[RESENHA #664] A MULHER COM OLHOS DE FOGO - NAWAL EL SAADAWI


Sinopse: "Um dos livros mais francos e radicais sobre a vida feminina, de todas as origens, em todas as partes do mundo.” THE GUARDIAN Esta ficção é baseada no relato verdadeiro de uma mulher que espera sua execução em uma prisão no Egito. Sua história chega até a autora, que resolve conhecer Firdaus para entender o que levou aquela prisioneira a um ponto tão crítico de sua existência. “Deixe-me falar. Não me interrompa. Não tenho tempo para ouvir você”, começa Firdaus. E ela prossegue contando sobre como foi crescer na miséria, sua mutilação genital, ser violada por membros da família, casar ainda adolescente com um homem muito mais velho, ser espancada frequentemente, e ter de se prostituir... até que, num ato de rebeldia, reuniu coragem para matar um de seus agressores, levando-a à prisão. Esse relato é um implacável desafio a nossa sociedade. Fala de uma vida desprovida de escolhas, mas que em meio ao desespero encontra caminhos. E, por mais sombrio que isso possa parecer, sua narrativa nos convida a experimentar um pouco dessa liberdade encorajadora através das transformações internas de Firdaus. O que acontece com ela é o despertar feminista de uma mulher. 

Resenha: Uma mulher foi presa, acusada de matar um homem. Nada muito diferente do que às vezes vemos na televisão. Mas o ano não é o atual e o país não é o nosso. No Oriente Médio, onde as mulheres devem ser submissas aos homens, sejam eles seus maridos ou não, um crime como esse é digno de morte. E esse é o destino de Firdaus.

Nawal el Saadawi é uma médica psiquiatra que está estudando e, assim, entrevistando algumas detentas para compor sua pesquisa quando ouve falar de Firdaus, a única das mulheres que não tenta convencer os demais de lhe manter viva. Ela não fala e isso desperta a curiosidade da médica, que consegue essa conversa com a mulher no último instante antes de sua morte.

Firdaus cresceu em uma família pobre, aprendendo que deve respeitar todos os homens, sejam eles de sua família ou não. Aprendeu que o dinheiro era algo de muito valor, mas sua família não o tinha. A não ser o seu tio que morava longe e os visitava ocasionalmente. Quando pôde, então, foi morar com ele, onde conseguiu estudar e ter um diploma de nível fundamental. Porém, nesta época, o tio se tornou uma das suas lembranças ruins, também sendo o causador da próxima. 

Por mais instrução que tivesse, Firdaus não conseguia um espaço na sociedade, assim, teve de se casar e, posteriormente, após sofrer na mão de um homem avarento e egoísta, além de abusivo, ela foge e encontra um lugar na prostituição.  Não era algo que ela gostava de início, mas conforme foi compreendendo o valor que ela tinha, se tornou um meio de sobreviver, de ter uma vida confortável e sem passar dificuldades ou agressões.

Mas a vida de uma mulher no Egito nunca era fácil, muito menos para uma prostituta. Ela não tinha valor para a sociedade, menos ainda do que as mulheres casadas. Assim, logo a sua sina voltou na forma de uma pessoa. A pessoa que ela tinha matado ao perceber que, na verdade, o que ele sentia por ela era medo. Firdaus, ao longo de seu sofrimento, descobriu o que mudaria completamente o seu modo de ver a vida e nem mesmo a morte que se aproximava mudaria a força que descobriu dentro de si. 


Opinião: Quando iniciei a leitura desse livro, soube que seria intenso e de difícil aceitação. Não por conta do que a protagonista era ou fez, mas pelo o que ela passou. Conhecer uma cultura tão diferente da nossa pode ser interessante, mas pode ser muito desconfortável, especialmente ao ver como a mulher é tratada pelo seu povo, pelos seus familiares.

Em algumas cenas do passado de Firdaus, tive que pausar a leitura, respirar fundo e tentar não me lembrar que essa era uma narração real, de uma pessoa que existiu e passou por aquilo e que estava sendo contado pela autora, que é a médica na história, para que possamos conhecer. Firdaus é o exemplo do que uma mulher de origem pobre sofre em seu pais, em meio ao seu povo e como isso parece não mudar ao longo dos anos. 

Porém, ela também é um exemplo do que podemos fazer, da consciência que todas devemos ter da nossa força e capacidade. Pois foi quando a personagem se viu realmente que ela viveu, abriu os olhos e passou a ser realmente dona de si. A mudança acontece aos poucos, em passos pequenos, mas que, depois, se tornam asas.

Um livro que deve ser lido por homens e mulheres, que deve ser usado para refletir sobre como tratamos as pessoas, como as vemos, como devemos conhecer suas histórias e, especialmente, como todos temos nosso valor. 


Sobre a Edição: A capa possui a imagem que representa Firdaus, com seus olhos penetrantes e, de certo modo, a espreita, como ela passou grante parte da sua história, pronta para fugir de quem a machucasse. Ou seja, uma capa que por si só já passa uma grande mensagem da trama que se desenrola. As folhas são grossas e amareladas e a fonte é de um tamanho agradável para leitura, assim como o espaçamento. Dividida em três partes, cada uma é separada por uma página preta que traz mais beleza à edição.


Sobre a autora: NAWAL EL SAADAWI, 87, é uma escritora, ativista, médica e psiquiatra feminista egípcia. Saadawi foi presa pelo presidente Anwar al-Sadat em 1981 por supostos “crimes contra o Estado”. Ela escreveu muitos livros sobre as mulheres no Islã, e se dedica, em especial, à luta contra a prática da mutilação genital feminina no Oriente Médio. Nawal é tratada como “a Simone de Beauvoir do mundo árabe”. Seus livros já foram traduzidos para mais de 28 idiomas e são adotados em universidades do mundo inteiro. Seus discursos atualmente se concentram na crítica à tentativa de normalizar o que ela considera a opressão aos costumes das mulheres na África e Oriente Médio. Depois de quatro décadas da revolução islâmica, muitos já consideram normais as restrições aplicadas às mulheres, incluindo as próprias mulheres.

Ficha Técnica:
Título: A Mulher com Olhos de Fogo
Autora: Nawal El Saadawi
Editora: Faro Editorial
Páginas: 160
Ano: 2019
ISBN: 9788595810600
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