[RESENHA #731] BATTLE ROYALE - KOUSHUN TAKAMI


Sinopse: Em 1997, o jornalista e escritor japonês Koushun Takami sofreu uma grande decepção. O manuscrito de seu romance de estreia havia chegado à final do Japan Grand Prix Horror Novel, concurso literário voltado para a ficção de terror, mas acabou preterido. Não era para menos. Embora habituado a tramas assustadoras, o júri se alarmou com a história do jogo macabro entre adolescentes de uma mesma turma escolar que, confinados numa ilha, têm de matar uns aos outros até que reste apenas um sobrevivente. Detalhe: o organizador da sangrenta disputa é o próprio Estado japonês, imaginado pelo autor como uma totalitária República da Grande Ásia Oriental.O livro, intitulado "Battle Royale", só seria lançado em 1999, espalhando um rastro de polêmica – vendeu mais de 1 milhão de exemplares e foi comentado no Japão inteiro. A repercussão foi tão intensa que apenas um ano depois já eram lançadas as adaptações da história para o cinema e para os mangás – mais tarde, viriam sequências tanto na tela grande como nos quadrinhos.

Resenha: De uma forma um tanto irônica, acredito que muitas pessoas tenham chegado ao livro de Koushun Takami depois do sucesso de Jogos Vorazes de Suzanne Collins e eu não fui exceção a essa [quase] regra. Depois de ter assistido ao primeiro filme baseado na trilogia de Collins, não resisti e li toda a história de Katniss Everdeen e posso dizer que gostei muito dessa ótima distopia. Ao saber de toda a polêmica entre as duas obras, minha curiosidade ficou ainda maior e acabei conseguindo um exemplar de Battle Royale, mas somente quase um ano depois é que consegui tempo para ler essa distopia que divide opiniões.

Sem fazer qualquer comparação, na história de Takami, acompanhamos de início os 42 estudantes, que naquele fatídico dia, pensavam estar participando em uma outra excursão da escola para preparar mais trabalhos e lições para melhora de suas notas. Nada que já não tivessem feito anteriormente. Uns, como de costume, estavam animados, outros nem tanto e muitos gostavam mesmo era da mudança de rotina, mesmo que temporariamente, naquele país que era tão rígido para com seus compatriotas.


O clima no ônibus que levava toda a turma era de uma total descontração e até um pouco de algazarra, o que era perfeitamente normal, em se tratando de adolescentes no auge da puberdade. Foi quando as coisas começaram a ficar calma demais que um dos estudantes percebeu que havia alguma coisa errada.

"Shogo Kawada se levantara e tentava abrir a janela. Porém, por estar enferrujada ou com o trinco quebrado, ela aparentemente não se movia. Então, Shogo socou a janela com o punho esquerdo fechado." 

Shogo, mais do que ninguém sabia que viver na República da Grande Asia Oriental, não era uma coisa muito fácil, pois em um governo totalitário, tudo e todos eram vigiados, existiam numerosas regras e ir contra o governo de qualquer modo era punido com a morte imediata. Ele sabia, apesar de ser muito jovem, que o Estado era truculento e impiedoso, mas jamais pensou que naquele passeio, sua vida estaria em jogo, junto com seus parceiros de classe, pois 41 deles não poderiam mais voltar para casa por terem sido escolhidos para ser a classe do ano no chamado "O Programa".

Opinião: Mundos distópicos sempre vão parecer, no mínimo, interessantes de se conhecer, principalmente pelas mudanças ambientais apresentadas que muitas vezes são drásticas e violentas. Em Battle Royale não é diferente, pois um governo fascista tomou conta de tudo e de todos e quem não acatasse qualquer ordem era tido como inimigo do estado e punido com morte imediata. Isso fica muito claro em todos os momentos do livro de Takami.


A República da Grande Ásia Oriente havia sido construída para deter o nefasto avanço da influência norte-americana que "atacava" o povo da Ásia, por esse motivo, as fronteiras foram fechadas e foi criada a RGAO, onde as regras impostas deveriam ser seguidas para a segurança e bem-estar do próprio povo asiático.

Foi nesse ambiente que a RGAO criou O Programa, um jogo de sobrevivência onde uma classe formada por adolescentes é escolhida todos os anos e levada para uma ilha. Lá cada aluno recebe um "Kit de Sobrevivência" e deve lutar por sua vida, até que reste apenas um.

Cruel ou não, é nesse ponto em que o livro de Takami fica interessante e muito, pois a gama de personagens é bem grande e Koushun apresenta um pouco da história de cada um deles durante toda a trama e tenho certeza que o leitor vai ter seus sentimentos aflorados em diversos momentos, pois estamos falando de um livro de sobrevivência, então muitas mortes vão ocorrer.


Aliás, além de toda a tensão, aventura e suspense, o suprassumo de toda a trama são as mortes. Algumas são ricamente detalhadas em sua brutalidade demonstrando tamanha realidade que em muitas outras obras não direcionadas ao tema deixam de fora, mas em Battle Royale isso não acontece. A violência é explicitamente brutal e muitas vezes escatológica, o que deixa tudo muito mais interessante.

"Antes mesmo que pudessem entender o significado de suas palavras, Tahara apontou a arma um pouco para baixo e apertou o gatilho. A cabeça de Yoshitoki saltou uma vez e algo espirrou dela, salpicando o rosto de Noriko." 

Takami não economiza nas críticas sociais, políticas e econômicas que estão espalhadas por toda a trama e demonstra o quão prejudicial pode ser esse tipo de governo e sua intervenção na vida da pessoa comum. A hipocrisia é mostrada também de forma bem explícita, pois em um regime totalitário e imparcial não poderia haver um único cidadão com vantagens sobre outro, mas obviamente, não é bem assim que são as coisas.

Mesmo tendo um núcleo de personagens principais, Shogo, Shyia e Noriko, o autor nos leva a uma grande viagem demonstrando a personalidade, os medos, desejos e, claro, a morte da grande maioria dos 42 estudantes da trama. É nesse ponto que Battle Royale difere das distopias semelhantes que vieram após sua publicação, o autor faz, mesmo que brevemente, com que o leitor se aproxime de cada personagem, pois muitos deles se assemelham a qualquer um de nós, com suas inseguranças, medos e atitudes frente ao grande desafio de ter que matar para sobreviver em um jogo doentio.


A escrita de Takami é bastante fluída e aconchegante, o que faz com que a trama com suas mais de 600 páginas pareça não ser suficiente quando chegamos no seu final e isso não é qualquer escritor que consegue, pois ele soube mesclar bem as cenas de drama com as de batalha, as de calmaria e terror absoluto. Muitas vezes você vai se pegar cerrando os dentes enquanto é levado em determinadas cenas de ação que são muitas, muitas mesmo.

Battle Royale tem a função de divertir e nesse quesito ele supre essa necessidade com louvor e tenho certeza que se você gosta desde tipo de literatura vai se entreter prazerosamente e não tenha aquele medo irracional por causa do tamanho do livro, isso, acredite, é totalmente irrelevante. Battle Royale de Koushun Takami, além de tudo, vem numa edição muito bonita e com uma capa totalmente condizente com a trama apresentada, e com um mapa dos quadrantes na contracapa. Realmente uma edição muito bonita e, sem dúvida nenhuma, IMPERDÍVEL.


Autor: Koushun Takami nasceu em 10 de janeiro de 1969, na cidade de Amagasaki, perto de Osaka. Formado em literatura pela Universidade de Osaka, trabalhou como repórter de política e economia. Deixou o jornalismo para se de dicar à literatura, mas não lançou nenhuma obra além de Battle Royale, que foi desclassificada na fase final do prêmio Japan Grand Prix Horror Novel pelo seu conteúdo polêmico.

Ficha Técnica:
Título: Battle Royale
Autor: Koushun Takami
Tradução: Jefferson José Teixeira
Editora: Globo Livros
Páginas: 664
Ano: 2014
ISBN: 9788525056122.

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2 Comentários

  1. Me fez lembrar muito jogos vorazes e até me despertou o interesse de ler. Tem tempo que não leio uma boa distopia, vou procurar esse livro para ler

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    1. Bea, Jogos Vorazes foi claramente influenciado por esse que foi o primeiro livro do estilo. Se gostou de JV, tenho certeza que vai gostar do pioneiro. Muito obrigado pela visita e volte sempre. Beijos.

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