Título: Por que as crianças matam
Autora: Gitta Sereny
Tradução: Erick Ramalho
Editora: Vestígio
Páginas: 400
Ano: 2019
ISBN: 9788554126223
Onde Comprar: Amazon

Sinopse: 
Em 1968, Mary Bell, de 11 anos, foi julgada e condenada pelo assassinato de dois garotinhos em Newcastle upon Tyne, Inglaterra. Antes mesmo de ir ao tribunal, Mary Bell foi apresentada como a encarnação do mal, a “semente ruim”. Mas a jornalista Gitta Sereny, que cobriu o julgamento sensacionalista, nunca aceitou essa explicação. Ao longo dos anos, Sereny se deu conta de que, se quisermos entender as pressões que levam crianças a cometer crimes hediondos, precisamos voltar nosso olhar para os adultos que elas se tornaram.

Passados 27 anos de sua condenação, Mary Bell concordou em falar com Sereny sobre a sua infância angustiante, os dois terríveis atos cometidos no intervalo de nove semanas, o seu julgamento público e os doze anos de detenção. Em Por que crianças matam, Bell e Sereny discutem o que ela fez e o que foi feito a ela, bem como a criança que era e a pessoa que se tornou. Nada do que Mary Bell disse nos cinco meses de conversas intensas serve como desculpa para seus crimes: ela mesma rejeita qualquer atenuação nesse sentido. Mas sua história devastadora nos força a pensar na responsabilidade da sociedade sobre crianças que são levadas ao limite. 

Resenha: Por que as crianças matam é um livro bem diferente daqueles que estou acostumado a acompanhar. Aqui conhecemos a história de Mary Bell, que com apenas 11 anos foi julgada e condenada pelo assassinato de duas outras crianças em Newcastle, cidade localizada no nordeste da Inglaterra. Martin Brown e Brian Howe tinham apenas 3 e 4 anos de idade, respectivamente, quando foram assassinados por Bell, que antes mesmo de ser levada ao tribunal, foi considerada como a própria encarnação do mal.

"Depois de um perito em medicina legal ter testemunhado que as fibras têxteis encontradas nas roupas de Martin correspondiam às amostras que tinham sido extraídas do vestido que Mary usara naquele dia, ela afirmou que não, nunca havia brincado com Martin, mas acrescentou, enfatizando a diferença entre os dois atos, que, embora não tivesse brincado com ele, ela o havia empurrado no balanço antes do jantar [...]" p. 125.

O julgamento foi acompanhado de perto pela jornalista e biógrafa Gitta Sereny, que dedicou anos de sua vida a escrever livros que abordava e tecia histórias sobre crianças que carregavam profundos traumas, entre elas algumas que vivenciaram os horrores dos campos de concentração em condições desumanas, com experiências que foram capazes de transformar suas personalidades. Passados 27 anos da condenação, Gitta e Mary se reencontraram e agora adulta, Mary finalmente decide falar sobre a sua triste e deprimente infância, concordando em desenterrar o seu passado para a jornalista, bem como falar sobre os terríveis crimes que aconteceram no intervalo de nove semanas.

Durante os cinco meses de contato com a jornalista, Mary relata e detalha diversos aspectos e momentos da sua infância. Ela demonstra o quanto a sua família era disfuncional, relata que a sua mãe não a queria e que tentou doá-la aos parentes, mas também para pessoas estranhas e chegou ao ponto de tentar matá-la. Seu pai não era um bom homem e não servia de espelho para que pudesse aprender bons valores éticos e morais, além disso, era um pai ausente. Mas em nenhum momento Mary Bell tenta usar como desculpas a infância sofrida que teve para cometer os crimes que cometeu, ela rejeita a relação de sua criação com os fatos cometidos.
Opinião: Gitta Sereny produz um relato fascinante e bem esclarecedor sobre esse caso que abalou as estruturas de Newscastle no final da década de 60. Todavia, esse é um livro pesado ao demonstrar toda a sofrida e conturbada infância que Mary Bell enfrentou, passando pelos pais ausentes que não demonstravam e ensinava qualquer tipo de valor moral ou ética decente para a sua filha. Mary também não teve qualquer apoio psicológico ou mesmo da assistência social durante ou após o julgamento em que figurou como ré.

A bem da verdade é que em nenhum momento de sua vida ela recebeu qualquer tipo de apoio. Mas ainda assim, nada disso justifica os atos que cometeu, algo que ela mesmo não faz qualquer tipo de relação para atenuar a sua condição como vítima de seus pais e da sociedade. Através de todos os relatos e histórias podemos entender um pouco da Mary criança, quais eram seus pensamentos e principalmente o que ela entendia sobre o tema "morte" quando assassinou os dois garotos.

Por Que as Crianças Matam é um livro forte, inquietante, triste e desolado, a autora nos leva a refletir e questionar o funcionamento da justiça, em especial sistema de justiça criminal da Inglaterra daquele tempo e como ele tratava as crianças consideradas criminosas ou que apresentavam algum tipo de desvio comportamental. Apesar de escrito na década de 90, Gitta Sereny apresenta um livro extremamente relevante, principalmente se levar em conta que a nossa sociedade continua tão ou mais violenta e desiludida que a sociedade de décadas atrás. Esse é um livro que nos leva a refletir sobre o ser humano, o meio em que vive, a educação que recebe e que todos nós temos nossos lados bons e ruins.
Sobre a Edição: Essa é mais uma edição padrão da Vestígio e conta com folhas amareladas, fonte e espaçamento confortáveis. A revisão também ficou muito boa. O livro é divido em seis partes e conta com conclusão.
Sobre a Autora: Foi jornalista, biógrafa e historiadora. Investigou as origens e a natureza do mal em seus livros sobre criminosos de guerra nazistas (Into that Darkness: An Examination of Conscience; Albert Speer: His Battle with Truth) e sobre crianças assassinas (The Case of Mary Bell; Por que crianças matam). Durante a anexação da Áustria pela Alemanha, viveu na França e depois nos Estados Unidos. Após a Segunda Guerra Mundial, retornou para a Europa e trabalhou com crianças que haviam sobrevivido a campos de concentração ou sido levadas de seus pais.

Viveu a partir de 1958 com o marido, Don Honeyman, em Londres, onde se tornou jornalista freelancer. Em 2003, foi condecorada com uma ordem de cavalaria britânica por seus serviços ao jornalismo. Morreu em 2012, em Cambridge, aos 91 anos.

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