[RESENHA #653] O IDIOTA - FIÓDOR DOSTOIÉVSKI


Sinopse: O idiota" é uma das obras mais comoventes de Fiódor Dostoiévski. Abstrusa para os contemporâneos do escritor, mas atual e compreensível para quem a conhecer em nossos dias, ela conta a história de um jovem aristocrata russo que se atreve a defender o sublime ideal humanista numa sociedade regida pelas leis do livre comércio. Ovelha negra da alta-roda de São Petersburgo, o príncipe Míchkin é tachado de idiota em virtude das suas qualidades morais e acaba perdendo de fato o juízo. Sua imagem de mártir e visionário, inspirada na do magnífico Dom Quixote de Cervantes, fica interiorizada pelo leitor; seu trágico fim leva-o a perguntar a si mesmo onde termina a loucura e começa a santidade do protagonista e, consequentemente, a repensar o próprio conceito daquilo que pode ser objeto de compra e venda no conturbado âmbito das relações humanas.

Resenha: Foi numa viagem de trem que começou a história do príncipe Lév Nikoláievitch Míchkin, que por anos teve que se ausentar de sua terra natal, a Rússia, para tratar de sua doença, a epilepsia. Como era de se esperar em viagens longas como aquela, o príncipe trava uma conversa com um homem chamado Parfión Rogójin, que estava voltando à Rússia devido ao falecimento de seu pai e também para reclamar sua herança por direito.

Míchkin mais ouvia do que falava com aquele homem de tratos tão diferentes dos seus. Em meio a conversa, Rogójin conta alguns acontecimentos sobre a vida de Nastássia Filíppovna, uma mulher que tem uma baixa reputação em seu meio de vida. Rogójin, por sua vez é um apaixonado pela moça e diz que entregará em suas mãos um presente financeiro que garantirá seu desejo de se casar com ela.


Mas o príncipe não estava muito interessado naquilo tudo, pois ele estava ali de volta ao seu país para travar conhecimento e tentar laços com seus parentes, a família do General Epantchín, que se casara com uma parente distante, a senhora Epantchiná. Nesse encontro, Míchikin, conheceu, além da família toda, Gavríl Ardaliónovitch, lacaio do General, com qual manteria uma relação conturbada no futuro.

"O príncipe levantou-se e apressadamente se desembaraçou da capa, ficando só com seu terno que, embora usado e com o paletó um pouco curto, era decente de bom talho. Uma corrente de aço era visível no seu colete e preso a ela um reloginho de Genebra, de prata." p. 38.

Michikin acaba indo se hospedar na casa de Gánia [Ardaliónovitch], e lá conhece a tão falada Nastássia Filíppovna, que viera dar a resposta sobre o casamento dela com Gánia, que acaba, logicamente, numa tremenda confusão, pois para surpresa do príncipe, Rogójin e mais uma porção de pessoas que lhe acompanhavam, aparece na casa de Gánia atrás de Nastássia. 

Perdido nessa trama rocambolesca, o príncipe acaba se engendrando nas histórias de Nastássia, Gánia e Rogojin, como peça primordial para que tudo se resolva. Porém, existe Agláia, filha da senhora Epantchiná, que também trás uma grande quantidade de problemas ao príncipe Míchikin, lhe gerando um enorme dilema para aquele que é tido por todos como apenas um idiota.

"Ora, que adiantava estar pensando em tais coisas? Havia loucura, e de ambos os lados. Ele, Míchkin, amar aquela mulher, apaixonadamente, era coisa que nem se devia supor. Corresponderia a julgá-lo capaz de crueza espiritual, de falta de humanidade." p. 272
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Opinião: Não é de hoje que quem me acompanha nesses anos de resenha, sabe que Fiódor Dostoiévski é um de meus escritores favoritos e a razão disso é simples: Ele nunca me decepciona. Em O Idiota, Dostoiévski desfila uma grande malha de personagens para contar a história do príncipe Míchkin. É através de diversas situações, umas cotidianas e outras nem tanto, que Fiódor, destila toda a sua crítica sócio-político-econômica, além é claro, da religiosa, mesmo sendo um cristão ortodoxo, Dostoiévski não deixa de fora as incongruências de seus rigores perante seus discípulos.


Em O Idiota, senti novamente aquela sensação de aconchego a cada reunião dos personagens e suas discussões muitas vezes longas, mas também totalmente necessárias para o lado filosófico e metafísico que o autor sempre apresenta em seus personagens. Não raro, você, leitor, vai se deparar com situações que apresentam questões sobre a vida e sua finalidade. Porém, conseguir respostas é outra situação e que não é explorada ou tem sua solução dada sutilmente.

O autor colocou através de seu personagem icônico, Míchkin, toda a inocência que um ser humano adulto poderia ter, depois de passar praticamente a vida toda isolado devido a sua condição de saúde delicada e até então não muito explorada. É quase poética a visão que Míchkin tem da vida e das pessoas que os rodeia, pois tendo ele vivido rodeado de crianças no “estrangeiro”, acabou se “impregnando” da inocência das próprias crianças. O que acaba acarretando diversas situações problemáticas para ele.

A grande hipocrisia da vida também é muito bem demonstrada por Dostoiévski quando sua personagem é inicialmente apresentada como um “zé ninguém”, que é recebida com desconfiança e indiferença. De uma certa forma, sua inocência, acaba encantando alguns personagens que o acolhem até certo ponto, mas sem deixar de dizer que por causa dessa sua mesma inocência, é tratado com se fosse um idiota.

A grande virada e o acentuamento da dita hipocrisia humana se dá quando o príncipe Michkin recebe uma herança e consequentemente, altera sua classe social perante os seus. Á partir desse ponto, sua vida fica mais complicada e Michkin se vê rodeado de pessoas interesseiras e que mesmo, muitas vezes, conseguindo o que almejam, não deixam de vê-lo como o mesmo idiota. Isso fica extremamente evidenciado nas suas relações com seus “parentes” que desde o começo sempre o trataram pelo título da obra. Mas talvez sejam os mais verdadeiros personagens de toda a história, pois nunca esconderam isso do príncipe em momento algum.



Dostiévski também aborda toda a fragilidade humana em O Idiota. Alguns personagens são apresentados com suas doenças terminais outros com suas doenças mentais e muitos são afetados pela fragilidade do amor, que naquela época poderia levar até a morte, assim como o orgulho e a aparência que são pontos centrais de toda a crise que é apresentada em O Idiota, pois serve de ponto de partida para vingança, ódio e até tentativa de assassinato, temas até recorrentes nas obras de Dostoiévski.

É imensamente prazeroso se “perder” nos devaneios filosóficos apresentados em muitas das reuniões dos diversos personagens da trama e também saber que cada um tem seu propósito definido em toda a história do príncipe. Aliás, não tem como ficar indiferente perante a gama de personagens apresentados por Fiódor, pois juntos criam uma teia de sentimentos e ressentimentos impossível, como disse, de se desvencilhar até sua resolução. E digo: vou sentir saudades desses personagens.

O Idiota me trouxe um prazer enorme diante de suas setecentas e doze páginas e ainda mais nessa nova edição que faz parte do novo projeto de padronização das obras de Fiódor Dostoiévski, apresentado pela Martin Claret, no formato 16X23cm, capa dura, papel amarelado e fonte na cor da capa, no caso, marrom. Uma bela edição para uma bela história que sem dúvida alguma é IMPERDÍVEL.



Sobre o autor: Fiódor Dostoiévski (1821-1881) foi escritor, jornalista e filósofo. Nascido na Rússia, é considerado um dos pais do existencialismo – em virtude de seus romances que retratam de forma ­ filosófica as patologias psicológicas. Após a morte da esposa e do irmão, viu-se afundado em dívidas, tendo de sustentar a família do irmão, o enteado e um segundo irmão alcoólatra. Para fugir à pressão dos credores, acabou se refugiando em diversas cidades da Europa com sua segunda esposa, sem nunca interromper sua produção literária. A necessidade de dinheiro o forçava a concluir rapidamente seus livros e lhe creditou a frase “a pobreza e a miséria formam o artista”. Dentre suas maiores obras estão Crime e castigo, O idiot­a e Os irmãos Karamazov. 

Ficha técnica: 
Título: O Idiota 
Autor: Fiódor Dostoiévski 
Tradução: José Geraldo Vieira 
Editora: Martin Claret 
Páginas: 712 
Ano: 2019 
ISBN: 9788544001882 
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