Sinopse: O papel de parede amarelo transita entre o terror gótico e uma alegoria da opressão feminina. A obra dá título a esta coletânea, que reúne contos ligados ao mistério e ao sobrenatural escritos por Charlotte Perkins Gilman, uma das maiores autoras representantes do feminismo mundial. Com tom autobiográfico – a autora também lidou com a depressão e um casamento frustrante –, O papel de parede amarelo apresenta uma esposa confinada em um quarto pelo marido, o que a faz desenvolver uma obsessão pelo papel de parede, no qual enxerga mulheres aprisionadas. Enquanto o horror psicológico conduz este conto, em A glicínia gigante, A cadeira de balanço e A porta não vigiada, Gilman flerta com histórias de fantasmas e de investigações que envolvem o sobrenatural. Quando fui uma bruxa nos apresenta uma mulher movida pela vingança, capaz de realizar seus desejos. Em Se eu fosse um homem, a autora lida com o fantástico em uma história de troca de corpos. Por fim, Água antiga traz uma história de abuso e assassinato.

Resenha: A nova edição do consagrado conto de Charlotte Perkins Gilman, O Papel de Parede Amarelo, publicado pela Via Leitura [Editora Edipro], vem recheado de mais seis contos, além de uma introdução da tradutora da obra, Martha Angel, sendo apresentado no formato tradicional da editora, brochura, conta com uma linda capa e traduz bem o clima das histórias contadas pela autora. Então, vamos lá:


A Glicínia Gigante
[1891]

Tudo que Jenny queria era alugar uma casa assombrada. George, seu marido se divertia com isso. Mas ela achava esse tipo de coisa um tanto quanto romântico. Quando encontraram uma para alugar por um preço razoável, inclusive, ficaram muito felizes e até convidaram seus amigos para passar uns dias. Mas todos rondaram a casa toda e não encontraram nada fora do normal. Até que em uma manhã, depois de pesadelos e uma noite mal dormida para quase todos, se reúnem para o café e cada qual conta sua história da madrugada, que se coincidia com um acontecimento de gelar os ossos, mesmo para uma manhã de sol.

"Ele percorreu o alpendre com passos pesados, até as tábuas soltas rangerem de novo, indo e vindo, os braços cruzados e uma expressão carrancuda por cima da sua boca mal-humorada. Em meio à folhagem acima dele, as sombras desdenhosas dançavam sobre um rosto pálido em cujos olhos ardia um fogo devastador." pág.13.


O Papel de Parede Amarelo
[1892]

O confinamento era tudo que ela tinha. Com seu diagnóstico dado tanto por seu marido como por seu irmão, ambos médicos de renome, ela não poderia fazer nada além do que lhe era imposto. Seu marido havia alugado aquele casarão colonial para o verão e, principalmente, para que ela se recuperasse, pois clinicamente, ela não tinha nada de anormal. Então, sua vida naquele momento era seu descanso, seus medicamentos, o ar puro e alguns exercícios. Também estava absolutamente proibida de escrever. 

Mas uma coisa começou a incomodá-la bastante. Em seu quarto, que parecia ter sido anteriormente ocupado por crianças, havia aquele horroroso papel de parede amarelo. Com o tempo ela começou a perceber que aquele papel de parede não era apenas horroroso, mas também incomum e vivo. Ela de alguma forma sabia que naquele papel de parede amarelo havia alguém preso, mas especificamente, uma mulher. As camadas do papel de parede formavam grades e atrás delas, viva e pulsando, vivia aquela mulher. Seu desejo era apenas um, escapar e jamais voltar para o papel de parede amarelo.

"O vulto indistinto da mulher pareceu sacudir a estampa à sua frente, como se estivesse querendo sair. Levantei-me em silêncio e fui tocar o papel e ver se ele tinha mesmo se movido." pág.31.




A Cadeira de Balanço
[1893]

Quando dois jornalistas em início de carreira alugaram dois quartos naquela rua comum e sem nada que chamasse a atenção, ambos tiveram a impressão de que algo os chamou até ali. Claro que outra coisa que os motivou em alugar os quartos foi a visão daquela garota de cabelos louros e cacheados. Ficaram com quartos conjugados e em um deles havia uma cadeira de balanço muito antiga, bonita, pesada e muito confortável, apesar de tudo.

A menina misteriosa, aparecia apenas em alguns momentos e principalmente para usar a cadeira de balanço. Um dos jornalistas ficou enciumado quando numa tarde, ao chegar mais cedo do trabalho, viu pela janela, seu colega e a garota conversando alegremente como dois amigos íntimos, mas resolveu não dizer nada. À noite, as coisas ficavam um pouco estranhas, pois cada um dos amigos pensava que um estava usando a cadeira de balanço, mas a verdade era que nenhum dos dois sequer tinham chegado perto da cadeira nas noites que se seguiam. 

"Até onde sei, tanto Hal como eu só víamos a garota quando olhávamos da rua para dentro da casa, pois ela continuava fazendo uso de nossa cadeira diante da janela. Isso nos desagradava, ainda mais porque deixávamos as portas trancadas, e a presença dela atestava a posse de outra chave." pág.45.


A Porta Não Vigiada
[1894]

Ela vivia tranquila em sua casa de mármore e seus jardins. Ela havia gasto muito dinheiro para construir aquela casa da forma que imaginara e para um determinado fim. Ela também colecionava algumas coisas de tempos passados, coisas belas e curiosas. Mas além da beleza de seu reduto, o que mais lhe enchia os olhos eram suas flores, que eram de todo tipo e de todas as cores possíveis. Mas mesmo assim, aparentando serenidade e felicidade por tudo que havia conseguido, seu olhar escondia um segredo. 

Um belo dia, um príncipe chegou e mostrou um desejo de conhecer a casa daquela mulher, bem como ver todas as coisas curiosas que ela guardava ali. Ela, prontamente, deixou que o príncipe visse o que quisesse e também respondeu todas suas perguntas sobre a casa. Mas, havia uma coisa que o príncipe tinha notado também; seus olhos. E como um príncipe que era quis saber qual o segredo daquela mulher e sua casa cheia de coisas curiosas e flores cheirosas e coloridas.

"Uma fraqueza semelhante à dor percorreu meu corpo ao ouvir tais palavras. A casa pareceu estremecer sob meus pés e, em meio ao silêncio imperioso, ouvi aquele som que não conseguia explicar entre os potes e os armários que nos rodeavam." pág. 57.




Quando Fui Uma Bruxa
[1910]

Sem nem mesmo ter se dado conta do que fazia, ela havia firmado um contrato com Satã à meia-noite do dia 30 de outubro. O dia tinha sido muito quente e a noite abafada e seu apartamento em Nova York estava insuportável. Em fúria e com a cabeça quente, ela subiu no terraço de seu prédio para arejar as ideias, mas mesmo assim não foi muito feliz.

Ao se debruçar no parapeito do terraço, viu quando um cocheiro açoitava impiedosamente seu cavalo, quase como um movimento involuntário ou "normal" de sua profissão. Uma enorme antipatia cresceu dentro dela e foi quando tudo começou. Sem nem pensar duas vezes, desejou intensamente que todos os cocheiros sentissem a dor de seus cavalos a cada chicotada que davam nos pobres animais. Claro que ela não esperava resposta desse seu desejo, mas quando no dia seguinte ela observou que aqueles homens estavam gritando de dor a cada chicote estalado, ela percebeu que havia conseguido algo maior do que jamais pensara.

"Por algum tempo, não pude verificar o resultado desse experimento. Mas o efeito foi devastador que logo estava sendo amplamente comentado. E esta "nova onda de sentimento humano" logo elevou o status dos cavalos em nossa cidade." pág. 67.


Água Antiga
[1911]

Quando a senhora Osgood trouxe consigo seu amigo e poeta, o senhor Pendexter, já tinha uma intenção bem clara: aproximá-lo de sua filha Ellen, que diferente da mãe, havia escolhido a ciência ao invés da poesia. Inclusive achava repugnante e sem qualquer propósito toda aquela coisa de versos e rimas. 

A senhora Osgood nutria uma certa esperança que com a aproximação de Pendexter, Ellen "despertaria" sua alma poética, que acreditava, estava somente adormecida à espera da pessoa certa. Mas essa aproximação que a senhora Osgood tanto almejava, iria trazer consequências que ninguém jamais poderia imaginar, a não ser um poeta que levaria ao pé da letra o ato de morrer por amor.

"Não gosto dessas histórias velhas e bobas sobre pessoas que nunca fizeram nada de útil, e que não tinham nada na cabeça a não ser se apaixonar ou matar alguém. Não tinham juízo, não tinham coragem e não tinham decência!" pág. 82.


Se Eu Fosse Um Homem
[1914]

Mollie Mathewson sempre repetia que se ela fosse um homem as coisas seriam diferente para ela. Vivendo em um mundo onde as "mulheres de verdade" precisavam ser de tal jeito e se vestirem de tal forma e serem totalmente submissas aos seus maridos, Mollie ficava imaginando como seria sua vida se ela fosse um homem, até que um dia ela conseguiu descobrir. 

Para sua surpresa, um belo dia, ela se tornou seu marido, Gerald. Em um minuto qualquer ela era Mollie e no outro, se pegou caminhando aprumado e robusto, apressado como sempre para pegar o trem e também um tanto mal-humorado. Ela ouviu suas próprias palavras ressoando em seus ouvidos. Inexplicavelmente, um universo de possibilidades estava se abrindo para Mollie Mathewson. Mas será que "ser" um homem era o mais certo para Mollie?

"A princípio houve uma percepção curiosa de tamanho e peso, e de uma corpulência extra. Pés e mãos pareciam grandes e estranhos, e as pernas compridas, retas e livres avançavam com um andar que lhe davam a impressão de usar longas pernas-de-pau." pág. 88.



Opinião: Preciso começar dizendo que nunca havia lido nada de Charlotte Perkins Gilman até esse livro. E nada melhor do que uma bela seleção de contos para se conhecer uma escritora ou escritor. Charlotte carrega em sua biografia a alcunha de ser uma das maiores representantes do feminismo mundial através de seu trabalho. E, com razão, pois coloca em evidência temas e situações em que as mulheres mesmo tendo que "cumprir" o papel de submissão ao homem em uma sociedade completamente opressora, misógina e machista, deixam bem claro suas insatisfações

Todos os contos presentes em O Papel de Parede Amarelo traduz, ora levemente, ora pesadamente, muito bem qual era a imagem da mulher na época em que a escritora desafiou aquela estrutura machista e patriarcal. Gilman nos mostra através de situações e expressões muito peculiares como em A Glicínia Gigante, que tem uma introdução que demonstra a hipocrisia do papel da mulher em todo e qualquer relacionamento da época.

Charlotte também não deixa de demonstrar o sufocamento e total desprezo por tudo que uma mulher poderia ser no conto O Papel de Parede Amarelo, onde a personagem principal tem sua vida totalmente controlada por seu marido médico, que mesmo não acreditando na doença dela, a isola de tudo e todos. O que a leva a um estado emocional precário e delicado. 



Mas, Guilman, também se aproximou das fábulas góticas, onde o melhor exemplo nessa coletânea aparece em A Porta Não Vigiada, onde uma mulher vive a sua vida em sua casa rodeada de seu belo e bem cuidado jardim, até que é confrontada por um Príncipe que a ordena que lhe conte seu segredo, demonstrando mais uma vez a necessidade de controle por parte da personagem masculina diante de uma mulher livre e dona de seus domínios que não faz mais nada além de cuidar da própria vida.

Um dos contos que mais gostei foi Quando Fui Bruxa, que fala de uma mulher que sem querer firma um contrato com Satã e consegue que seus desejos se tornem realidades. Nada mais explícito do que esse conto para demonstrar o poder da mulher no papel figurativo de líder e tomadora de decisões. Claro que para nossa época isso não é nenhuma novidade, mas se levar em consideração que esse conto foi publicado em 1910, sua finalidade toma uma nova dimensão e pode-se ver, claramente, o enorme tapa na cara da sociedade machista com seu suposto "correto" modo de agir e viver. Talvez seja um dos contos mais perfeitos nesse sentido que eu tenha lido até hoje.

Em Água Antiga, a autora traz à tona a fórmula muito comum de viver daquela época, onde o controle vinha não só da parte masculina, mas também no papel da mãe, que por sua vez, nada mais é do que uma pessoa já condicionada aos ritos e determinações da mesma sociedade controladora. O mais interessante é ver como a personagem "atingida" pelos planos maternos se comporta durante a narrativa. Vocês vão gostar, garanto.

Por fim, Se Eu Fosse Um Homem, publicado em 1914, expõe uma enxurrada de críticas sociais e comportamentais, onde a autora, transformando uma mulher, em um homem, tomando conta de sua consciência, demonstra, além de toda a submissão da mulher perante "seu amo", o marido, também a jornada de aprendizado de uma mulher no mundo masculino. Tudo é jogado sem máscaras, onde se pode ver explicitamente o inexistente respeito que os homens tinham por todas as mulheres naquela época.



Infelizmente, toda essa atitude machista e misógina ainda é muito presente nos dias de hoje. Mas, com mulheres que não tiveram medo de expor a situação da mulher na vida cotidiana, como Gilman, as coisas foram mudando e pode-se dizer que hoje está muito melhor do que quando a autora resolveu lutar contra essa injustiça. Mas, ainda está longe de se dizer que é o ideal. 

A autora conseguiu, através de histórias góticas, da vida cotidiana, de fantasmas e do fantástico, unir a luta pelo respeito à mulher com uma ótima literatura. É muito bom saber que existem histórias como as que a autora apresentou nessa coletânea que serviram de entretenimento, seu propósito óbvio, e também manifesto em uma luta que ainda dura até os dias de hoje.

Então, digo com todo respeito e admiração, que O Papel de Parede Amarelo e outros contos, da escritora Charlotte Perkins Gilman e publicado pela editora Via Leitura [Edipro] não chega a ser imperdível, mas sim OBRIGATÓRIO.



Sobre a autora: Charlotte Perkins Gilman (1860-1935) foi escritora, poetisa e uma ativista do feminismo nos Estados Unidos. Abandonada pelo pai durante a infância e sem que sua mãe tivesse condições de criá-la sozinha, ficou sob a proteção de suas tias paternas, Catharine, Harriet (escritora e autora do clássico A cabana do Pai Tomás) e Isabella (sufragista, defensora do voto feminino). Essa influência acabou sendo determinante para o futuro sucesso literário de Charlotte e seu papel fundamental na história dos direitos sociais das mulheres. Seu estilo de vida pouco usual para a época (divorciada e financeiramente independente) a tornaria um modelo para todas as gerações posteriores de feministas.

Ficha técnica:
Título: O Papel de Parede Amarelo e outros contos
Autora: Charlotte Perkins Gilman
Tradução: Martha Argel
Editora: Via Leitura (Edipro)
Páginas: 96
Ano: 2019
ISBN: 9788567097657
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