[RESENHA #746] O SILMARILLION - J. R. R. TOLKIEN


Sinopse: "O Silmarillion" é um relato dos Dias Antigos da Primeira Era do mundo criado por J.R.R. Tolkien. É a história longínqua para a qual os personagens de "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit" olham para trás, e em cujos eventos alguns deles, como Elrond e Galadriel, tomaram parte. Os contos de "O Silmarillion" se passam em uma época em que Morgoth, o Primeiro Senhor Sombrio, habitava a Terra-média, e os Altos-Elfos guerreavam contra ele pela recuperação das Silmarils, as joias que continham a pura luz de Valinor. O livro começa com "O Ainulindalë", o mito da criação do Universo, seguido pelo "Valaquenta", onde estão descritas a natureza e os poderes de cada um dos deuses. O "Akallâbeth" narra o apogeu e a queda do reino da grande ilha de Númenor no final da Segunda Era e "Dos Anéis de Poder" fala dos grandes eventos no final da Terceira Era, como narrado em "O Senhor dos Anéis". 

Resenha: Das obras de Tolkien, o Silmarillion foi o primeiro livro que li do universo criado pelo autor. Depois, foi a vez de O Hobbit, que li em uma época que não existia essa grande variedade de livros publicado do mestre da literatura fantástica como há hoje, tendo em vista que a HarperCollins vem trazendo várias novidades para a felicidade daqueles que gostam desse universo. Durante três anos seguidos, sempre no mês de janeiro, lia ambos os livros acima citados e, sem qualquer razão aparente, parei com a tradição e me dediquei a outros projetos. Mas, após vários anos sem ler qualquer coisa de Tolkien e seu universo maravilhoso, sai da inércia e recomecei a desbravar o mundo fantástico por ele criado e a principal razão disso, foi as novas e lindas edições que a HarperCollins vem publicando no Brasil para o nosso deleite.

O Silmarillion é uma leitura que requer atenção e paciência do leitor, pois aqui Tolkien nos apresenta dezenas de histórias distintas, são novelas e contos sobre Arda, mais conhecida como a Terra Média. Essas histórias começam precisamente com a criação de Arda, passando pela primeira e segunda eras, mas também o começo da terceira era, período em que está ambientada as histórias de O Hobbit e a saga de O Senhor dos Anéis, ou seja, esse livro pode ser considerado o "velho testamento" da Terra Média.

"Havia Eru, o Uno, que em Arda é chamado de Ilúvatar; e ele fez primeiro os Ainur, os Sacros, que eram os rebentos de seu pensamento e estavam com ele antes que qualquer outra coisa fosse feita [...]" pág. 39.

No início, Arda foi criada por Eru (conhecido como Ilúvatar pelos Elfos) ou basicamente deus, e para habitar essa terra, Eru criou primeiro os elfos, seres dotados de beleza e capazes de viver por centenas e milhares de anos. Depois vieram os homens, seres dotados de bravura e coragem. Algum tempo depois surgiram os Anões, mas esses não foram criados por Eru, mas pelo poderosíssimo Valar conhecido como Aulë, o ferreiro. Aliás, os Ainuir são seres dotados de poderes imensos, criados por Eru, estão ligados ao destino desse jovem mundo e estão divididos em duas classes, os Valar e Maiar.


A principal história não é sobre a criação de Arda, mas sobre um elfo nordor chamado Fëanor, considerado o maior artesão que já existiu e sua criação, as Silmarilis. Essas são três gemas ou jóias consideradas perfeitas que foram criadas com a luz das árvores Talperion e Laurelin, árvores divinas dos Valar. Essas árvores eram de extrema importância, pois deviam iluminar toda a terra média e suas luzes surgiram bem antes da luz do sol ou da lua. O grande problema é que em determinado momento Fëanor perde a posse dessas gemas e abandona a terra sagrada dos valar na companha de diversos elfos em direção a Terra Média em busca do maior tesouro já feito.

"Naquele tempo, foram feitas aquelas coisas que, mais tarde, se tornaram as mais renomadas de todas as obras dos Elfos. Pois Fëanor, tendo chegado a seu poder pleno, ficou repleto de um novo pensamento, ou pode ser que alguma sombra de presságio tenha vindo a ele sobre a sina que estava próxima; e ponderou como a luz das Árvores, a glória do Reino Abençoado, poderia ser preservada de modo imperecível. Então começo longo e secreto labor e despendeu todo o seu conhecimento, e seu pode, e seu engenho sutil; e, ao fim de tudo, fez as Silmarilis." pág. 103.

Fëanor não aceita dividir a sua criação e tomado pela ira, contando com a companhia de seus sete filhos, eles fazem um juramento, que talvez nunca consigam cumprir, de destruir qualquer um que esteja com as Silmarilis, pois para ele, ninguém é digno de ter as Silmarilis, a não ser a sua família. Mas esse é um juramento que serve apenas para assombrar seus filhos e causar discórdia entre os elfos e os Valar. As gemas não eram objeto de desejo apenas de Fëanor e seus filhos, mas de elfos, humanos e criaturas da escuridão e por onde elas passam há rastros de sangue e destruição.

Durante a leitura, Tolkien nos apresenta as divisões que ocorreram entre os elfos, homens, anões e outras raças. Uma história extremamente interessante é a tragédia de Túrin Turambar, um homem de Dor-Lómin que foi considerado o maior guerreiro do seu tempo e o mais belo de todos os humanos, porém, aqui, sua história não é narrada de forma profunda, mas pode ser melhor conhecida através da narrativa de "Os Filhos de Húrin" que traz mais detalhes.



Opinião: O Silmarillion é ao meu ver o livro mais complexo e denso do Tolkien e mesmo após sua leitura pela quarta vez (há muitos anos não lia esse livro), requer atenção e paciência, por isso se torna difícil para muitos leitores, mas é ao mesmo tempo uma leitura extremamente prazerosa. A dificuldade vem pela enormidade desse universo conhecido como a Terra Média e principalmente pela quantidade de informações e personagens, períodos, passagens e contos presentes no livro. Há um entrelaçamento entre as histórias paralelas e isso pode gerar uma certa dúvida nos leitores. O lado prazeroso reside na possibilidade ímpar de conhecer o universo de Arda (Terra Média), desde o seu surgimento até o final da segunda era e o começo da terceira. É extremamente fascinante vislumbrar os períodos de luz e trevas que a Terra Média enfrentou, o surgimento e evolução das raças, mas também o inerente e esperado embate entre elas. Em suma, todas as transformações que ocorreu nesse universo.

O mais legal de "O Silmarillion" é justamente a quantidade de personagens que fogem dos que conhecemos em "O Hobbit" e "O Senhor dos Anéis", exceto por alguns que possuem passagens importantes ou breves nesse livro, como é o caso de Galadriel e Gandalf. Muitos conhecem a ferocidade de Sauron e o temor que ele inflige na Terra Média, mas quem é ele perto de Morgoth? (uma clara alusão à Lúcifer, o anjo caído).

Muitos também conhecem Legolas, o elfo que foi extremamente importante na comitiva em "O Senhor dos Anéis", mas qual a importância dele nesse universo se comparado a Fingolfin ou Fëanor? O que podemos dizer da luta de Aragorn por Frodo se levarmos em conta a vida de Eärendil e sua busca pela redenção junto aos Valar? Ao meu ver, as figuras em "O Silmarillion" possuem mais relevância, são lendários e precisaram enfrentar perigos inimagináveis se comparados aos que vivenciamos ao lados dos anões, hobbits, humanos e elfos nos livros "O Hobbit" e "O Senhor dos Anéis".



Em minha concepção, esse livro é o ápice de todo o trabalho já elaborado por Tolkien sobre a Terra Média, pois aqui podemos conhecer mais de perto toda a mente afiada e criativa desse magnífica autor ao criar um universo tão sublime e sensacional que é o de Arda. Afinal, esse livro é fruto de um trabalho de 30 anos do autor.

Em "O Silmarillion", o autor propõe a recriação e o resgate de mitos que os seres humanos herdaram bem antes do nascimento de civilizações importantes como a greco-romana ou mesmo de mitologias que surgiram após Cristo, como as mitologias celta e nórdica. Tolkien "bebe" muito das mitologias que os seres humanos criaram, fica claro que ele se inspirou em diversas mitologias para criar a própria mitologia da Terra Média.

Esse é um livro grandioso, épico e trágico, e digo isso porque Tolkien apresenta narrativas em que temas como amor, amizade, superação, encontros e desencontros, vaidade, disputa pelo poder, abnegação, ódio, vida, morte e guerras estão presentes. A redenção por exemplo é alcançada apenas após muita dor, luta e perda, ou seja, após muito sacrifício. Esse universo e diversos cenários ou situações apresentadas por Tolkien é repleto de metáforas.


O Silmarillion, como citei acima, foi o primeiro livro que li de Tolkien, há quase 20 anos e, particularmente, não indico esse livro como porta de entrada para o mundo da Terra Média, o que não deixa de ser uma contradição, tendo em vista que foi a minha primeira experiência com a escrita de Tolkien; mas é justamente pela dificuldade e quantidade de informações que não o indico, pois acredito que seja necessário ler primeiramente "O Hobbit" e principalmente a trilogia de "O Senhor dos Anéis", devido a semelhança de seus apêndices com a escrita de "O Silmarillion".

A HarperCollins merece parabéns pelo trabalho realizado, pois essa nova edição vem com capa dura, muitos detalhes como mapas, runas e ilustrações. Essa edição é simplesmente maravilhosa e vale o investimento, seja pela edição ou mesmo pelas incríveis histórias. Mais do que recomendo "O Silmarillion", com as ressalvas acima explicadas, para quem é fã de Tolkien ou mesmo para quem apenas deseja conhecer um pouco mais sobre a Terra Média.


Sobre o autor: Sir John Ronald Reuel Tolkien foi um escritor, professor universitário e filólogo britânico. Tolkien nasceu na África do Sul e aos três anos de idade, com sua mãe e irmão, passou a viver na Inglaterra, terra natal de seus pais. Desde pequeno fascinado pela lingüística, cursou a faculdade de Letras em Exeter. Lutou na Primeira Guerra Mundial, onde começou a escrever os primeiros rascunhos do que se tornaria o seu "mundo secundário" complexo e cheio de vida, denominado Arda, palco das mundialmente famosas obras O Hobbit, O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, esta última, sua maior paixão, que, postumamente publicada, é considerada sua principal obra, embora não a mais famosa.

Ficha técnica:
Título: O Silmarillion
Autor: J. R. R. Tolkien
Tradução: Reinaldo José Lopes
Editora: HarperCollins

Páginas: 496
Ano: 2019
ISBN: 9788595084377

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5 Comentários

  1. Resenha espetacular, meu amigo. Meus parabéns. Tá de cair o queixo.

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  2. Olá, tudo bem? Ainda não li nenhuma obra do Tolkien, acho que preciso mudar isso logo né! Ameeei a sua resenha, está incrível e cheia de detalhes que me convenceram a dar uma chance ao autor.

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  3. Me pareceu ser um livro bem sombrio rsrs.
    Achei a capa bem interessante.
    Pra quem curte esse estilo vai amar ler com certeza.
    https://blogdajenny2014.blogspot.com/

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  4. Ola tudo bem??
    A história relatado no livro me parece ser muito boa. Ainda não conhecia mas fiquei curioso.

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  5. Olá Yvens, tudo bem?
    Estou lendo o Silmarilion em leitura coletiva, um projeto das leituras das obras do Tolkien. E é muito interessante ver a criação pela visão do Tolkien, pois tem muitas coisas semelhantes, com a nossa criação e ligação com outros livros que já li. Concordo com você, é um livro complexo e denso, já que temos tantos personagens e tantas intringas. Morgoth é o capiroto, invejoso, que mesmo com todo o poder que Ilúvatar lhe concebeu, só sabe fazer o mal.
    Mas o que me incomoda bastante, é o ódio e as promessas idiotas dos filhos de Feanor, que mesmo tendo a oportunidade do perdão rejeita, por ganância.
    Estou adorando a experiência, já que só tinha lido Hobbit. Amei as fotos.
    Abraços!

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