[RESENHA #691] PETE TOWNSHEND - A AUTOBIOGRAFIA


Sinopse: A banda The Who era uma das maiores promessas do rock inglês em 1967, quando Pete Townshend, seu guitarrista e principal compositor, decidiu pinçar uma entre as diversas cartas de fãs que recebia com um propósito insólito: aquela correspondência permaneceria fechada e só seria lida muitos anos depois, no momento em que ele fosse escrever a história de sua vida. A mensagem congelada no tempo, raciocinou Pete, poderia lhe dar uma perspectiva sobre sua carreira ao abrir o envelope no futuro, já na condição de consagrado ícone do rock. A presunção juvenil do roqueiro tornou-se fato 45 anos depois. Um dos destaques de Pete Townshend – a autobiografia é justamente o teor da carta mantida inviolada pelo músico por todo esse tempo, período no qual o The Who se transformou numa lenda do rock, em grande parte devido à prolífica mente criativa de Townshend, o idealizador das ambiciosas óperas-rock Tommy e Quadrophenia. O livro recapitula com detalhes toda a gestação de um grupo mítico, dos ensaios iniciais com o amigo de infância e baixista John Entwistle ao primeiro contato com o vocalista Roger Daltrey, dos shows na banda The Detours à admissão do incontrolável Keith Moon como baterista da formação clássica do The Who. Townshend também descreve seu processo criativo e não hesita em dar crédito aos músicos que mais o influenciaram, como os Beatles. O contato com outros artistas é uma constante: pela vida do autor desfilam colegas de trabalho (e nomes capitais da música) como Paul McCartney, George Harrison, Eric Clapton, Mick Jagger, Jimi Hendrix, David Bowie e Elton John, entre muitos outros.

Resenha: Coragem. É essa palavra que me vem na cabeça todas as vezes que leio uma autobiografia/biografia. Depois de anos de loucura, excessos, decisões equivocadas e coisas afins, além das coisas boas, claro, uma figura pública tem que ter muita coragem para se expor tão intimamente como o fez, por exemplo, Pete Townshend em sua autobiografia. Para quem conhece Pete de longe e no papel de fã, seja no The Who ou na carreira solo, como eu, por exemplo, jamais pensaria que uma figura tão importante para o rock mundial, teria a quantidade de problemas e inseguranças que ele teve e ainda, provavelmente, tem. Por isso, repito, tem que ter coragem.

Como toda a biografia, seu início remete a infância de Pete com seus pais também músicos e senhores de uma vida que mais tarde “assombraria” também a do próprio Pete. Seu pai era um músico famoso das big bands e que excursionava os Squadronaires e sua mãe era cantora, mas que mais tarde abandonou a carreira pela família.



A infância de Pete foi marcada por muitas coisas boas, porém foi nessa fase que ele foi vítima de um dos piores crimes que um ser humano pode cometer contra o outro: o abuso sexual. O resultado desse abuso seria o desencadeador de vários problemas que Pete viria a sofrer durante toda a sua vida, como por exemplo, sua insegurança, depressão, sua introspecção e sua raiva e desejo profundo de erradicar toda e qualquer forma de abuso infantil, o que traria, inclusive, um grande problema legal no futuro.

A vida em família, também não foi muito normal, pois seus pais tiveram seus problemas conjugais e até chegaram a serem vistos abertamente com seus respectivos amantes, fato também impactante na vida de Pete.

"Ela se acomodou com as pernas cruzadas, parecendo realmente régia, para não dizer magnificente. Quando comecei a balbuciar, ela apanhou algo de seu colo. Era uma carta. Soube na mesma hora quer era de Rosie. Em um instante, Karen havia derrotado o trunfo de minha confissão voluntária com seu próprio perdão." pág. 130.



Obviamente, que a autobiografia de uma dos mais importantes e criativos músicos do mundo e que foi um dos fundadores da banda “mais barulhenta” de todos os tempos, o The Who, era de se esperar que seu crescimento estivesse intimamente ligado ao conjunto. Mas, principalmente, para a surpresa do leitor, Pete descreve diversos sentimentos conflitantes na carreia do The Who. Não que ele não gostasse da banda e amasse todos seus companheiros, o que ele deixa muitíssimo claro, durante toda sua narrativa, mas o fã jamais espera certas verdades ditas por Pete quanto ao The Who e tudo o que ele representou para várias gerações que os seguiram e os seguem até hoje. É de se espantar.

Pete também aborda um aspecto que, muitas vezes, desperta certo desconforto em se falar abertamente, no caso, sua sexualidade. Porém, em determinada passagem e alude ao fato de poder ser bissexual, mas essa declaração acaba por não se solidificar, tendo em vista o vasto histórico de mulheres pelas quais Pete se apaixonou, até encontrar a “definitiva”, Rachel Fuller, com quem está desde 1997.



Pete também escancara todos os seus percalços como marido e pai, pois tendo se casado com Karen Astley em 1968, teve duas filhas e um filho, com quem deu a entender que são muito próximos. Townshend, não esconde que teve muitos problemas em ficar em casa com sua família em detrimento a sua carreira musical e muitas vezes aos seus vícios em drogas, onde acaba aceitando turnês para se entregar aos seus excessos.

"Eu estava um pouco perturbado com os ataques de ansiedade. Afora a terapia, eu não tinha nenhum outro apoio. Achei que frequentar os Alcoólicos Anônimos seria um tanto inapropriado para uma celebridade - como eu permaneceria anônimo?" pág.323.

Por outro lado, Pete também teve sua fase espiritual e demonstra toda sua dedicação, na medida do possível, ao líder espiritual Meher Baba, o qual aparece homenageado em seu disco Psychoderelict, por exemplo. Querendo ou não Pete Townshend sempre será lembrado como um dos artistas mais reverenciados de todos os tempos. Sua carreira com o The Who, viva até hoje, deixou marcas impossíveis de serem retiradas da história do rock. Townshend pode ser visto como um líder musical onde sua criatividade é demonstrada em tudo aquilo que apresenta, seja musicalmente ou não. Pete Townshend – A Autobiografia é sim direcionada para os fãs do The Who e da carreira solo dele, mas nada impede de quem jamais ouvir falar de ambos, conhecer a incrível jornada desse ser humano incrivelmente comum como a gente. IMPERDÍVEL.



A Globo Livros fez um trabalho muito bom em Pete Townshend: A Autobiografia, que vem no formato brochura com folhas amareladas, fonte agradável e como de costume nas biografias, com várias fotos bem bacanas, fora a capa e contracapa que ficaram muito legais, principalmente a sequência da destruição de uma guitarra.



Sobre o autor: Pete Townshend nasceu em 1945, em Londres. Seus pais foram integrantes da RAF Dance Orchestra (mais tarde The Squadronaires). Enquanto frequentava a Academia de Arte de Ealing, entrou para a banda The Detours, com Roger Daltrey, John Entwistle e Keith Moon, e em 1964 os quatro se tornaram The Who. Em cinquenta anos de atividade, Towhshend compôs mais de cem músicas para os onze álbuns de estúdio da banda e vendeu mais de 100 milhões de discos. Desde o término do The Who, segue carreira solo e, paralelamente, atua como escritor de ficção e consultor editoral. Criou e apoiou diversas instituições de caridade, principalmente de ajuda a dependentes químicos e vítimas de abuso sexual.

Ficha Técnica:
Título: Pete Townshend: A Autobiografia
Autor: Pete Townshend
Tradução: Cid Knipel Moreira
Editora: Globo Livros
Páginas: 488
Ano: 2013
ISBN: 9788525053565
Onde Comprar: Amazon

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8 Comentários

  1. Olá!

    Eu gosto bem da banda "The Who", mas não sabia da existência desse livro autobiográfico e fiquei bem surpreso com essa novidade. Eu adorei a sua resenha meu amigo, muito bem escrita.

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    1. Muito obrigado Arthur. Se gosta do The Who, então esse livro é obrigatório. kkkkk.. Abraços.

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  2. Gostei basicamente por dois motivos:
    1. Adoro livros biográficos.
    2. Adoro The Who.
    Sua resenha está fantástica.

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    1. Paula, muito obrigado pelas palavras. Espero que goste o tanto quanto eu gostei. Beijos e volte sempre.

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  3. Com certeza é preciso muita coragem para publicar uma autobiografia honesta, escancarando sua vida e explicando um pouco seu ponto de vista. Deve ser uma leitura interessante.
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

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    1. Mari, é muito interessante sim e ele teve muita coragem de se expor do jeito que se expôs. Muito obrigado pelas palavras. Beijos e volte sempre.

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  4. Olá! Não sou muito fã da banda, apenas conheço uma música ou outra. Ao contrário de muita gente que eu vejo falar, gosto muito de biografias. Acho que nos faz entender mais a pessoa famosa em questão. Doeu meu coração o fato dele passar por um abuso sexual. O livro parece estar lindo, as fotos me chamaram atenção. Parabéns pelo texto. Beijos
    https://almde50tons.wordpress.com/

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    1. Raíssa, muito obrigado pelas palavras. Beijos e volte sempre.

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