[RESENHA # 719] DO OUTRO LADO DA LINHA ALGUÉM - CONTOS - FELIPE FARIAS


Sinopse: A ansiedade e a apreensão de uma coação por telefone, mas, com um desfecho surpreendente. E as reações - também inesperadas - que podem provocar o convite para uma entrevista na televisão. Como primeiro trabalho, o autor reúne diferentes textos de sua prosa, meio que para se apresentar ao leitor. Do policial, ou suspense, que soa obrigatório a muitos que se dedicam à ficção, seja pelo cativar de seu ritmo, por sua construção ou até como exercício, a reflexões sobre tempo, filhos, perenidade e transitoriedade, o autor se mostra ao leitor, quase como um portfólio, em textos que descrevem, às vezes, apenas uma cena, que não passam de uma reflexão. Mas, sem perder a ideia de que do outro lado da linha há - sempre - alguém.

Resenha/opinião: Ser escritor no Brasil não lá muito fácil, alias é uma luta ferrenha para se conseguir publicar e viver somente da arte de contar histórias. E é por isso mesmo que quando me deparo com algo que não me agrada, principalmente literatura do nosso quintal, isso me deixa muito triste e irritado também. 

Muitas vezes, me pergunto, será que esse escritor teve um feedback verdadeiro de seus "beta readers"? Será que a revisão foi feita por um profissional competente? E, entre muitas outras perguntas que poderiam ser feitas, a principal seria, o criador ficou realmente satisfeito com o resultado final a ponto de estar certo de convencer seus leitores?


Dizer que os contos apresentados em Do Outro Lado da Linha Alguém são ruins, seria uma meia-verdade, pois as ideias são excelentes, mas a execução deixou a desejar em alguns pontos primordiais para que uma literatura seja agradável, fluída e aconchegante. Sim, não importa que tipo de literatura você goste e leia, ela tem que ser sim, aconchegante. Tem que te dar vontade de continuar, de se identificar, odiar ou simpatizar com as personagens, pois se não existe essa conexão com o leitor, a história falha miseravelmente.

Felipe Farias nos apresenta uma boa gama de contos que variam do policial ao drama familiar, passando pelo suspense e também um pouco de ficção científica. Porém o grande problema de suas histórias são justamente os pontos que mencionei logo acima, pois todos eles me deram a impressão de estar lendo uma coluna em um jornal onde existe um narrador, seus personagens, suas histórias e seu português corretíssimo. Mas, tudo frio, nada morno nem quente, aliás nem perto disso e sim bem frio mesmo.

"Para isso, afinal, que Fídeas era seu pai. Mesmo que, talvez, não fosse para isso que Felipe fosse seu filho. Mas certamente, era para isso que ele era seu pai. Não por obrigação. Mas, apenas e tão-somente, pura e simplesmente, porque era seu pai." Conto Um Filho e Outro - pág. 96. 

Infelizmente, a maioria dos contos de Felipe Farias são apresentados de uma forma tão linear e excessivamente descritivos, que acabam se tornando um pouco enfadonhos. Fossem menos descritivos, filosofados e em uma linguagem "menos correta" e mais popular, talvez fossem mais interessantes e eu não teria que, com dor no coração, fazer uma resenha negativa de um escritor da casa.

Um dos grandes equívocos que sempre percebi em muitos escritores nacionais é a mania de se utilizar do português culto. Isso pode parecer uma heresia para alguns e, provavelmente, vai parecer isso mesmo para o escritor, mas não dá para engolir todos os personagens apresentados falando "difícil" e mostrando que são pessoas cultas e excepcionalmente muito bem "letradas". Não adianta ser terceira pessoa culta de uma personagem que trabalha como ambulante/traficante e informante da polícia e que claramente não teve o estudo suficiente para a narrativa tão correta que é descrita ao seu respeito. Isso não se encaixa.


Esse foi um dos grandes e irritantes problemas que encontrei em Do Outro Lado da Linha Alguém de Felipe Farias. Claro que como primeiro livro, muito provavelmente, erros seriam apresentados, mas isso não quer dizer que o escritor é ruim, de forma alguma; Felipe Farias sabe escrever sim, mas precisa se desvencilhar de sua formação jornalística na hora em que está trabalhando em literatura e ser mais natural e popular com suas personagens, pois é possível ser culto e popular ao mesmo tempo. Rubem Fonseca que o diga.

"Porém, antes de remeter, se atinou para a hora, era bem tarde. Não sabia como estava configurado o sinal sonoro que informava a chegada de mensagens. Portanto, achou melhor fazê-lo no dia seguinte." Conto Para evitar que você se envolva - pág. 130. 

Outra coisa que me incomodou na grande maioria dos contos foi o tempo de ação que demorava muito para se revelar na narrativa longa e em algumas vezes só acontecia perto do final, trazendo um certo anticlímax nas sensações negativas explanadas acima, isso piorava mais ainda quando, depois de tanta explanação, o final deixava a desejar.

Resumidamente, Felipe Farias é um escritor que está em seu primeiro livro e ainda precisa aprender a "conversar" com o leitor e não apenas dissertar para ele, pois se isso não mudar, será como ele mesmo diz, toda sua escrita será apenas para preencher uma folha em branco.


Sobre o autor: Felipe Farias, 51 anos, é jornalista há trinta. Porém, há bem mais bem - "como se diz na minha terra, desde que me entendo por gente" - escreve, ou , como prefere, põe ideias em folhas de papel em brando. Aliás, o verbo aí faz a memória remeter a um dos autores da infância, Edgar Allan Poe, a quem a reunião de contos apaixonou pelo tom sombrio e pelo envolvimento que propiciava. Do também alagoano Graciliano Ramos, ficou a referência pela prosa direta, "sem proseado". Mas, foi a máquina de escrever portátil dada pelo pai o que atribuiu como mais que uma motivação, uma designação, para esse ofício. De instrumento de trabalho, de quando atuou como correspondente, num tempo em que não havia notebooks, a máquina - que ainda usa - tornou-se um elemento na simbiose de criar uma estória. "Acho que escrevo mais para preencher uma folha do que por ter realmente boas coisas para dizer", brinca. 

Ficha Técnica:
Título: Do outro lado da linha alguém - contos
Autor: Felipe Farias
Editora: Chiado
Páginas: 178
Ano: 2019
ISBN: 9789895257386
Onde Comprar: Chiado Books

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