[RESENHA #753] MULHERZINHAS - LOUISA MAY ALCOTT [EDIÇÃO INTEGRAL]


Sinopse: Um clássico da literatura americana, Mulherzinhas reúne um drama familiar, traços de um romance histórico e inspirações autobiográficas de sua autora, Louisa May Alcott. Foi publicado pela primeira vez em 1868. Também conhecido como Adoráveis mulheres, gerou inúmeras sequências em livros e adaptações para o teatro e o cinema ao longo do tempo. A mais recente, um filme com estreia em dezembro de 2019 e a participação de grandes estrelas como Maryl Streep e Emma Watson. Alcott relata na obra quatro anos na vida das irmãs March — Meg, Jo, Beth e Amy. Enquanto o patriarca luta na Guerra Civil Americana e a mãe tem de trabalhar para sustentar a família, as quatro filhas precisam cooperar entre si para manter a unidade familiar. Mulherzinhas passou à história como a obra-prima de Louisa May Alcott. É um romance moderno e atemporal, que, junto a outros, fez sua autora ser reconhecida como uma escritora que abordou questões feministas de forma leve e aberta.

Resenha: Três anos se passaram desde o último encontro que tivemos com nossas adoráveis mulheres, Meg, Jo, Beth e Amy. Agora, já praticamente adultas, todas têm, ou estão em vias de, seus desejos de vida pelo menos encaminhados. Bom, quase todas. Depois de tudo que passaram até a volta do velho patriarca da família são e salvo e com a benção de todos, Meg se casou com John e começaram uma vida modesta, mas feliz. Mas Meg iria perceber que as coisas não podem ser sempre somente perfeição, felicidade e amor. Claro, são exatamente esses valores que fazem com que os percalços de uma vida de casal sejam suportados e resolvidos, mas também é preciso errar no hoje para acertar no amanhã e isso Meg e John também vão ter que aprender e com a chegada das crianças, esse aprendizado vai ficar ainda mais difícil.

"A felicidade doméstica não havia surgido de forma repentina. John e Meg precisaram encontrar juntos o segredo para isso, e cada ano de vida de casados lhes ensinava como usar essa fórmula, desvencilhando os mistérios do verdadeiro amor doméstico e da ajuda mútua, que até mesmo os mais pobres podem possuir e os mais ricos não podem comprar."



Amy, sabia muito bem o que queria assim que ficou sabendo que sairia em viagem, que ganhou como um tipo de presente de sua tia, ao exterior para aprender e conhecer o mundo. Artista sensível, deixou isso de lado quando decidiu que queria se casar com alguém de posses. Não queria mais ser a pobre Amy e iria se esforçar ao máximo para fazer tudo possível para se tornar uma dama respeitada na alta sociedade da época. Porém, Amy, iria descobrir que as coisas não são sempre realizadas conforme planejamos. Existem os percalços, a surpresa em certos acontecimentos da vida e muitas outras vertentes que podem mudar tudo aquilo que foi planejado. E, foi justamente essas mudanças que fizeram com que Amy descobrisse sentimentos e desejos que ela não sabia ou não havia percebido que tinha. A ironia do destino iria mostrar que mesmo que você tenha feito planos, fossem condizentes ou não com sua personalidade, uma pequena fagulha pode fazer com que tudo mude de perspectiva e, definitivamente, Amy viveria essa mudança na própria pele.

"Ele corria através do grande arco para me encontrar. Parecia tão perturbado que eu esqueci tudo sobre mim mesma e lhe perguntei qual era o problema. ele disse que havia acabado de receber uma carta implorando para que ele voltasse para casa, pois Frank estava muito doente.. Então ele precisava ir imediatamente no trem noturno; tinha tempo apenas para se despedir. Fiquei muito triste poe ele e decepcionada comigo, mas apenas por um instante, já que, enquanto apertávamos as mãos, ele disse de uma forma que não deixava dúvidas: "Eu voltarei logo, Amy, você não vai me esquecer?"

Jo, também teve sua parcela de aprendizado, talvez a maior de todas. Seus escritos continuaram a fazer sucesso e também a lhe render um bom dinheiro no final das contas. Mas foi uma pequena viajem, onde ela atuou como governanta na casa de uma amiga que conheceu outro valores e que, inconscientemente, foram agregados a personalidade livre que a "moleca" Jo sempre teve. Como sempre, o destino e sua, novamente, ironia, buscou uma profunda mudança no comportamento e desejo de Jo para lhe mostrar que nem sempre nossas convicções são fixas por toda nossa vida. Mas foi através de alguns sofrimentos que a mudança definitiva veio para Jo, onde foram deixadas marcas profundas em seu coração. Mas, como suas outras irmãs, Jo foi criada com sabedoria e amor, o que, no final das contas, foi exatamente o que lhe salvou.

"Era fácil fazer a promessa de autoabnegação quando se estava completamente absorvido por outro ser, quando o coração e alma estava purificados por um doce exemplo. Contudo, quando a voz que a ajudava silenciou, a lição diária ficou interrompida e a presença amada se foi, nada sobrou senão a solidão e a tristeza, e, então, Jo começou a achar muito difícil cumprir sua promessa."



Beth continuou a ser a pequena do grupo, mas depois do que passou, as coisas nunca mais foram iguais para ela. De todas as irmãs foi a que mais sofreu, infelizmente. Mas o amor que recebia de todas era mais do que suficiente para acalentar seu doce coração e também seu alquebrado corpo. Jo a tinha como um passarinho debaixo de suas asas e a protegia de todas as formas possíveis. Mas Beth, longe de ser poupada das mazelas da vida, também teve sua parcela de sofrimento emocional, além dos físicos. Ela amava, mas sabia que não poderia ter seu desejo realizado, então ela vivia através da felicidade de sua família, que por sua vez a valorizava em todos os sentidos e a confortava de todas as forma possíveis. Mas, novamente, a inexorabilidade do destino veio bater à porta da família March.

"Uma noite, quando Beth olhava os livros sobre a mesa, buscando algo para fazê-la esquecer o cansaço mortal que era quase tão difícil de suportar quanto a dor, ela virou as folhas de seu velho favorito, O caminho do peregrino, e encontrou um pequeno papel rabiscado com a caligrafia de Jo. O nome chamou sua atenção, e a aparência borrada das linhas lhe garantia que haviam caído lágrimas sobre ele."


Opinião: Sequência natural de Mulherzinhas e publicado anteriormente como Adoráveis esposas, a editora Edipro nos presenteia com a edição completa de Mulherzinhas e, seguindo os parâmetros da anterior, a edição integral só confirma o capricho da editora com seus lançamentos. Realmente, uma beleza de edição.

A história acompanha a vida de nossas personagens já em sua vida adulta [naquela época a idade adulta era bem diferente da atual], e na busca da realização de seus sonhos. Louisa, reforça a doçura nessa continuação, apresentando uma gama de amor que vem principalmente da figura da senhora March, que distribui sua sabedoria de vida e amor materno para, literalmente, todos os personagens da trama. Obviamente, que toda a franqueza da autora continua lá, pois ela não deixa de espetar a sociedade de uma forma ou de outra, colocando suas personagens em diversas situações onde pôde espezinhar e estapear toda uma geração e ainda o vem fazendo nos dias de hoje.

Não pense que por ter situações extremamente amorosas e aconchegantes ao longo de toda a história, Louisa deixou de lado toda sua crítica espinhosa aos acontecimentos da época, na verdade é espetacular como ela consegue mesclar um romance cheio de "aconchegos", espiritualidade e bondade com alertas sócio-econômicos e morais com tanta facilidade.


É claro que todas as convenções da época, ainda assim, "precisaram" ser respeitadas, pois tenho quase certeza que se não o fossem, a autora sequer teria sua obra publicada naqueles tempos. Então, apesar de suas "escapadelas", ainda vamos encontrar a posição masculina em todo o seu poder de "direito" [segunda a época, claro, só lembrando], onde a mulher sempre era relegada ao segundo plano com deveres ao marido, casa e filhos. Mas mesmo assim, como disse, Louisa, estapeia a sociedade em uma frase aqui, uma acontecimento ali para que não se pense que ela era uma pessoa que se acomodava, não mesmo. 

Se na primeira parte da trama, lidamos com a vida de meninas e suas descobertas, na segunda parte, temos que lidar com a vida adulta e seus inúmeros problemas. Louisa, apresenta uma família comum e pobre que tem que lidar constantemente com seus problemas financeiros e com o futuro de quatro mulheres naquela sociedade limitante para o mundo feminino. É óbvio que toda a trama tem seu facilitador e aqui é muito bem representada na pessoa de Laurie e seu avô, que têm um papel significativo nessa sequência e que, de uma forma quase que simbólica, demonstra a esperança para todos que precisam passar pelas mesmas coisas que a família March teve que passar.



Por fim tenho que reafirmar o que disse na resenha anterior [clique aqui] quanto a forma brilhante que Louisa retratou a família March e suas histórias. Mesmo "presa" as convenções da época, conseguiu demonstrar suas opiniões avançadas, mesclando a vida de uma família e seu cotidiano com situações que explicitam diversas injustiças que, infelizmente, eram muito comuns naquela época. Não tem como deixar de dizer que Mulherzinhas, nessa edição integral que conta com uma capa muito bonita, no formato brochura, papel amarelado e fonte bem agradável, não é nada mais nada menos que um clássico absoluto e I-M-P-E-R-D-Í-V-E-L.


Sobre a autora: Louisa May Alcott (1832-1888) nasceu na Filadélfia, nos Estados Unidos, em uma família dedicada à educação e à filosofia. Teve a oportunidade de conviver com personalidades como o filósofo Henry David Thoureau e o poeta Ralph Waldo Emerson, seguindo a carreira de escritora, apesar de suas aspirações de tornar-se atriz na juventude. Em seu trabalho, adotou principalmente a literatura infantojuvenil. Sua família chegou a abrigar escravos em fuga, e Louisa foi a primeira mulher a registrar-se como eleitora em sua região. Foi abolicionista e feminista, além de ter atuado como enfermeira durante a Guerra Civil Americana, ocasião em que quase morreu ao contrair febre tifoide. Seus relatos de guerra lhe renderam seu primeiro sucesso literário com a obra Hospital Sketches, mas o grande reconhecimento viria com Little Women (Mulherzinhas), cinco anos mais tarde. Faleceu em decorrência de um acidente vascular cerebral, aos 55 anos, dois dias após a morte de seu pai.

Ficha técnica:
Título: Mulherzinhas
Autor: Louisa May Alcott
Tradução: Giu Alonso e Daniel Moreira Miranda
Editora: Via Leitura [Edipro]
Páginas: 464
Ano: 2020
ISBN: 9788567097824
Onde Comprar: Edipro

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