[RESENHA #765] O IMITADOR DE HOMENS - WALTER TEVIS


Sinopse: O futuro é um lugar sombrio no qual a população mundial está à beira da extinção; apenas os robôs tomam todas as decisões, a família foi abolida, a convivência é proibida e os poucos sobreviventes vagam pelas ruas, dopados e mantidos calmos por coquetéis de psicofármacos e antidepressivos. Trata-se de um mundo sem arte, sem livros e sem crianças, um mundo no qual as pessoas preferem ser queimadas vivas a suportar a própria existência. Nesse contexto, Spofforth, um sofisticadíssimo androide de última geração que almeja o suicídio e é impedido pelo software com que foi programado, é o símbolo e o guardião do status quo. Sua existência se entrelaça com a de Paul Bentley, um professor universitário que, acidentalmente, redescobre a leitura e os livros, os quais lhe dão a chance de aprender sobre a existência de um passado e lhe mostram a possibilidade de mudar; e com a de Mary Lou, que, desde pequena, se recusa a tomar remédios, com o objetivo de manter os olhos bem abertos diante da realidade. O imitador de homens é um romance assombroso, pleno de aflição, mas também capaz de celebrar o amor e a magia de um sonho. Uma distopia moderna acerca das inquietações da raça humana, em que a tecnologia desenfreada se transforma de recurso em perigo. 

Resenha: Publicado originalmente em 1980, "O imitador de homens" é um romance de ficção científica, mais especificamente uma distopia (subgênero da ficção científica). O cenário apresentado por Walter Tevis é os Estados Unidos do século XXV e a queda do ser humano começou séculos antes, quanto os primeiros robôs foram construídos para realizarem todo o trabalho do homem, pois com o advento da robótica e mecatrônica, os seres humanos passaram a levar uma vida egoísta, visando apenas a diversão e interesses pessoais.

Diante da tecnologia e facilidades alcançadas, o ser humano entrou em um estado de comodismo jamais visto na sua existência e no decorrer dos séculos  os humanos perderam os conhecimentos adquiridos ao longo de muito estudo e luta de diversas gerações, eles perderam a capacidade de fazer as atividades  comuns e rotineiras, não demonstram habilidades manuais ou mentais para nem ao menos realizar a manutenção de suas criações, os humanos perderam a capacidade de realizar tarefas básicas, incluindo a capacidade de ler e escrever! 


Com o passar dos tempos os humanos estão definhando e encontram-se em um estado de pura apatia, eles vivem num estado análogo ao vegetativo e isso se deve ao uso constante de maconha e inibidores de emoções, mas também pelo condicionamento que foram submetidos, já que desde crianças foram ensinados a respeitar a privacidade e o espaço alheio, bem como jamais olharem nos olhos do próximo. Para piorar todo o cenário, alguns suicídios em grupo começam a acontecer na cidade de Nova Iorque, sejam eles em lanchonetes ou parques, mas nada é feito, tanto os humanos quanto os robôs ficam indiferentes aos suicídios.

Nesse mundo desolador conhecemos 
Robert Spofforth, um robô tipo nove. Os robôs do tipo nove são considerados a obra-prima dos humanos, são os robôs mais desenvolvidos que já foram criados pelo homem e são considerados perfeitos, pois são capazes de controlar estímulos de dor, conseguem se autorregenerar, o que incluí desenvolver novos dedos ou dentes, sem contar que não ficam cegos ou calvos. Contudo, foram criados apenas cem desses robôs e após diversos imprevistos muitos deles foram destruídos ou desativados, o único que resta é Spofforth, um robô que começou a sua existência como zelador e foi preparado para ser chefe da Universidade de Nova Iorque.

No decorrer da história conhecemos personagens humanos extremamente importantes como Paul Bentley e Mary Lou. Bentley é um homem na casa dos quarenta anos que trabalha como professor e que em determinado momento recebe um convite de entrevista para trabalhar na Universidade de Nova Iorque, instituição essa comandada por Sporfforth. É nessa universidade que Bentley aprimora algo que estava treinando há algum tempo, a habilidade de ler e escrever, só que isso deve ser feito às escondidas, pois é algo que tornou-se proibido aos humanos.

Em suas andanças pela cidade, Bentley começa a questionar ainda que internamente o declínio do ser humano, ele passa a observar a inércia do ser humano com tudo que está a sua volta. Insatisfeito, ele procura um lugar que possa encontrar um pouco de paz e é justamente no zoológico que ele não encontra isso, pois lá ele conhece Mary Lou, uma mulher que vive à margem dessa sociedade controladora e rígida. Lou é uma mulher que foi criada por um homem já idoso, um homem que era considerado sábio e que lhe ensinou tudo o que sabia. Lou ao crescer ao lado desse homem tornou-se uma jovem rebelde e uma mulher rebelde, ela não estudou nas escolas desse novo mundo, ela não foi condicionada a pensar como os robôs queriam que fosse, ela simplesmente leva a vida do seu jeito e sobrevive como pode, pois ela não tem credenciais ou cartões para realizar compras de roupas e alimentos, ela mora escondida no zoológico de animais robóticos e através de um artimanha que ela obtém a sua alimentação diária, sanduíches e nada mais.


O contato entre Lou e Bentley é devastador, ao menos para Bentley, pois essa mulher misteriosa planta nele a semente da rebeldia, planta nele uma semente que o faz desejar mudar as coisas e com o passar do tempo ele realmente começa a mudar, mas também começa sentir a necessidade de ter Mary Lou por perto. Ansioso com isso, Bentley propõe que Lou passe a morar com ele na universidade, mas isso é algo que ocorre de forma discreta e sem o conhecimento de Sporfforth. Com o passar do tempo a interação entre eles só aumenta e todas as barreiras começam a ser quebradas. Contudo, o destino faz com suas vidas e caminhos sejam separados e a vida de Bentley muda radicalmente.


Opinião: O Imitador de Homens é uma distopia que demonstra a decadência do ser humano, pois o mesmo tornou-se extremamente dependente da tecnologia e indefeso, tendo em vista que nesse novo mundo quem dá as cartas são os robôs. Walter Tevis no mostra um cenário em que os humanos são controlados pelos robôs, pois estes ditam as regras, ou seja, o autor cria um mundo no qual os seres humanos que se rebelem e querem viver fora das regras estabelecidas são oprimidos. A população mundial se reduziu de forma drástica, pois há controle de natalidade e o mesmo conforme dito, falhou de tal forma que não nascem mais humanos.

Tevis no demonstra formas de condicionar o comportamento do ser humano em seu livro, primeiro na fase da infância e adolescência quando é ensinado que todos devem respeitar a privacidade e o espaço alheio, até o simples ato de olhar ou encarar o próximo é considerado desrespeito, o mesmo vale sobre tocar no próximo ou realizar perguntas. Outra forma de condicionamento é o uso contínuo e indiscriminado de drogas e psicotrópicos. Contudo, a droga mais utilizada é a maconha e essa serve como inibidor de emoções e comportamentos indesejáveis.

Durante a leitura fica perceptível os humanos desse mundo são doentes, há no ar o sentimento de solidão e isso fica perceptível em Bentley, um dos poucos humanos que aprenderam e ler, pois ele ente falta de ter uma companhia. O autor também aborda opressão que Bentley ou Mary Lou sofrem por pensar e querer mudar o sistema que foi implantado, isso é algo comum em nossos dias, pois toda e qualquer mudança pode ser passível de ser oprimida.


É interessante que Tevis aborda sentimentos que há muito foi esquecido pela humanidade como fracasso, amor, preocupação com o próximo, sentimentos de amizade e companheirismo. Contudo, o autor também aborda a individualidade, na verdade é uma crítica a essa, pois aqui a individualidade é vista como algo acima da coletividade e colocada no topo de um pedestal. Em suma, Tevis cria um enredo magnífico, questionando o valor do sentimento, da liberdade, religião e fé.

O Imitado de Homens é um livro de ficção científica especulativa, pois o autor imaginou como será o planeta Terra daqui a alguns séculos. Essa foi uma leitura rápida, prazerosa e extremamente envolvente. Eu fico feliz pela Rádio Londres publicar um livro tão incrível como esse e recomendo para todos que gostam de ficção científica e principalmente livros reflexivos.


Sobre o autor: Walter Tevis nasceu em São Francisco, em 1928. Aos 10 anos, acometido por uma grave doença reumática, viu-se obrigado a uma longa internação hospitalar. Enquanto isso, sua família se mudou para o Kentucky, deixando-o sozinho na cidade. O sentimento de abandono e a terapia dolorosa tornaram o hospital uma espécie de câmara de tortura. Quando recebeu alta, esse jovem frágil, tímido e desajeitado mudou-se para o Kentucky, onde encontraria sérias dificuldades de integração. Logo depois da escola, alistou-se na Marinha, ainda a tempo de passar dois anos na base de Okinawa, no Japão, durante a Segunda Guerra Mundial. Terminada a guerra, Walter conseguiu concluir o curso universitário, tornando-se professor de literatura numa escola de ensino médio. Walter Tevis sempre insistiu em definir suas obras não como ficção científica, mas como “ficção especulativa”, pois, ao descrever mundos futuros e paralelos, focava a atenção nos elementos psicológicos, e não nas inovações técnicas. Talvez por isso todas as suas obras, e não apenas as de ficção científica (campo no qual foi um dos representantes mais aclamados), ainda soem terrivelmente plausíveis e intensamente familiares. Seus romances foram traduzidos para mais de 18 idiomas. Tevis morreu em 1984.

Ficha Técnica:
Título: O imitador de homens
Autor: Walter Tevis
Tradução: Alexandre Barbosa de Sousa
Editora: Rádio Londres
Páginas: 288
Ano: 2020
ISBN: 9788567861319

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7 Comentários

  1. Ai, eu amo as edições dessa editora, acho tão lindas!
    Nossa, acho que nunca tinha parado pra ler uma resenha desse livro e agora eu tô muito curiosa com ele. Eu gosto muito de livros com esse vibe meio distópica, sempre são uma aposta certa pra mim. Já quero pra ontem!
    Amei a resenha e as fotos, ficaram incriveis!

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  2. Preciso ser sincera, não tenho costume de ler ficção cientifica entretanto é uma hábito que venho tentando inserir na minha rotina de leitura, pegar um gênero como esse e tentar destrincha-lo até me acostumar, adorei a proposta da obra e saber sobre suas peculiaridades, anotei o título para uma breve tentativa de leitura.

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  3. Oiii

    Achei a proposta toda do livro super interessante, não é dificil imaginar esse futuro distópico com controle de natalidade e esse sentimento estranho de solidão, indiferença. Já há países que o fazem. E essa dependência da tecnologia, vai se tornando também tão real, às vezes fico refletindo nisso, quantas profissões ja sumiram desde então, e como tanta coisa a gente ja nem sabe fazer mais se não tiver uma ajudinha tecnológica. Gosto de distopias assim, com esse tom possível, realista. Essa reflexão critica que o autor faz sobre a individualidade também é bacana, isso está mais presente cada dia, prevalecendo mais e mais sobre o coletivo (na pandemia a gente teve um exemplo gigante disso em algumas pessoas.). Já anotei o titulo do livro pra ler quando puder, acho que vai ser uma distopia daquelas pra me fazer pensar bastante, valeu pela dica, não conhecia.

    Beijos, Ivy

    www.derepentenoultimolivro.com

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  4. Olá, tudo bem? A leitura deve ser interessante pois realmente é uma especulação de um futuro da humanidade a se pensar. Não sei se chegaremos nesse nível, apesar de saber que o ser humano hoje em dia pode ser capaz de tudo, porém é algo a se questionar e refletir. Ótima resenha e fiquei curiosa.
    Beijos

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  5. Oii!

    Que enredo incrivel! Acho engraçado quando vejo como o pessoal no passado imaginava o futuro e querendo ou não acertaram diversas coisas hehehe; Eu não li o livro ainda e por não ser o meu estilo favorito de leitura, não o conheceria se não fosse atraves do seu blog. Gostei da critica, fiquei curiosa com o livro e amei as fotos!

    Beijinhos,
    Ani
    www.entrechocolatesemusicas.com.br

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  6. Oi. :)
    Não sou do tipo de leitora que curte ficção cientifica, mas sua resenha consegue despertar curiosidade.
    Parabéns pela resenha, ficou ótima.

    Beijos.
    Manuscrito de Cabeceira

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  7. Olá!

    Eu não sou a maior fã de ficção cientifica, alguma coisa no gênero não prende minha atenção ou apenas não encontrei o livro certo do gênero. Em contra ponto adoro livros que me fazer rever atitudes, então fiquei meio dividida quanto a ler ou não. Vou pensar melhor e quem sabe eu dê uma chance esse seja minha porta de entrada para o gênero. Fico contente que tenha curtido a leitura. Obrigada pela dica.

    Beijos

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