[RESENHA #771] DOIS HUSSARDOS - LEV TOLSTÓI

 

Sinopse: Publicada em 1856, um ano após os Contos de Sebastópol, que selaram a entrada triunfal de Lev Tolstói (1828-1910) no cenário das letras russas, com suas descrições vivas e diretas dos conflitos bélicos na Crimeia, Dois hussardos, ao contrário do que se poderia esperar, é uma novela com ritmos matizados, de uma sutileza desconcertante, que revela o escritor na plena posse de seus talentos. Nela, a guerra é um pano de fundo longínquo, pois o que realmente interessa ao futuro autor de Guerra e paz, como diz Italo Calvino em concisa e brilhante análise incluída neste volume, é “a substância mesma de que se compõem as existências humanas”. Em Dois hussardos, num intervalo de vinte anos, pai e filho, ambos militares, detêm-se por uma noite na mesma cidade de província. O modo como interagem com seus habitantes, as seduções e as trapaças em que se envolvem, refletem muito mais do que o quadro mental de dois indivíduos: são índices das transformações profundas pelas quais passava a Rússia no século XIX. Neste que Calvino considera um dos mais belos e característicos contos de Tolstói, é possível enxergar de maneira privilegiada o modo de trabalhar do autor, no qual a aparente simplicidade narrativa oculta sempre uma profunda e complexa relação com a História. 

Resenha: Publicado originalmente em 1856 no periódico "O Contemporâneo", Dois Hussardos (Dva Gussara) é uma novela escrita por um dos grandes nomes da literatura russa, Lev Tolstói. O célebre autor russo nos apresenta a história de dois hussardos, cavaleiros do Império Russo que se caracterizam pela valentia e também pelas farras que adoram. O primeiro deles é o Conde Turbin, um homem de temperamento forte, viciado em jogos de azar, extremamente rude com os servos e é claro, mulherengo. Contudo, ele é respeitado e amado por todos, principalmente por ser um homem honesto e autêntico.

Aqui acompanhamos as aventuras e desventuras do Conde Turbin que está de passagem por uma província russa onde em breve haveria uma eleição para o representante da nobreza. O grande problema é que assim que chega na província, o Conde é despojado de quase todo dinheiro que carrega consigo, pois um larápio passa a perna nele na estação da cidade. Contudo, Turbin era um jovem famoso e conhecido por ser valente, simpático, um ótimo dançarino e excelente no jogo de carteado, além de outras qualidades, é claro.


Rapidamente o Conde atrai os olhares e atenções dos nobres locais que buscam formas de se aproximar dele, pois muitos queriam se passar por amigos e próximos de Turbin devido a sua fama. Logo em sua primeira noite na província o Conde é convidado para um baile local, mas não é um baile qualquer e sim um promovido por um nobre de respeito e posses. Nesse baile ele exibe algumas de suas qualidades, como a simpatia e o fato de ser um exímio dançarino, o que demonstra dançando habilmente com com muitas mulheres naquela noite.

É nesse baile que Turbin se apaixona por Anna Fiódorovna, uma viuvinha que lhe desperta profundos sentimentos e com quem ele trava uma longa relação através da dança e de suas piadas. Turbin quer todas as atenções dessa viuvinha apenas para si e faz tudo o que está ao seu alcance para atrair a atenção dela e, como o seu tempo na província está por acabar, ele quer ao menos dar um beijo nas mãos dessa mulher por quem se apaixonou.

Com uma quebra na narrativa e passados cerca de 20 anos, descobrimos que o Conde Turbin, famoso e perigoso duelista, morreu justamente em um duelo. Contudo, um segundo Hussardo nos é apresentado e logo descobrimos ser o filho do Conde Turbin. Apesar dos defeitos que Turbin apresentava, o seu filho não possuía as qualidades do pai, pois ele não é um homem generoso e muito menos busca ajudar o próximo, pelo contrário, é aproveitador e egoísta, mas assim como o pai é um hussardo e assim como o pai, apaixonou-se por uma mulher do interior. Contudo, Anna ainda sente que é apaixonada por Turbin, já a mulher por quem o filho de Turbin se apaixonou acabou se afastando dele.

Após seguir os passos do pai na carreira militar, o jovem hussardo passa pela província que o pai esteve cerca de 20 anos atrás e quis o destino que ele conhecesse a viuvinha por quem seu pai se apaixonou, de forma que ela serve para unir as histórias dos dois hussardos.

Opinião: Ler as novelas, contos ou romances de Lev Tolstói é sempre algo prazeroso e aqui não foi diferente. O autor demonstra a sociedade russa do início do século XIX tecendo críticas sociais, mas também demonstrando os contrastes presentes nas duas gerações de hussardos, o que é algo bem interessante. Igualmente interessante é comparar o pai ao filho, onde o primeiro apesar das falhas e não são poucas, demonstra ser um homem generoso e bondoso quando vislumbra situações de injustiças, já o filho é o egoísmo em pessoa.

Dois Hussardos romance pequeno (cerca de 87 páginas) e bem estruturado, os ambientes criados e apresentados por Tolstói são bem reais e ele faz isso de forma elegante e como poucos. Os personagens são únicos e possuem personalidades distintas, isso é algo essencial em um bom enredo. Tanto a criação de bons cenários como personagens me fez ficar hipnotizado e envolvido na leitura. Aliás, no que tange a narrativa os acontecimentos ocorrem em ordem cronológica e com intervalo de 20 anos, bem como são concentrados em poucos dias da vida de seus personagens.

É impressionante que apesar da pouca idade ao escrever essa novela, Tolstói foi magistral ao descrever os usos e costumes daquela época, mas principalmente os atos, atitudes e comportamentos de seus personagens, pois aqui há pessoas que tentam tirar proveito de outras, há personagens que tratam os servos e mesmo seus pares com indiferença ou com ar de superioridade, ou seja, não é de hoje que o ser humano se acha superior ao outro, mas naquele época devido a discrepância econômica era algo mais nítido, pois havia poucos nobres e muitos servos e camponeses. 

Essa discrepância e desigualdade social fica claro quando abordamos os luxos e opulência presente na vida dos nobres e isso nos encontros da nobreza e toda a riqueza dos nobres contrasta com a miséria do restante da população. Aliás, esse contraste nos leva a refletir, pois muitas pessoas naquela época eram julgadas pelas aparências e não pelo o que eram de fato, vide Turbin que tinha todas as portas abertas para si pelo simples fato de ser um Hussardo e um título de Conde. Enquanto isso, vemos ainda que de forma breve, o servo de Turbin levar uma vida simplória, sendo colocado em segundo plano por seu empregador em algumas oportunidades.

Em suma, Tolstói nos apresenta um romance inteligente e envolvente que aborda as desilusões e superficialidades de pessoas pertencentes a uma camada social (nobreza) e que vivia pelas aparências e títulos, sendo que no fundo uns queriam aparecer e ser mais importantes que os outros. Eu recomendo essa leitura para todos que gostam de um clássico, mas principalmente para aqueles que gostam de livros que nos fazem pensar e refletir sobre a desigualdade que existe e sempre existiu entre os homens. Dois Hussardos é uma leitura sensacional!!

Sobre o autor: É considerado um dos maiores escritores de todos os tempos. Além de sua fama como escritor, Tolstoi ficou famoso por tornar-se, na velhice, um pacifista, cujos textos e ideias batiam de frente com as igrejas e governos, pregando uma vida simples e em proximidade à natureza. 

Junto a Fiódor Dostoiévski, Gorki e Tchecov, Tolstói foi um dos grandes da literatura russa do século XIX. Suas obras mais famosas são Guerra e Paz, sobre as campanhas de Napoleão na Rússia, e Anna Karenina, onde denuncia o ambiente hipócrita da época e realiza um dos retratos femininos mais profundos e sugestivos da Literatura. Morreu aos 82 anos, de pneumonia, durante uma fuga de sua casa, buscando viver uma vida simples.

Ficha técnica:
Título: Dois Hussardos (Dva Gussara)
Autor: Lev Tolstói
Tradução: Lucas Simone
Editora: 34
Páginas: 96
Ano: 2020
ISBN: 9786555250343
Onde Comprar: Amazon - 34

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19 Comentários

  1. Não conhecia essa obra de Lev Tolstói e não sabia que ele conhecido como o maior escritor de todos os tempos.Muito boa sua resenha!

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    1. Olá, na verdade ele não é considerado o maior de todos os tempos, o que eu disse que ele é um dos grandes nomes da literatura russa.

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  2. Além do artesanato, ler é algo que adoro. O conteúdo histórico é algo que me fascina, estou relendo David Copperfild,Charles Dickens é fascinante.Sua resenha me inspirou a buscar obras de Tostoi para acrescentar a minha estante.

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  3. Oi Yvens!!

    Nossa, eu lembro até hoje da primeira vez que li Tolstói, ele foi o segundo autor Russo que eu li na vida e nossa, lembro bem do arrebatamento que foi ler algo dele.
    Eu tenho muito carinho pelas obras que li dele, adorei sua resenha, coloquei o livro na wushlist, já preciso!!

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  4. Foi um prazer conhecer Lev Tolstói um dos grandes nomes da literatura russa, essa obra é incrível, muito legal conhecer um pouco mais desse mestre da literatura russa, abraços.

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  5. Gosto de histórias que os ambientes apresentados são bem reais. Achei interessante essa união da história do pai e do filho graças aquela pelo qual o pai foi apaixonado.

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  6. Oi
    É sempre maravilhoso ler a obra de Lev Tolstói 🙂 essa história é otima

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  7. Ainda não li nada do autor, mas está na minha lista de leituras futuras. Eu acredito que seja um trabalho interessante do autor, ainda mais para se analisar a sociedade da época e seus costumes. Lembrei de Austen... gosto dos livros dela justamente por passar essas características das personagens e sociedade da época que se propõe.
    Beijos,
    Paloma Viricio❤️

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  8. Esse livro deve ser muito interessante p mostrar um pouco da história dos personagens e como era essa época na Rússia. Gostei da resenha ... Bjs e sucesso

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  9. Viajei no tempo através da sua resenha. Não conheço a escrita do autor, porém a sua opinião sobre a leitura dessa obra aguçou a minha curiosidade. Quero ler o conto para acompanhar o desfecho do jovem hussardo.

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  10. Se todos dermos uma olhada nos livros Leo Tolstoy, um dos grandes nomes da literatura russa aprenderá muitas coisas, pois quem empreender essa tarefa aparentemente gigantesca certamente colherá os frutos.

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  11. Nunca li nada de Lev Tolstói, como também não sabia que era considerado um dos grandes nomes da literatura russa, e confesso que ao ler tua resenha fiquei bastante curiosa para ler suas obras!

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  12. Lev é maravilhoso e eu adoro sua obra, ainda não tive a oportunidade de ler está mas já muito ouvi falar e parece ser incrível! Amei a resenha, abraços!!

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  13. Oi, Yvens!
    Eu ainda não li nenhum livro dos clássicos russos, não por falta de vontade, porque tenho interesse em alguns, mas porque tenho um pouco medo de ser muito difícil, rsrs.
    Eu não conhecia essa obra do Tolstói, mas fiquei curiosa.
    Bjss

    http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com/2020/10/resenha-golem-o-genio.html

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  14. Tenho algumas obras aqui mas nunca li.
    Tenho medo de não gostar... Rs... Mas sua resenha me deixou mais a vontade para tentar, de arriscar uma leitura de Tolstoi.
    Parabéns pela resenha. Ficou incrível!
    Grande beijo!

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  15. Oi, tudo bem?
    Eu nunca li nada do autor e esse livro especificamente eu nem conhecia. Mas tenho muita vontade de ler algo dele e fiquei realmente curiosa para conhecer esse. Gostei da premissa e principalmente da forma que você falou que ele constrói os personagens. Parece que eles são realmente complexos e interessantes. Além disso, fiquei curiosa para ver como ele abordou a sociedade da época e a desigualdade social.
    Adorei a resenha e vou anotar a dica.
    Beijos!

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  16. Oi. :)
    Já tinha ouvido falar desse autor, mas nunca parei pra ler algo sobre suas publicações.
    Confesso que esse livro despertou minha curiosidade, pois quero saber como se desenrolou o final.
    Adorei sua resenha, parabéns.
    Dica anotada!

    Beijos,
    Manuscrito de Cabeceira

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  17. Olá!

    Eu nunca li nenhum livro do autor, eu havia achado a história um pouco confusa, mas ao saber que é um livro curtinho, talvez eu leria, para saber se o autor faz jus a fama que tem.

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  18. Oi Yvens, tudo bem?
    Ah, estou com uma meta de ler livros clássicos e confesso que os russos sempre me assustaram um pouco. Tenho essa impressão de que são Textos difíceis e bem densos. Mas acho que esse não vai ser tão difícil e gosto quando retravam a sociedade da época.
    beijos.
    cila.

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