[RESENHA #660] UMA CRIATURA DÓCIL - FIÓDOR DOSTOIÉVSKI


Sinopse: No conto Uma criatura dócil, Dostoiévski mergulha profundamente em seu estilo de "literatura de ideias", em que explora o universo psicológico dos personagens. O livro é narrado pelo dono de uma casa de penhores que conta sobre seu casamento com uma jovem de 16 anos. A menina, órfã, é maltratada pelas tias e consequentemente fica desesperada para deixar a casa. Por isso, acaba aceitando casar-se com o dono da loja. Aos poucos, entretanto, o marido percebe que não terá, como desejava, a submissão da jovem esposa, então passa a se enredar em uma trama de intrigas e ciúmes. Uma criatura dócil é uma obra-prima da narrativa fantástica de Dostoiévski e leitura obrigatória para os amantes da literatura russa.

Resenha: Ele tinha sua vida toda controlada em sua pequena loja de penhores. Não prestava muita atenção para quem passava por sua loja, a não ser quando tinha que pagar pelas suas mercadorias. Era um homem solitário, mas tinha um objetivo financeiro bem definido e já sabia o que queria no futuro. Por isso economizava bastante e não tinha gastos excessivos. Até mesmo sua casa tinha pouca mobília, até porque era somente ele.

Mas foi uma dessas freguesas regulares que o atraiu de uma forma até um tanto inexplicável. Ela era toda magrinha, estatura média e com seus cachinhos loiros, sempre pareceu meio sem jeito com ele. Até mesmo na hora da penhora ela não barganhava como as outras pessoas, pegava seu dinheiro se virava e ia embora. Sem questionar, sem pedir mais, nada. Mas ela sempre voltava, pois sempre parecia precisar de dinheiro e gastava tudo com anúncios que fazia nos jornais se colocando à disposição para trabalhar como Governanta, mas isso, ele descobriu depois, entre outras coisas.

"Lembro-me de tudo, não esqueci nada! Quando ela saiu, tomei imediatamente a decisão. Nesse mesmo dia saí em minha última busca e descobri sobre ela toda a verdade mais secreta que me restava saber." p.19.



Talvez tenha sido por dó ou talvez tenha sido por puro interesse pessoal, mas o fato é que ele investigou o passado daquela menina e descobriu que a vida dela era mais do que terrível. Tinha perdido os pais e morava com as tias, que a maltratavam e a exploravam até a exaustão. Foi então que, após descobrir que ela estava sendo quase vendida ao comerciante vizinho dela, resolveu, assim, pedi-la em casamento. Aquilo seria bom para ele e para ela, mas a verdade mesmo era que ele realmente gostava dela e queria, de certa forma, salvá-la, além de ter alguém calma e dócil como ela ao seu lado.

Mas o casamento não foi exatamente o que ele esperava que fosse. Como sempre, tudo no começo é maravilhoso e pelas novidades para ambos, as coisas até que iam muito bem. Porém, algo começou a mudar tanto para ele quanto para ela e o principal de tudo era que a criatura dócil e tímida que ele queria se mostrou diferente depois de um tempo e então a pior coisa aconteceu entre eles: o silêncio.

"As duas primeiras esposas ele matara, de maus-tratos; agora procurava por uma terceira, e eis que a vislumbrou: "Quieta, por assim dizer, cresceu na pobreza, vou me casar pelos órfãos". De fato, ele tinha órfãos. Pediu-a em casamento, passou a combinar com as tias." p. 22. 

Opinião:
Mais uma vez, Fiódor Dostoiévski mostra o porquê de ser um escritor tão cultuado muito tempo depois de sua morte e de suas publicações. Em Uma Criatura Dócil, o escritor nos mostra já de cara o relato de uma tragédia até certo ponto, anunciada.



Fiódor nos apresenta a história de um casal que tinha tudo para dar errado, mas mesmo assim, diante dos acontecimentos da vida, eles resolvem ir em frente. De um lado temos o homem solitário, orgulhoso, mas com um passado vergonhoso. De outro, temos a mulher sofrida que perdeu tudo e vive quase como escrava na casa de parentes e que se vê quase vendida a troco de nada. 

Pode parecer chocante esse tipo de situação nos dias de hoje, mas naquela época e na situação em que viviam, os russos, isso era, propriamente dito, normal. E é nesse tipo de situação em que o autor nos coloca a par, onde um casal trava uma guerra silenciosa onde o orgulho é o principal ponto de partida para toda a tragédia. 

A morte sempre está presente nas histórias de Dostoiévski e não é diferente em
Uma Criatura Dócil, aliás, a introdução do próprio autor já revela que se trata de uma narrativa fantástica e trágica, mas os detalhes somente são apresentados na pessoa do marido, o sofredor orgulhoso. 

Pode até parecer que em apenas 96 páginas não teríamos espaço para as, também presentes em todas suas obras, criticas socioeconômicas, mas sem surpresa alguma elas estão lá, todas elas. Aliás, como sempre digo, acredito que esse conto foi um enorme tapa na cara da sociedade daquela época e por que não dizer, até a de hoje, pois engana-se quem acredita que não existem mais casamentos arranjados nos dias de hoje.



Para mim, a mensagem que Fiódor Dostoiévski talvez quisesse nos passar com esse conto, foi a de que a relação humana é e sempre será conturbada, não importando se essa relação é de amor, de ódio ou mesmo amizade, pois toda e qualquer relação sofre com perdas e ganhos de todos os lados, principalmente se houver a questão do orgulho que tanto nos faz perder. A importância daquilo que queremos para nossas vidas vai depender muito de nossas ações e reações e quem fica, também, de certa forma, tem que lidar com isso. 

Não se enganem pelo tamanho da obra, pois como dizem por aí, é nos pequenos frascos que encontramos os melhores perfumes. E isso, vale perfeitamente para
Uma Criatura Dócil de Fiódor Dostoiévski, publicado pelo selo Via Leitura da editora Edipro. Indiscutivelmente, IMPERDÍVEL.



Sobre o autor: Fiódor Dostoiévski (1821-1881) foi escritor, jornalista e filósofo. Nascido na Rússia, é considerado um dos pais do existencialismo – em virtude de seus romances que retratam de forma ­ filosófica as patologias psicológicas. Após a morte da esposa e do irmão, viu-se afundado em dívidas, tendo de sustentar a família do irmão, o enteado e um segundo irmão alcoólatra. Para fugir à pressão dos credores, acabou se refugiando em diversas cidades da Europa com sua segunda esposa, sem nunca interromper sua produção literária. A necessidade de dinheiro o forçava a concluir rapidamente seus livros e lhe creditou a frase “a pobreza e a miséria formam o artista”. Dentre suas maiores obras estão Crime e castigo, O idiot­a e Os irmãos Karamazov.

Ficha técnica:
Título: Uma Criatura Dócil
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução: Natália Petroff
Editora: Via Leitura [Edipro]
Páginas: 96
Ano: 2017
ISBN: 9788567097473
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