilã? Refém de uma situação insolúvel? Bom, quando o leitor percebe, já está preso nas garras do “maquiavélico” escritor.

Como a história é contada em duas épocas diferentes, Armando se utiliza do intercalamento dessas épocas dedicando cada capítulo a uma das personagens principais, dando aquela dramaticidade especial com ganchos em cada término dos referidos capítulos. Existem momentos em que o autor te deixa completamente desesperado em saber o que vai acontecer ora com Hannah em 1939, ora com Anna em 2014.



Outra coisa que envolve na trama toda é a ligação trágica que ambas as personagens têm em seus respectivos períodos de vida. O drama que o autor aborda em ambas as épocas foram temas que trouxeram profundas mudanças, não só para àqueles que tiveram que lidar diretamente com os fatos, mas também o rumo da história humana, que geralmente é mudada através de tragédias. Mesmo com temas tão fortes, pois existem momentos bastante dramáticos e que as lágrimas são necessárias, Armando consegue passar uma mensagem de superação e existe sempre uma razão para se continuar, por mais difícil e improvável que seja.

A parte histórica que Armando aborda, mais uma vez, demonstra como os judeus foram destituídos de tudo que tinham, tanto material e emocionalmente, e jogados à própria sorte, mesmo fazendo tudo quando lhes foi pedido. Existem momentos tão dramáticos e terríveis, que muitas vezes nos vemos com uma raiva tão profunda que precisamos parar e respirar antes de recomeçar a história das meninas. O pior de tudo isso, é saber que Armando nos conta uma história que realmente aconteceu, mas, obviamente, misturado com sua ficção.



A Garota Alemã foi uma grade surpresa em vários sentidos, pois a escrita de Armando Lucas Correa, que até então não conhecia, é soberba e aconchegante. A trama foi muito bem delineada e apresentada de uma forma impossível de se largar, a não ser nos momentos de “raiva” como disse acima. Lucas conseguiu ao mesmo tempo nos mostrar uma história “pesada”, mas que tem seus momentos “leves” e reflexivos. A pesquisa histórica foi um dos fatores positivos de A Garota Alemã também, pois o autor mostrou claramente os horrores da guerra e das atitudes que o governo Cubano teve com aqueles que tiveram que deixar tudo para trás e acreditar que estavam indo rumo a salvação.

Realmente, A Garota Alemã do autor Armando Lucas Correa e publicada pela editora Jangada do Grupo Pensamento, é mais uma obra que merece ser lida, não só pelo seu poder histórico, mas também pela linda e sofrida trajetória de Hannah e Anna, portanto, é sim IMPERDÍVEL.



Sobre a edição: A editora Jangada nos presenteia A Garota Alemã em seu formato tradicional, ou seja, brochura, com folhas amareladas, fonte bastante agradável e uma capa muito bonita, totalmente coerente com a história de Armando. A revisão ficou ótima e a edição conta com um anexo recheado de fotos e documentos da época. Realmente, além da ótima história, a editora caprichou mais uma vez, nesse lançamento, fazendo valer cada centavo investido. Aproveitem.


Sobre o autor: Armando Lucas Correa é jornalista premiado, autor, editor-chefe da People em Español, a revista hispânica mais vendida nos Estados Unidos. Também é editor da revista cubana Tablas, sobre dança e teatro. Ele já recebeu vários prêmios da Associação Nacional de Publicações Hispânicas e da Sociedade de Jornalismo Profissional. Correa é o principal porta-voz da revista e aparece regularmente em programas de TV americanos. A Garota Alemã é seu livro de estreia.

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