[RESENHA #704] DE QUANTA TERRA PRECISA UM HOMEM - LEV TOLSTÓI


Sinopse: Neste breve e envolvente conto, Lev Tolstói, um dos grandes nomes da literatura russa, traz o tema da ambição e do orgulho do homem. O personagem principal é Pahóm, o destemido camponês que, ao ouvir sua mulher conversando com a irmã sobre as vantagens e desvantagens de viver no campo, e não na cidade, chega à conclusão de que a solução para viver bem é possuir terras. Assim, testa o próprio diabo ao dizer: Tivéssemos o suficiente, nem mesmo o diabo eu temeria. O coisa-ruim lança então o desafio, e Pahóm vê a oportunidade de ganhar muitas terras. Mas, afinal, de quanta terra precisa um homem? Tolstói, que foi um especialista em criar enredos sóbrios e cheios de observações do comportamento humano, teceu este conto com um desfecho imperdível.

Resenha: Foi de uma conversa que ouviu de sua mulher com a irmã, que morava na cidade, que o camponês Pahóm selou seu destino sem nem mesmo perceber. Na conversa que ouvia, sua cunhada exemplificava as facilidades de se morar na cidade e, sem querer ficar para trás, sua mulher rebatia dizendo que morar no interior era muito melhor e tinha muitas vantagens.

Além de não serem escravos de suas posses, pois elas eram bem escassas, se tivessem um contratempo e perdessem tudo, esse tudo, na verdade, era muito pouco e não faria muita diferença. Já sua irmã que morava na cidade e tinha muitas posses, se perdesse tudo, faria sim uma enorme diferença.

"Eta, que barriga cheia! Entre porcos e bezerros! Não têm ordem nem trato! Por mais que seu marido se esforce, morrerão como sempre viveram - num monte de estrume! E seus filhos vão viver do mesmo jeito!" p. 10.


Pahóm, o dono da casa, deitado sobre o forno, escutava a conversa das mulheres e tinha que concordar com ambas, na verdade. Por um lado, trabalhava muito e não tinha tempo e nem espaço para pensar em bobagens e posses, por outro, a terra que tinham nunca era suficiente para aumentar o seu conforto e na cabeça de Pahóm, mais terra era segurança e também riqueza. 

Foi nessa hora que, mesmo sem querer, fez um desafio ao próprio diabo, que estava escondidinho atrás do forno escutando tudo. Pahóm, inocente em suas palavras falou em voz alta tudo o que o diabo estava esperando e como ele não perde um desafio, aceitou de bom grado e daria tudo o que Pahóm desejasse ou seja, terras e mais terras.

"Alegrara-se com o que a mulher do camponês levara o marido a dizer, vangloriando-se, que se tivesse terra o bastante nem o diabo o seduziria." p. 12.


Opinião: Já dizia um certo ditado que nos menores frascos se encontram os melhores perfumes, tomando por analogia essa premissa, mais uma vez, são em pequenos livros que encontramos, muitas vezes, as melhores mensagens ou as que nos fazem pensar, refletir e descobrir que estamos fazendo alguma coisa errada.

Tolstói nos apresenta em De Quanta Terra Precisa um Homem uma história de ganância principalmente, mas recheada de outros defeitos que o ser humano sempre diz que jamais se utilizaria. Porém, como em outro ditado popular, basta dar a corda para que o outro se enforque.

Dando o papel provocador ao próprio diabo, Tolstói, constrói e desconstrói toda uma índole de um personagem que estaria fadado a mesmice de uma vida miserável de posses, porém sustentável e justa de conceitos básicos para a sobrevivência como alimentação, por exemplo, levando-o ao cume da riqueza através de suas negociatas com terras.


Nesse ponto, Tolstói, demonstra que devidamente incentivado, qualquer pessoa pode subir de vida, conseguir aumentar suas posses e consequentemente, ter uma vida mais confortável. Porém, a grande questão de toda a história é saber onde fica a linha que determina que já é o bastante. 

A fragilidade e a insatisfação dos desejos humanos é bem reforçada com cada tentação que o diabo coloca na vida de Pahóm, testando assim suas palavras que o levaram a sair daquela miséria. O que poderia ser um porto seguro para muitas pessoas, acaba sendo apenas mais um degrau para o nosso personagem que não consegue enxergar sua inveja, ganância, orgulho e arrogância. 

A inversão de papeis também é demonstrada quando Pahóm passa de camponês miserável para dono de muitas terras e animais, atuando exatamente da mesma forma que seus antigos vizinhos, mais ricos que ele na época, agiam, explorando os que menos tinham em prol de si mesmo.


Mas a cada lote de terra que Pahóm adquire, surge outro maior e melhor, fazendo com que ele se desdobre para conseguir mais e mais. Até que tem uma oportunidade única de conseguir toda e qualquer terra que quiser com apenas uma condição para isso e é nesse momento que aquela frase dita lá no começo de sua jornada vai fazer sentido e ser cobrada de uma vez por todas.

De Quanta Terra Precisa um Homem é uma grande metáfora que pode ser usada em qualquer época e por qualquer pessoa. Todos nós temos nossas dificuldades e  sonhos e, geralmente, fazemos o melhor para conseguirmos alcançar cada um deles. Porém, Tolstói nos alerta que os sonhos são passíveis de realidade, mas cabe a cada um de nós entender e aceitar a hora de dizer "agora chega", pois o "tenho muito", muitas vezes é apenas uma enganação para o "não tenho nada".

De Quanta Terra Precisa um Homem, de Lev Tolstói, publicado pelo selo Via Leitura da editora Edipro é mais uma edição charmosa e muito bem feita. Sua capa traduz bem toda a história de Pahóm, além de muito bonita, vem com folhas amareladas e fonte bem agradável. A edição também conta com um posfácio espetacular de Denise Sales que esmiúça a obra e um pouco mais do próprio Tolstói. Simplesmente IMPERDÍVEL. 


Sobre o autor: Liev Nikoláievich Tolstói, mais conhecido em português como Leon, Leo, Lev ou Liev Tolstói, foi um escritor russo, amplamente reconhecido como um dos maiores de todos os tempos. Responsável por obras como A Morte de Ivan Ilitch, Anna Kariênina, Guerra e Paz, nasceu em 1828 na fazenda Yásnaia Poliana, localizada nas redondezas de Tula, ao sul de Moscou. Estudou nas faculdades de Línguas Orientais e de Direito da Universidade de Kazan, mas não chegou a se formar. Serviu ao exército onde participou da Guerra da Criméia, que relatou em Contos de Sabastopol. Foi indicado dezesseis vezes ao Prêmio Nobel de Literatura e quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz. Tolstói foi casado com Sofia Tolstói, com quem teve catorze filhos. Faleceu em 20 de novembro de 1910 com 82 anos.

Ficha Técnica:
Título: De Quanta Terra Precisa um Homem
Autor: Lev Tolstói
Tradução: Natália Petroff
Editora: Via Leitura [Edipro]
Páginas: 80
Ano: 2017
ISBN: 9788567097411
Onde Comprar: Amazon

Postar um comentário

5 Comentários

  1. Olá! Acho que você tem razão quando diz que nas pequenas coisas podemos encontrar feitos grandiosos! Quando comecei a ler a resenha fiquei meio na dúvida sobre o livro, mas depois percebi que é mesmo uma joia rara. Passa uma mensagem interessante, mesmo sem ainda conhecer o final!

    Gostei da resenha!
    Até!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vanessa, muito obrigado pelas palavras. Que bom que você gostou. Beijos e volte sempre.

      Excluir
  2. Olá,

    Ainda não li a obra, mas é uma das que está na minha lista de desejados. Ler sua resenha me deu a certeza de que preciso mesmo conhecer essa história, pois irei me fascinar por completo. Gosto do fato de abordar essa ganância humana, assim como a fragilidade e a insatisfação das pessoas. Amei o post, arrasou demais!

    Beijos!

    ResponderExcluir
  3. Alice, muito obrigado. Espero que goste muito desse conto. Vale muito o investimento. Beijos, muito obrigado novamente e volte sempre, tá?!

    ResponderExcluir
  4. Sempre quis ler Tolstói, estou pra ler Guerra e Paz a anos já! Acho que vou começar por esse pra conhecer a escrita do autor!

    ResponderExcluir