[RESENHA #683] A GANGUE DOS SONHOS - LUCA DI FULVIO


Sinopse: Nova York. Nos tumultuados anos 1920, a cidade é, para milhares de europeus, a epítome do “sonho americano”. E não é diferente para Cetta Luminita, uma italiana que, apesar de muito jovem, busca um lugar ao sol com seu filho Christmas. Numa metrópole em plena explosão, onde o rádio está nascendo e o cinema começa a falar, Christmas vai crescer entre gangues rivais, um ambiente de violência e pobreza, com sua imaginação e sua coragem como únicas armas para sobreviver. A esperança de uma nova existência nasce quando ele encontra a jovem, bela e rica Ruth. Uma história vertiginosa e luminosa, magistralmente escrita, uma reflexão sobre a violência cometida contra as mulheres, sobre o racismo e a incomunicabilidade social, um romance sobre a infância roubada. A gangue dos sonhos queima com um ardor violento e redentor, e transporta o leitor para um mundo onde todos lutam para preservar sua integridade. Um romance que se lê de uma só tacada, que se desenrola como um filme e no qual cada página é uma nova sequência. 

Resenha: Cetta era apenas uma criança quando sua mãe lhe disse que precisava protegê-la do patrão, pois a cada visita daquele homem, seus olhares eram cada vez mais ávidos por Cetta e sua mãe sabia exatamente o que ele queria. Então teve que tomar medidas drásticas para que sua filha não tivesse o mesmo destino de praticamente todas as meninas do vilarejo. Foi com determinação, culpa e infelicidade que ela bateu na cabeça de Cetta para que o sangue jorrasse e parecesse que foi um acidente muito sério enquanto brincava pela mata. Deixou-a na floresta para que fosse encontrada e logo depois pudesse dar andamento ao seu plano de proteção. E foi justamente o que aconteceu.

O patrão perdeu totalmente o interesse por aquela menina que, nas palavras dele, cresceria como uma bela mulher, porém, após o acidente, agora não achava a mesma coisa e nem sequer perdia mais tempo olhando aquela menina. Sua mãe, aliviada, disse para Cetta que era melhor assim e que ela estaria protegida daquele homem torpe. Mas, as coisas não foram tão bem quanto ela esperava.



A mãe de Cetta tinha pensado em tudo para protegê-la de ser estuprada pelo patrão, como era de costume naquele lugar, mas nem sequer lhe havia passado pela cabeça que Cetta poderia atrair a atenção de outros predadores por aquelas bandas e colocar tudo que planejou e executou  ladeira abaixo. Infelizmente, Cetta teve o mesmo destino das outras tantas meninas que viviam no julgo do patrão, a única diferença é que quem a estuprou foi um visitante que estava em uma comitiva daquele mesmo patrão e, nove meses depois, Natale Luminita chegava ao mundo em um vilarejo subjugado pelos mandos e desmandos de um homem que não tinha nenhum escrúpulo.

Cetta tinha apenas uma certeza em sua breve e sofrida vida, a de que ninguém tiraria seu filho e o mandaria para longe. Foi pensando nisso que disse para sua mãe que iria fazer tudo para proteger e dar todas as oportunidades possíveis para seu filho, Natale, mas a única opção que tinha para conseguir essas oportunidades era indo para a América e, apesar da descrença de toda a sua família, pois não tinha como pagar uma viagem para outro continente, Cetta conseguiu sair da vila e uma vaga em um navio que iria para os Estados Unidos, pagando da única forma que lhe era possível, com seu corpo.

"O rato moveu o olhar para o capitão e levou uma mão ao peito. O capitão levantou Natale, surpreendendo Cetta, e agarrou um seio dela, colocando-o em evidência. Cetta lançou-se sobre o filho e pegou-o de volta. Depois baixou o olhar, vexada. Mas primeiro viu o rato rindo e assentindo com a cabeça para o capitão." pág. 21.

O capitão do navio, um homem bruto e sujo, como a maioria das marinheiros daquela época, se aproveitou muito bem de seu “pagamento” durante toda a viagem e Cetta apenas deitava-se e esperava que ele acabasse o que viera fazer. Quando chegou à América, Cetta até se surpreendeu pelo tratamento que o capitão teve com ela e muito mais quando cumpriu tudo o que havia sido combinado, fazendo com que ela conseguisse entrar nos Estados Unidos da América sem qualquer problema.

Mas as coisas, como sempre, continuariam não sendo nem um pouco fáceis para Cetta. Tendo negado sua separação de seu filho Natale, agora rebatizado de Christmas, um nome americano, Cetta foi encaminhada aos cuidados de Sal, um homem bruto e violento, que levaria Cetta e Christmas Luminita ao mundo real do sonho americano.



Opinião: Tenho que confessar que a primeira coisa que me chamou a atenção em A Gangue dos Sonhos foi sua capa. A segunda sua sinopse. Também confesso que nunca tinha ouvido falar em Luca di Fulvio, provavelmente, assim como muitos por aqui. Outra confissão foi o risco de ler um livro com quase 600 páginas contando uma história que se passa nos anos 20 o que poderia se crer que era composta de puro clichês.

Porém, bastou um primeiro olhar pelos primeiros parágrafos para se tornar refém de uma epopeia moderna sobre o “sonho americano” que explodiu justamente nos anos 20, onde a América era vista com uma salvadora para muitos estrangeiros que se arriscavam a viagens longas e por vezes perigosas para tentar uma vida melhor na grande nação americana.

A escrita de Luca é majestosa e o escritor não tem medo algum de mostrar o lado perverso dela, o lado sem escrúpulos regado a muita violência e xingamentos, exatamente como o ser humano é, principalmente aquele que vê seus sonhos ruírem pela falsa promessa de que tudo será fácil e sem problemas.

Em se tratando de violência, A Gangue dos Sonhos apresenta toda a verdade sobre uma nação em construção onde ela, a violência, está sempre presente e sem nenhum filtro para o leitor ou leitora. A maior violência mostrada na trama é o estupro e suas consequências tanto para a vítima quanto para o bandido.

"Então ficou de pé e começou a chutá-la. Na barriga, nas costelas, no rosto. Depois, ajoelhando com as pernas abertas sobre o peito dela, para imobilizá-la, deu-lhe outro soco e inclinou-se para a frente, em direção a um saco de pano." pág.51.

Existem personagens como Cetta Luminita que vê o estupro quase como uma coisa normal e consequente de sua situação inicial. Mas, obviamente, isso muda e muito durante sua história na grande trama de A Gangue dos Sonhos. Outras, porém, como Ruth, vê sua vida destruída, sua infância roubada e o peso psicológico da autodestruição e culpa são imensamente explorados pelo autor. O que nos trás, nós leitores, uma carga emocional quase impossível de se carregar. Aliás, preparem-se, pois as emoções serão muitas.

Como disse, outro lado abordado da violência, fica por conta do perpetuador do ato ou bandido, vilão, como queiram. Di Fulvo mostra toda a construção de um personagem que puramente maldade, mas o interessante disso tudo é que o autor não mostra apenas o do que o vilão é capaz, além dele descrever o porquê dele ter chegado a tal pode de vilania e degradação humana, pode-se dizer que a raiz de todo o mal do personagem é originária de sua criação e convivência paternal, principalmente.



Di Fulvio também mostra como a violência pode ser explorada para fins lucrativos mesmo que isso custe mais vítimas, principalmente e majoritariamente, mulheres, o que fica claríssimo como a situação feminina daquela época efervescente era degradante. Ela servia apenas para o sexo, fosse consensual ou abusivo. Seu papel era o de dona de casa, muitas vezes sofrendo abusos violentos, ou de prostituta, geralmente, conformada com o próprio papel e sabendo que estava ali apenas para servir e obedecer.

Mesmo que o papel degradante em que o ser humano pode se prestar com o uso de o que quer que seja para conseguir o que deseja, muitas vezes com o uso extremo da já citada violência, seja branda ou brutal, Di Fulvio não poderia de deixar de lado o papel do amor na escalada pelo tal “sonho americano”.

"Pensava que ficariam ali, um ao lado da outra, esquecidos do mundo ao redor. Acreditava que ela não tiraria um instante sequer os profundos olhos verdes dos seus. E que com aquele olhar sem fim diriam um ao outro tudo aquilo que não vinha aos lábios de dois adolescentes." pág. 88.

Todo e qualquer personagem em A Gangue dos Sonhos persegue incansavelmente esse sonho e mesmo que já o tenha conseguido, luta também, incansavelmente, para mantê-lo junto de si. Nesse retrato cruel e realista, a tal gangue do título entra em cartaz logo cedo na trama, mas é totalmente desenvolvida nas mãos de Christmas Luminita, que tem a incrível capacidade de fazer com que as pessoas acreditem em tudo aquilo que ele “não” diz [leiam e entenderão o que quero dizer].

Uma das diversas características de A Gangue dos Sonhos é a incrível preocupação que Di Fulvio teve com a construção e evolução de todos, sim, TODOS os personagens que fazer parte dessa incrível história que ele resolveu contar. É extremamente gratificante você saber que seus personagens, sejam bons, ruins e até inexpressivos são respeitados pelo seu criador, o que nos traz uma felicidade imensa em saber que eles não serão simplesmente esquecidos no decorrer da trama, o que acontece com muitas obras disponíveis no mundo da literatura.

Um dos grandes trunfos de A Gangue dos Sonhos foi a grande destreza do autor em apresentar uma história inebriante e fazer com que nós, leitores, nos apaixonássemos por todo o elenco da trama. Digo que quem se “atrever” a conhecer os atores dessa “peça” vai amar ver seus percalços, seus erros e seus acertos. Vai amar os bons e, principalmente, vai se pegar amando odiar os maus e também aqueles que nem são tão maus assim.



Luca Di Fulvo, realmente, foi uma grande surpresa do ano e com absoluta certeza um dos melhores livros que já li na minha  vida de leitor. A Gangue dos Sonhos muito me lembrou o formato das histórias contadas por Jeffrey Archer, como em “O Voo do Corvo” e de Sergio Leone, principalmente em “Era Uma Vez na América”, o que por si só já valeria todo e qualquer investimento na leitura deste grande e excepcional ÉPICO.

Mais uma vez a editora Vestígio do Grupo Pensamento, acerta em cheio na escolha de seus títulos e também no tratamento dado a eles. A Gangue dos Sonhos vem no formato brochura com uma capa muito bonita e totalmente imersa na história, papel amarelado, fonte agradável e com uma revisão impecável.

Não se espantem se esse grande ÉPICO for adaptado para as telonas, pois A Gangue dos Sonhos, além de tudo, ainda tem um grande viés cinematográfico e fico, realmente, na expectativa de que possa virar ou um grande filme ou uma grande série limitada. Então não percam mais tempo e se aventurem nessa grande história que é realmente, I-M-P-E-R-D-Í-V-E-L.


Sobre o autor: Dramaturgo, Luca Di Fulvio nasceu em Roma em 1957. Ele é autor de dez romances, dois dos quais foram adaptados para o cinema (L’impagliatore – Olhos mortais no Brasil – e La scala di Dioniso). Tornou-se um fenômeno internacional com os sucessos de A gangue dos sonhos, La ragazza che toccava il cielo [A garota que tocou o céu] e, mais recentemente, Il bambino che trovò il sole di notte [O menino que encontrou o sol à noite].

Ficha técnica:
Título: A Gangue dos Sonhos
Autor: Luca Di Fulvio
Tradução: Reginaldo Francisco
Editora: Vestígio [Grupo Autêntica]
Páginas: 592
Ano: 2019
ISBN: 9788554126278
Onde Comprar: Amazon

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16 Comentários

  1. Nossa, como desejo ler esse livro, essa narrativa deve estar perfeita e sua resenha apenas aguçou ainda mais minha curiosidade, pois curto esse estilo de leitura. Espero estar lendo em breve!!!

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    1. Gustavo, meu caro. Leia, pois é um livrão. Vale cada centavo. Muito obrigado pela visita e volte sempre. Abraços.

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  2. Levando em consideração o ano que a história se passa Cetta ver o estupro como normal é uma coisa da época que tinha uma coisa bizarra de aceitação do que faziam com você.
    Vou procurar ler esse livro, a história dele é ótima e eu adoro a Vestigio!!!!

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    1. Helana, a Vestígio é demais e esse livro também. Concordo com o que vc disse..kkk.. Muito obrigado e volte sempre. Bjs.

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  3. oi!
    Eu adorei o livro :D o enredo é maravilhoso, com os personagens bem distintos, muitas reviravoltas, encontros e desencontros.

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    1. Joana, que bom que você também gostou. Entrou fácil para lista dos melhores do ano. Beijos e volte sempre.

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  4. Bem intrigante a história. Me deixou mega curioso pra ler. Adoro histórias com tramas densas e personagens fortes.

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    1. Eduardo, muito obrigado. Pode ir tranquilo que vai gostar. Abraços e volte sempre.

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  5. Olá!
    O livro é muito interessante. Historia que contam a vida de uma criança e como ela faz para sobreviver e muito difícil para mim, e como se eu estivesse na pele da personagem. Eu adorei bastante a resenha, a trama é bem envolvente e claro que deve ser lido de uma maneira cuidadosa.

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    1. Fabio, muito obrigado. Leia sim, pois vai gostar. É maravilhoso. Abraços e volte sempre.

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  6. Eu fixei na história já nos primeiros relatos da sua resenha. Imagino as artimanhas do autor em todas essas páginas. Anotei aqui porque tenho que conferir essa leitura.

    Tammy

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    1. Oi, Tammy. Muito obrigado. Leia, pois vai adorar. Luca é um escritor estupendo. Beijos e volte sempre.

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  7. A sua resenha aborda de forma mais detalhada sobre o livro, imagino que tenha se policiado um pouco para não ficar um leitura muito cansativa e tivesse uma maior atenção do leitor. Não ficou muito claro o que houve com Cetta no fato da mãe dela bater a cabeça dela, se era alguma cicatriz ou depois teve alguma dificuldade çinguistica ou motora.

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    1. Luma, se eu te contar o que aconteceu com Cetta, vira spoiler, então preferi deixar a sua curiosidade te vencer e vc ter que correr para ler essa preciosidade que Luca Di Fulvio nos presenteou. Muito obrigado, beijos e volte sempre.

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  8. Olá!

    Adorei a premissa do livro!
    Essa coisa de gangues rivais e história misturadas. Parece ser uma ótima experiencia!

    Grande beijo,
    https://almde50tons.wordpress.com/

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  9. Não consegui ler tudo por achar que a história é muito triste, por causa da mãe querendo proteger a filha de possíveis estupros. Uma coisa bem atual. E triste demais! Beijo

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