Sinopse: “Ela o toca, ela o arranca, e logo o come. A terra estremeceu com tal ferida; Desde os cimentos seus a natureza, Pela extensão das maravilhas suas, Aflita suspirou, sinais mostrando Da ampla desgraça e perdição de tudo.” Esta edição segue a tradução original de Lima Leitão, publicada em 1840, restituindo versos emendados por edições subsequentes à sua forma original. 

Resenha: Publicado originalmente em 1667 durante uma época conturbada politicamente, o Paraíso Perdido foi escrito por John Milton e contou inicialmente com dez cantos (livros), contudo em 1674 outros dois cantos foram adicionados a obra original, totalizando 12 livros. A obra de Milton é considerada o poema épico mais importante da língua inglesa, mas também um grande clássico no mundo afora. Inspirado em Gênesis (Bíblia), em Paraíso Paraíso o autor retrata a perda do paraíso pelo homem. Temos nessa epopeia o conflito entre Lúcifer e Deus, aliás, o primeiro é o protagonista da obra e Milton demonstra toda a desobediência e rebelião de Lúcifer contra Deus.

"Do homem primeiro canta, empírea Musa,

A Rebeldia e o fruto que vedado,
Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo
A Morte e todo o mal na perda do Éden,
Até que homem maior pôde remir-nos
E a dita celestial dar-nos de novo."

Após a expulsão do céu, Milton demonstra as penas que Satã e seus seguidores tiveram que enfrentar no inferno, o qual Lúcifer esteve acompanhado de um terço dos anjos que foram expulsos do céu. Tramando a sua vingança e ao mesmo tempo impedidos de efetuar um ataque direto contra o céu devido ao grande poder de Deus e suas hostes celestiais, Lúcifer e seus anjos caídos não encontram outra saída a não ser atacar direto a criação mais amada por Deus, o ser humano. Esse foi criado à sua imagem e semelhança e para colocar o seu plano em ação, Lúcifer toma a forma de uma serpente e seduz Eva para que em companhia do primeiro homem, Adão, comessem do fruto proibido.

Lúcifer tem êxito em seu plano e Eva come o fruto da Árvore do conhecimento, após isso Adão e Eva perdem toda a inocência e obediência que demonstravam perante Deus. Desse momento em diante eles conhecem a culpa e o pecado, caem em desgraça perante os olhos de Deus que envia o arcanjo Miguel ao Éden para informar que Adão e Eva estão expulsos do jardim do Éden e devem deixar o lugar e partir para o mundo. A partir desse momento o ser humano conhece o livre-arbítrio e fica ainda mais vulnerável e suscetível aos assédios provenientes do demônio. Conhecedor dos atos de Lúcifer, Deus o transforma e a todos os seus em serpentes, condenando-os a viver no inferno por um período de aproximadamente mil anos, período esse marcado pela fome, sede e calor intenso.
Opinião: John Milton é elegante na escrita, realiza uma eficaz construção de Lúcifer e demonstra como essa figura pode ser cruel, ambiciosa e manipuladora, mas que em alguns momentos é capaz de demonstrar sentimentos de angústia e arrependimento, bem consegue enxergar em si mesmo a sua natureza egoísta e suas intenções depravadas, principalmente para afrontar Deus, o seu criador. Esse poema épico retrata o embate entre as forças do bem e do mal, mas também tem a sua polêmica ao demonstrar que às vezes o mal e o bem se confundem em alguns momentos, algo que fica claro no livro V quando Rafael ao descer dos céus transmite uma mensagem, na verdade uma exigência demandada por Deus para que Adão e Eva cumprissem, a obediência total e cega.

Paraíso Perdido é um livro fascinante e encantador, mas não é uma leitura fácil, pois a linguagem utilizada é rebuscada e nesse momento as notas de rodapés são extremamente úteis para facilitar a nossa compreensão. Eu fico imaginando o quanto de trabalho e dificuldades que Milton precisou enfrentar e vencer para escrever uma obra tão grandiosa, pois fez uso de diversas citações, escreveu uma história baseada nas mitologias grega e romana, mas principalmente em livros e passagens apresentadas na bíblia.

Essa dificuldades aumentam se levar em conta o período em que Milton viveu e a influência da igreja em sua época, já que qualquer deslize poderia acarretar no mínimo em algumas consequências nada agradáveis para ele. Milton também leva ao debate o papel e importância de Satã na filosofia cristã, mas também no rumo da humanidade. Ele demonstra a visão de Satã sobre a tirania de Deus quando o mesmo em certo momento demanda a obediência total, governando através do medo e subjugando a sua criação. Dessa forma, o castigo é um ato para aqueles que saem do caminho definido pela figura do próprio Deus que na visão de Satã/Lúcifer, é de forma arbitrária.
O autor também abre espaço para tecer críticas sobre a idolatria, algo presente em nossa sociedade e em sociedades passadas, tendo em vista que para ele qualquer objeto que seja para referenciar ou indicar algo humano ou não, tendo como objetivo receber a atenção de Deus, é visto como idolatria. Em suma, Paraíso Perdido é um livro incrível, mas que requer total atenção durante a leitura. Quero destacar a belíssima edição elaborada pela editora Martin Claret, pois é uma edição em capa dura, conta com introdução, notas de rodapé, ilustrações e notas editoriais.
Sobre o Autor: John Milton foi um escritor inglês, um dos principais representantes do classicismo de seu país, e autor do célebre livro O Paraíso Perdido, um dos mais importantes poemas épicos da literatura universal. Foi político, dramaturgo e estudioso de religião. Apoiou Oliver Cromwell durante o período republicano inglês, porém foi preso e acabou por ficar cego; na prisão, ditou o Paraíso Perdido, sua obra-prima, que conta a história da queda de Lúcifer, e foi publicado em 1667. Quatro anos mais tarde, lança o livro Paraíso Recuperado, uma seqüência do primeiro poema, trata da vinda de Cristo à Terra reconquistar o que Adão teria perdido.

Ficha técnica:
Título: Paraíso Perdido
Autor: John Milton
Tradução: Antônio José Lima Leitão
Páginas: 513
Ano: 2018
ISBN: 9788544001813
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