[RESENHA #713] MEMÓRIAS DA CASA DOS MORTOS - FIÓDOR DOSTOIÉVSKI


Sinopse: Em 1849 Fiódor Dostoiévski vivenciou uma catástrofe pessoal: detido por motivos políticos, foi condenado a trabalhos forçados e perdeu seus direitos civis. Ficou recluso na chamada Casa dos mortos, presídio siberiano onde eram mantidos os criminosos mais temíveis da Rússia, e lá conheceu a degradação humana em todas as suas nuanças horripilantes. Em 1860, quando ia retomar a carreira literária ao término de sua pena, essas trágicas experiências inspiraram-lhe uma verdadeira obra-prima: ''Memórias da Casa dos mortos''. Estabelecendo neste livro um sutil paralelo entre a sua história íntima e a de tantas outras vítimas da cadeia russa, Dostoiévski inaugurou uma longa e caudalosa corrente de "memórias do cárcere" cujos representantes até hoje são direta ou indiretamente influenciados por ele.

Resenha: Numa visita a uma cidadezinha na Sibéria, na casa de um amigo servidor, Ivan Ivânytch Gvózdikov, nosso personagem encontra pela primeira vez Alexandr Petróvitch Goriántchikov, que trabalhava como professor das filhas de Ivan. De certa forma intrigado com aquele professor ermitão, descobriu que havia ficado dez anos em uma prisão siberiana por ter assassinado sua mulher.

Surpreso, questionou Ivan se este não tinha restrições do preceptor de suas filhas, que as atendia quatro vezes na semana. Também descobriu que Aleksandr, fora um fidalgo e proprietário rural antes de cometer o crime que o levara a prisão siberiana e que hoje, tinha uma vida moralmente irretocável, apesar de ser arredio, viver sozinho e ser extremamente difícil de entabular uma conversa corriqueira com ele, pois apesar de educador, era um homem de pouquíssimas palavras.

“Na verdade, ele tinha sido registrado numa vólost suburbana, mas residia na cidade onde conseguia arranjar, pelo menos, algum sustento ensinando a crianças. É frequente os degredados serem preceptores naquelas cidades siberianas: não os desprezam.” Pág.20.


Quebrando as regras da etiqueta da época, nosso interlocutor resolve fazer uma visita inesperada na casa de Alexandr, o qual o recebe de maneira fria e irritadiça. Sem muito conseguir de Goriántchikov, depois de um doloroso tempo quase sem falas, nosso interlocutor, se vai sabendo que o que fez foi muito indelicado e por certo tempo se esquece de Alexandr Petróvith Goriántchikov, quando parte daquela cidadezinha da Sibéria.

Tempos depois, quando retorna a casa de seu amigo Ivan, descobre que Alexandr faleceu, deixando este mundo tão silenciosamente quanto possível. Mais uma vez intrigado com aquele ser humano “diferente”, faz nova visita ao endereço do falecido e lá descobre cadernos que mais pareciam diários ou melhor, memórias da época em que ficou preso, perdeu seus direitos e se apagou da sociedade. Ali naqueles cadernos, nosso interlocutor, iria conhecer toda a história de Alexandr Petróvitch Goriántchikov, que por dez longos anos de sua vida foi apenas um dos mortos das prisões da Sibéria.

“Assim que adentramos a cerca, vemos lá dentro alguns prédios. De ambos os lados do largo pátio inferior alinham-se duas compridas construções de madeira, de um só andar cada uma. São as casernas. Ali moram os detentos repartidos em classes.” Pág.24.


Opinião: A cada livro lido, minha certeza se confirma mais e mais: Dostoiévski realmente é meu escritor favorito de todos os tempos. Claro, isso é uma opinião muito pessoal e, obviamente, existem vários porquês dessa preferência e quem me acompanha aqui no blog ou no instagram e tem o mínimo de conhecimento desse grande escritor já sabe quais são. Porém, sempre tem aquele que não conhece, tem vontade ou está chegando agora e, claro, é sempre bom explanar todas ou quase todas, as qualidades de cada livro apresentado aqui no Saga Literária. 

Para quem não sabe, Fiódor Dostoiévski perdeu todos seus direitos de cidadão quando foi preso pela acusação de tramar contra o czar Nicolau I. Chegou a ficar na fila do fuzilamento, mas sua pena acabou sendo comutada para trabalhos forçados na Sibéria e foi daí que conseguiu ter todas as informações necessárias para escrever Memórias da Casa dos Mortos. Portanto, pode-se dizer que o livro é praticamente uma autobiografia "romantizada" focada no tempo em que ficou confinado em Tobolsk e depois em Omsk, onde cumpriu quatro anos desses trabalhos forçados.


Algumas passagens do livro aconteceram realmente e uma das mais marcantes é quando Aleksandr [Dostoiévski] se envolve em um protesto pela má qualidade da comida na prisão, sendo rejeitado pelos próprios presos por sua condição de fidalgo, que tinha como comprar sua própria comida, sem ter, assim, qualquer razão de fazer parte daquele protesto.

Desde o começo de Memórias da Casa dos Mortos ficou claro que existe uma grande divisão de classes sociais mesmo dentro da prisão. Muitas vezes, mesmo que o criminoso fosse um dos mais perigosos, a classe social do preso sempre, ou melhor dizendo, na grande maioria das vezes era respeitada. 

A vida de uma prisão de trabalhos forçados é extremamente brutal, mas Dostoiévski consegue nos apresentar uma visão um pouco mais branda pelos relacionamentos de seu alter ego, Aleksandr, que mesmo sendo um tanto "solitário", consegue fazer algumas amizades dentro da cadeia.


O peso psicológico dos personagens apresentados são realmente muito bem trabalhados pelo escritor, que não deixa de explorá-los a todo momento, trazendo ao leitor uma experiência mais imersiva, fazendo parecer que realmente estamos lá, todos juntos, trabalhando, cantando, brigando e até tentando matar uns aos outros.

A morte, sempre presente nas histórias do autor, dessa vez é abordada nas "histórias de culpa" dos presos e até mesmo na de Aleksandr, que foi parar na Sibéria pelo assassinato de sua esposa. Mesmo assim, nada impede que o ódio por outros presos, por causa de suas macabras "mea culpa", aflore em Aleksandr e o distancie ainda mais de seus "companheiros".

Assim como a morte, a religião é outro ponto sempre presente na literatura de Dostoiévski e em Memórias da Casa dos Mortos ela é bem aproveitada conforme a vida dos detentos é narrada e os acontecimentos forçam os mais tementes o seu lado mais espiritual, sem ser piegas ou cansativo. Aliás, uma das coisas que me chamou a atenção nesse belo romance, foi que Memórias da Casa dos Mortos daria uma excelente minissérie, tão rica a gama de histórias dentro da história que Dostoiévski, magistralmente, nos apresenta, é realmente brilhante.


A edição de Memórias da Casa dos Mortes que a editora Martin Claret nos presenteia é outro brilho que se acrescenta na biografia do autor, lançada pela editora. Como a grande maioria dos leitores sabem, a Martin Claret apresentou um novo projeto gráfico das obras de Dostoiévski e os vem lançando em um formato que se pode até chamar de coleção, pois os livros são do mesmo padrão editorial com capa dura, títulos no mesmo design de fontes, papel amarelado e fontes internas agradáveis e que seguem a cor escolhida para a edição, nesse caso, azul.

Não tem como não dizer que, atrelado a uma história muito bacana, cinematográfica até, uma edição espetacular, tendo em vista o grande e perfeito trabalho que a editora Martin Claret vem apresentando em suas edições e meu grande carinho por esse gigantesco escritor, Memórias da Casa dos Mortos é inegavelmente I-M-P-E-R-D-Í-V-E-L.


Sobre o autor: Fiódor Dostoiévski (1821-1881) foi escritor, jornalista e filósofo. Nascido na Rússia, é considerado um dos pais do existencialismo – em virtude de seus romances que retratam de forma ­ filosófica as patologias psicológicas. Após a morte da esposa e do irmão, viu-se afundado em dívidas, tendo de sustentar a família do irmão, o enteado e um segundo irmão alcoólatra. Para fugir à pressão dos credores, acabou se refugiando em diversas cidades da Europa com sua segunda esposa, sem nunca interromper sua produção literária. A necessidade de dinheiro o forçava a concluir rapidamente seus livros e lhe creditou a frase “a pobreza e a miséria formam o artista”. Dentre suas maiores obras estão Crime e castigo, O idiot­a e Os irmãos Karamazov.

Ficha Técnica:
Título: Memórias da Casa dos Mortos
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução: Oleg Almeida
Editora: Martin Claret
Páginas: 336
Ano: 2019
ISBN: 9788544002247
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