[RESENHA #740] O JOGADOR - FIÓDOR DOSTOIÉVSKI


Sinopse: O Jogador, de Fiódor Dostoiévski é um primoroso romance cujo teor psicológico ultrapassa os estreitos limites do gênero recreativo. Baseado num profundo conhecimento das práticas e rotinas do cassino, ele evidencia a sinistra degradação de um jovem culto e talentoso que sacrifica o melhor de si à doentia paixão pelos jogos de azar, a qual lhe subjuga e destrói, aos poucos, a alma. O protagonista, em que se percebem diversos traços do próprio autor, vê toda a sua riqueza espiritual – dignidade, força de caráter e honra cavalheiresca – levada pela estonteante rotação da roleta. Mesmo o amor, a única fonte de alegrias e esperanças que ele possui, acaba sorvido por esse redemoinho... Os vícios humanos, sejam relacionados ao jogo, como no livro de Dostoiévski, ou às drogas, como em nossa realidade cotidiana, ainda estão longe de ser extirpados, tornando O jogador tão interessante para os leitores de hoje.

Resenha: Quando Aleksei Ivánovitch chegou de Rolettenburg, após uma ausência de duas semanas, acreditou que seria muito bem recebido pela família do General e por ele próprio, afinal, Ivánovitch havia saído dali com uma missão e essa missão tinha um resultado em espécie. Mas quando chegou, já foi notando com que indiferença e até certa arrogância o General o tratou. 

Mas como preceptor da família, tinha seus deveres, porém sua grande sina era ser apaixonado por Polina Alexandrovna, enteada do General, e por quem mantinha uma relação de amor e ódio; porém em sua presença afirmava sempre ser seu eterno escravo para o que lhe aprouvesse e Polina, demonstrando sempre indecisão e repugnância ao mesmo tempo, tornava o relacionamento de ambos um tanto perturbado.

Aleksei percebeu de imediato que o General havia conseguido dinheiro para estar já há três dias naquele luxoso hotel e tinha até mesmo reservado um quartinho para Ivánovitch se instalar. Logo na hora do almoço, em meio a conversas, Aleksei envolveu-se em uma discussão com o francês amigo do General, Monsieur Des Grieux, já desconfiando que esse maldito francês era credor do próprio General, antipatizando com ele na hora. Ainda mais sabendo que outra cria sua também francesa, Mademoiselle Blanche, sua prima por sinal, estava para se casar com o velho General.


Ficou bastante claro que o General não tinha gostado nada da intromissão de seu preceptor na conversa no horário do almoço e menos ainda de vê-lo discutir com Des Grieux, mas de lado estava alguém já tinha realmente se divertido e gostado muito daquilo: Mister Astley, um inglês que acabou se tornando muito amigo de Aleksei e Polina.

Alías, logo depois, Ivanóvitch se encontrou com Polina que lhe deu uma outra missão junto às roletas: Transformar setecentos florins no máximo de lucro que ele pudesse, pois ela precisa demais desse dinheiro. Aleksei, de início não aceitou, claro, porém, também gostaria de saber o porquê de Polina precisar de tanto dinheiro assim. Mesmo sem resposta e até um pouco contrariado, ele aceitou e foi tentar cumprir o desejo de sua amada. 

Nesse meio tempo, a família e os "intrusos", ficavam no aguardo do retorno dos telegramas enviado para saber da saúde da "querida" tia rica do General, chamada por todos de avó, que dizia-se, estava na últimas e assim que morresse deixaria toda a família podre de rica. Mas como nada é fácil nessa vida, uma visita inesperada altera totalmente os planos de toda a família.

"Ela parou, quase perdendo o fôlego de fúria. Juro por Deus, não sei se estava linda nesse momento, mas gosto de vê-la ficar assim para na minha frente, gostando, por isso, de provocar-lhe frequentemente a cólera." pág. 46.

Opinião: Todas as vezes em que se fala em literatura russa e Dostoiévski, sempre me perguntam se os livros dele são "difíceis" de ler. A minha resposta é quase sempre a mesma: Depende do que você está acostumado em termos de literatura. Daí a "facilidade" ou a "dificuldade" de se ler Dostoiévski. Eu nunca achei "difícil", acho sim é prazeroso e a cada livro que leio, conheço um pouco mais desse grande autor.

Em O Jogador, podemos dizer que Fiódor fugiu um pouquinho daquilo que estava acostumado a escrever e, pela necessidade, pois esse livro foi escrito para cumprir um contrato a que estava atrelado, nos entregou uma novela com toques estilísticos tanto ingleses como franceses. 

Pela visão crítica de seu personagem, como sempre apaixonado, Aleksei Ivanóvitch, narra sua passagem como preceptor de uma família que gasta mais do que pode e vive na espera de um telegrama avisando da morte da matriarca, que supostamente lhes deixaria uma fortuna de herança.


Já nesse ponto, Dostoiévski nos mostra a futilidade, falta de carácter e a cobiça de muitos personagens de uma única vez. Mesmo com alguns se sobressaindo, no sentido contrário, não concordando com o que a própria família faz, no caso, Polina Alexandrovna, paixão de Aleksei e cujo relacionamento de ambos é claramente de amor e ódio, nós sentimos aquele asco pelos personagens sague-sugas de uma forma bastante forte.

Como disse antes, em O Jogador, podemos notar algumas características ainda não utilizadas por Dostoiévski, como a surpresa e reviravolta no meio da trama com aquele toque de humor ácido que deixa toda a trama mais leve e com muita graça em diversas partes da história.

Claro que, como não poderia deixar de ser, o autor explora e muito, da crítica social e principalmente da discriminação e da hipocrisia quando se utiliza, principalmente, de personagens estrangeiros, por coincidência ou não, um inglês e alguns franceses. A crítica é tão "na cara", que apesar de  todos saberem das vilanias desses determinados personagens, não movem uma palha sequer para contrariá-los, pelo contrário, incrivelmente ainda os ajudam alimentando seus desejos financeiros.


É incrível como um livro que narra a trajetória de um ou mais jogadores, geralmente de roleta, pode ter tantas camadas de críticas de todos os tipos, assim como, a mais pura diversão, em se tratando de Fiódor Dostoiévski, pois a parte cômica da história acaba se misturando com a parte mais séria e, pode-se dizer, desesperadora, pois é muito agoniante ver personagens diante do poder absoluto que um local de apostas tem sobre qualquer um que se atreva a entrar.

Fica claro que a mensagem que o autor quer passar é que ninguém consegue resistir a mais uma rodada, todos acham que é possível criar mecanismos ou esquemas para que sua aposta seja a premiada, assim como o próprio autor em sua vida teve grandes problemas com o jogo, aqui, nada mais justo do que um aviso mais do que explícito: não jogue jamais!!

Então, O Jogador, publicado pela editora Martin Claret, me trouxe mais uma faceta desse grande escritor russo, que pode sim ser divertido, crítico e aventureiro, quando quer ou é preciso, soando totalmente atualíssimo. Agora basta que você, leitor/leitora, se dê a devida oportunidade de conhecer um dos maiores escritores de todos os tempos. Ainda mais nessa edição que está absolutamente linda e muito bem cuidada e faz parte do projeto de renovação dos livros de Dostoiévski. Simplesmente, I-M-P-E-R-D-Í-V-E-L.


Sobre o autor: Fiódor Dostoiévski (1821-1881) foi escritor, jornalista e filósofo. Nascido na Rússia, é considerado um dos pais do existencialismo – em virtude de seus romances que retratam de forma ­ filosófica as patologias psicológicas. Após a morte da esposa e do irmão, viu-se afundado em dívidas, tendo de sustentar a família do irmão, o enteado e um segundo irmão alcoólatra. Para fugir à pressão dos credores, acabou se refugiando em diversas cidades da Europa com sua segunda esposa, sem nunca interromper sua produção literária. A necessidade de dinheiro o forçava a concluir rapidamente seus livros e lhe creditou a frase “a pobreza e a miséria formam o artista”. Dentre suas maiores obras estão Crime e castigo, O idiot­a e Os irmãos Karamazov

Ficha Técnica:
Título: O Jogador
Tradução: Oleg Almeida
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora: Martin Claret
Páginas: 160
Ano: 2019
ISBN: 9788544002360

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