[RESENHA #728] MEU PEQUENO PAÍS - GAËL FAYE


Sinopse: Burundi, 1992. Gabriel, 10 anos, mora com o pai francês, um empresário, a mãe ruandesa e a irmã caçula, Ana, em um bairro nobre de Bujumbura, onde a maior parte dos moradores são membros de uma comunidade de estrangeiros. Gabriel passa a maior parte do tempo com os amigos e companheiros de aventuras, uma alegre brigada que se ocupa do roubo de mangas dos vizinhos e organiza um comércio clandestino de cigarros Supermatch. Mas essa existência despreocupada é prematura e brutalmente interrompida pela História. Primeiro, Gabriel assiste, impotente, à separação de seus pais; depois, ao início da guerra civil, seguida pela tragédia do genocídio ruandês. Gabriel, que sempre se via apenas como uma criança qualquer, começa a se descobrir mestiço, tútsi, francês. Com uma leveza e uma elegância raras, Gaël Faye consegue evocar os tormentos e as inquietações de um menino preso no mecanismo inexorável da História, tentando lidar com eventos que o obrigam a amadurecer mais cedo do que o previsto. São sensações que o autor conhece pessoalmente, o que torna este primeiro romance — repleto de momentos trágicos e de humor, de luzes e sombras — ainda mais excepcional 

Resenha: Lançado durante a Flip de 2019, Meu pequeno país foi escrito pelo autor e rapper Gaël Faye. Natural de Burundi, Gaye no ano de 1995 emigrou para a França por causa dos conflitos entre os Hutus e Tutsis que ocorria em Ruanda, país vizinho ao seu e estava chegando ao seu país de origem. Faye nos apresenta a história de Gabriel, um garoto tranquilo de aproximadamente 10 anos que nasceu em uma família de boas condições financeiras e vive no Burundi do início da década de 90. Filho de um pai francês com mãe ruandesa, Gabriel não tem maiores preocupações em sua vida, pois a sua rotina é divida entre estudos, amigos e sua irmã mais nova. A única coisa que suscita um pouco de dúvida em sua mente é justamente a sua identidade, Burundi é a sua casa, mas a sua mãe fala muito sobre Ruanda e seu pai é de uma terra distante, França.

Gabriel aproveita o seu tempo livre para passar os dias brincando com seus amigos, furtando mangas na casa de uma vizinha e brigando com garotos de outras gangues, pois em sua infância existia gangues de garotos que brigavam por territórios. Contudo, o que o garoto não sabia era que seus dias de certa tranquilidade estavam contados, pois o seu país estava fervendo, estava entrando em ebulição devido aos conflitos étnicos que colocava de um lado os hutus e do outro lado os tutsis. Mas Gabriel não gostava de política, não entendia bulhufas sobre política e demonstrava inocência diante das coisas que estavam acontecendo em sua terra.

Com o avançar da guerra, Gabriel precisa lidar com algumas mudanças como a separação de seus pais e sua mãe que abandona a casa. Com o passar do tempo ele enfrenta o preconceito de amigos e colegas, mas também começa a perceber que em meio aos conflitos diversas vidas vão se esvaindo pelas mãos, pois a guerra civil estoura em Burundi e para piorar a situação há um clima de incerteza no ar, ele não sabe o que esperar do dia seguinte, ele não sabe o que pode acontecer em sua vida e na vida daqueles que o cerca.

"A guerra, sem que se peça, sempre se encarrega de nos encontrar um inimigo. Eu, que desejava permanecer neutro, não pude. Tinha nascido com essa história. Ela corria em mim. Eu pertencia a ela."


Opinião: Em Meu pequeno país, Faye constrói um relato tocante e impactante, a narrativa é envolvente e ao mesmo tempo dura, mas o romance começa de forma leve, por isso tudo é construído e apresentado de forma gradativa. É interessante como o autor aborda a questão e dúvida sobre a identidade de Gabriel que é meio francês e meio ruandês, mas nascido e identificado até certo ponto com Burundi. Outro aspecto relevante é a questão e os conflitos motivados pelas diferentes etnias no país, o que caracteriza a intolerância e preconceito com o próximo, mas isso tem em certa medida como origem a colonização que o branco realizou na África e dividiu o continente e regiões da forma como bem entendia, sem respeitar qualquer histórico cultural e étnico, pois dessa forma acabou juntando povos inimigos ou que criaram inimizades em um mesmo território.

Em um primeiro momento o livro pode nos remeter a um resgate de um diário, ao resgate das memórias de uma vida passada, o que de certa forma está correto. Contudo, é um resgate de memórias que jamais serão revividas, de uma país lembrado e que não existe mais por sofrer mudanças profundas. Por outro lado, apesar desse resgate, a narrativa não se apoia nessas memórias, pois a história tem a capacidade de andar sozinha, de avançar e amadurecer.


Muitos reclamam do nosso país, mas acredito que pouquíssimas pessoas que estão lendo essa resenha nesse momento vivenciaram uma guerra ou viram de perto algo próximo de um conflito étnico, pois é isso o que ocorre na história apresentada por Faye quando Gabriel, um narrador de 10 anos, nos leva para uma guerra civil que assolou e dizimou famílias na Ruanda e em Burundi, durante o início de 1992.

Meu pequeno país é um livro que fascina, é um livro que demonstra a dureza do ser humano, mostra o quanto podemos ser preconceituosos, intolerantes e como esses comportamentos podem nos levar para um viés violento. Entretanto, é um livro que também fala sobre resignação, saudade, amizade, empatia e família. Eu digo com tranquilidade que Meu pequeno país é um livro imensamente tocante. Esse livro é marcante e merece a sua atenção!


Sobre o autor: Gaël Faye nasceu em 1982, em Burundi, de pai francês e mãe ruandesa. Em 1995, após a deflagração da guerra civil e o genocídio em Ruanda, mudou-se para a França com a irmã caçula, para morar no apartamento da mãe, perto de Paris. É compositor e cantor de rap. Em 2010, lançou um álbum junto com a banda hip-hop francesa Milk Coffee & Sugar, seguido, em 2013, pelo primeiro álbum solo, Pili Pili sur un Croissant au Beurre. Sua música é um híbrido de rap, soul e jazz, e também se nutre das influências de vários gêneros musicais africanos, como a semba angolana e a rumba congolesa, entre outros. Meu pequeno país, seu primeiro romance, tornou-se best-seller na França, onde ganhou vários prêmios literários, inclusive o prestigioso Prix Goncourt des Lycéens, e foi traduzido para mais de trinta idiomas

Ficha técnica:
Título: Meu pequeno país
Autor: Gaël Faye
Tradução: Maria de Fátima Oliva do Coutto
Editora: Rádio Londres
Páginas: 190
Ano: 2019
ISBN: 9788567861272

Onde Comprar: Amazon

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25 Comentários

  1. Olá, tudo bem? Não conhecia esse livro ainda e, para ser sincera, não é uma leitura que eu faria, ao menos não no momento. De qualquer forma, adorei a resenha e a dica!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  2. Histórias que envolvem crianças e guerra são sempre muito tristes, pois falam sobre a rudeza da vida e a perda forçada da inocência, acho tocante. O livro parece ótimo, uma leitura importante e necessária.

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  3. oi!
    O livro é otimo e apesar da guerra o Gaël Faye traz uma leveza ... è um liro encantador, sarcástico e dolorido..

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  4. Olá

    Vou começar a assinar a caixinha da Rádio Londres só por causa dos títulos maravilhosos que eles lançam e acho que são meu perfil, porque muitos são históricos, dramas filosóficos e profundos.

    Beijos

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  5. Gostei demais da dica. Não conhecia o livro, mas enredos assim geralmente conseguem me envolver. Ver a violência física e moral de uma guerra ou conflito tendo como personagem uma criança é ainda mais cruel. Dica anotada.

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  6. Oi Yvens!

    Eu não conhecia o livro, mas a trama parece ser interessante e bastante triste, nunca é fácil se pensar em crianças num contexto onde há uma guerra acontecendo. Seu último parágrafo realmente mexeu muito comigo e foi decisivo para adicionar a obra na minha wishlist porque realmente há uma dureza, preconceitos e insensibilidade dentro do ser humano que por vezes me assustam.

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  7. Não sou muito fã de livros de guerra, mas esse livro parece ser bem interessante, levo como indicação!

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  8. Olá
    Não conhecia o livro mas achei super interessante a história de Gabriel e como ele fez para lidar c duas culturas diferentes em casa. No nosso dia a dia a gente tem q lidar c o diferente mesmo não querendo e parece q esse desenrolar da vida de Gabriel não foi só em família vou TB na Guerra Civil e isso me faz lembrar q as vezes TB estamos numa guerra entre nós mesmo e não sabemos resolver ou melhor encarar cada situação. Adorei a resenha . Perfeita e me deu curiosidade de ler o o livro .. bjs e sucesso

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  9. Oi obrigado por me apresentar o Livro e o autor. A história parece pela sua resenha ser sensacional

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  10. Que leitura interessante, é importante conhecemos a visão de realidades tão diferentes, sua resenha está ótimo, me deixou com vontade de ler o livro.

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  11. Gaël Faye é um representante de muitos refugiados causas pela violência.A violência que devastou os estados da África Central do Burundi e Ruanda nos anos 90 matou mais de um milhão de pessoas.

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  12. Achei interessante o livro. Não sabia que o autor era tão novo assim...
    Infelizmente não ando muito na vibe de histórias do tipo, mas vou salvar aqui para o futuro
    Beijos
    Balaio de Babados
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  13. Olá...
    Adorei sua resenha!
    Fiquei com muita vontade de ler esse livro, os fatores que compõe o enredo parece tornar a leitura sublime... Gostei bastante de seus comentários!
    Dica anotada!
    Bjo

    http://coisasdediane.blogspot.com/

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  14. Olá!
    Comprei esse livro recentemente e pretendo lê-lo ainda esse ano.
    De alguns anos para cá tenho feito uma "viagem literária" por diversos lugares do mundo, e me surpreendido com tantas histórias boas, relatos completamente desconhecido por nós, que vivemos na rota EUA/Inglaterra e desconhecemos tanta gente boa que anda despontando por aí.
    Eu vi algumas entrevistas com o Gael quando esteve na FLIP e "Meu pequeno país" é um resgate do que se perdeu na história do mundo, mas não na história de nossas vidas.
    Depois que conseguir ler, volto aqui para te contar o que achei...
    Abraço,

    http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com/2020/01/e-2020-chegou.html

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  15. Esse tipo de história apesar de triste nos prende de uma forma... Amei a resenha e vou procurar o livro para ler.

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  16. Oii!! Tudo bem?

    Então, não conheço o autor mais achei a problemática dentro desse contexto muito interessante. Confesso que me senti muito motivada a entrar nessa leitura pelos assuntos abordados pelo autor e por trazer a realidade de sujeitos em determinados países.

    Muito obrigada pela indicação está mais do que anotada.

    beijos!

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  17. Realmente me pareceu um livro tocante, que nos faz refletir sobre a questão da etnia, preconceito, intolerância, a partir de um relato profundo e tocante de uma guerra que vai para separar as pessoas. Eu ainda não conhecia essa obra, mais preciso dizer que me interessei bastante pela leitura.

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  18. OI!
    O livro me parece ser muito emocionante e dramático, ainda não conhecia mas já gostei. Como você comentou que começa de uma maneira leve e gradativamente vi acontecendo os fatos, isso me empolga em uma leitura pois não sabemos o que poderá acontecer. Me pareceu um pouco triste a história de uma criança de dez anos passar por certas discriminações. Já coloquei na minha lista de leituras, obrigado pela dica, parabéns pela resenha.

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  19. Olá!

    Lendo sua resenha posso classificar esse livro como necessário. Adorei o enredo, mesmo sendo algo tão triste, tão desolador. Escrever sobre isso deve ter exigido coragem. Adorei conhecer a sua opinião, esse livro e um pouquinho do autor, estou considerando muito a leitura. Obrigada pela dica.

    Beijos

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  20. Olá, tudo bom?
    Eu confesso que não sei praticamente nada sobre a guerra civil que dizimou diversas famílias em Ruanda e Burundi e por aí o livro já chama muito minha atenção. Obras que trazem relatos e informações como essa, além de uma vasta abordagem sobre os conflitos étnicos são mais que necessárias. Dica anotada!
    Beijos!

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  21. Não conhecia a obra, mas gostei de sua premissa que me deixou bem curioso para saber da história na íntegra. Espero estar realizando essa leitura futuramente pois estou bem interessado.

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  22. Olá!!!
    Eu literalmente fiquei me lembrando de como as pessoas esquecem que todos somos humanos e que esses períodos não era para voltar, mas a situação é que esquecemos de tudo.
    Falar de etnia é um assunto sempre importante para tirarmos nossos preconceitos e tratar o outro como igual pois é isso: todos nós somos iguais independente da nossa raça, credo ou qualquer outra coisa.
    Ver tudo através de uma perspectiva de criança é simplesmente de certa forma inocente mais forte.

    lereliterario.blogspot.com

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  23. Oii, tudo bem?
    Eu nunca tinha visto o livro antes, mas é como você disse, nós reclamamos da vida que levamos mas nunca vimos o horror de uma guerra. Eu tenho certeza que esse livro é impactante e brutalmente verdadeiro, espero ansiosa por um dia ter a oportunidade de o ler e apreciar a obra da melhor forma possivel.

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  24. Não conhecia esse livro. Não é um livro que leio sempre, mas estou me testando a sair da minha zona de conforto e conhecer novas histórias. Vou deixar o nome do livro salvo para uma possível leitura.

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  25. Ainda não tinha ouvido falar do livro e gostei da descrição que você fez, principalmente sobre a parte deste resgate de memórias. Fiquei empolgada com os elogios que você fez e já quero ler.
    Beijos

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