[RESENHA #782] OS PORÕES DA ANTÁRTIDA - RAYMUNDO TELES


Sinopse: “Um mundo subglacial e altamente tecnológico, quase um completo desconhecido, reina debaixo de milhões de toneladas de gelo. Um pequeno e próspero reino em uma região desértica da África ocupado por uma miríade de povos e etnias, cujas lendas são repletas de magia e mistério. Uma majestosa caverna milenar na Etiópia, no cimo de montanhas escarpadas e abruptas, onde vive uma estranha comunidade que preserva seus mitos, conhecimento e uma gnose que a difere do mundo tido como civilizado. Na embaixada australiana na Antártida, na Cidade de Cratera Nevada, um velejador se depara com uma série de fatos enigmáticos como o não solucionado sequestro e assassinato de atletas por um feiticeiro do gelo no singular e estranho reino africano, fazendo a ligação entre mundos obscuros em uma trama que vai envolver rainhas, princesas, detetives, bruxos, gigantes e monstros. 

Resenha/Opinião: 2020 não foi fácil para ninguém e nesses tempos de pandemia, quando encontramos algo bom, seja lá o que for, temos que compartilhar com todos. No nosso caso, a literatura é o que nos acalenta, seja em qualquer hora ou circunstancias e Os Porões da Antártida de Raymundo Teles cumpre com louvor o que promete.

É muito bom dizer que nos últimos dois ou três anos, a literatura nacional fora do circuito mainstream, vem ganhando um grande espaço nas estantes dos leitores tupiniquins. Mesmo com a enxurrada quase que diária de lançamentos internacionais de diversas editoras e selos no Brasil, a literatura nacional vem galgando cada vez mais seu lugar no mercado literário, e com muita qualidade.


E são livros como Os Porões da Antártida que iluminam cada vez mais essa estrada tão difícil que os autores da "casa" caminham em cada palavra escrita para nós, os leitores. Dentro do selo Talentos da Literatura Nacional do Grupo Novo Século, Raymundo Teles, encontrou a forma de nos presentear com uma história que mescla ficção científica e fantasia. 

Sizígia é uma turisiana, um gelo como os humanos dizem, faz parte de uma raça extraterreste que chegou na terra e se alojou em Antártida. Donos de uma tecnologia extremamente avançada, depois de alguns anos e alguns desentendimentos, os turisianos fizeram um acordo com os humanos para poderem coexistir na terra, desde que o território gelado fosse supervisionado e cuidado apenas por eles. E assim foi. 

Em uma de suas missões, Sizígia, encontra um humano à beira da morte; Koll Bryan, um australiano que se aventurou com seu veleiro pelas águas geladas daquele lugar, mas o que ele não esperava era uma de muitas tempestades de neve que por pouco não tirou sua vida. Salvo pela extraterreste, começava ali um relacionamento de amor onde as duas partes teriam que aprender um com o outro.

"Resolveu lhe contar algumas propriedades do traje universal; falou da viseira, que além de corrigir o grau funcionava como zoom e lupa, cujo ajuste fazia-se por uma simples ordem mental ou um movimento dos olhos, e também servia como tela do maravilhoso computador que coordenava o restante da vestimenta e todas as demais funções e informações." 

Se do lado humano, Koll, lutava para entender e aceitar os costumes dos gelos, que eram totalmente racionais e não perdiam tempo com qualquer coisa que lhes tirasse a atenção de seus afazeres, como teatro, cinema, livros e coisas banais e comuns para os humanos, do outro lado, Sizígia, começa a entender melhor e até assimilar algumas coisas dos bárbaros, como eram chamados os humanos. Cada gelo tinha seu objetivo e seu dever, que era decidido pelo computador central, que tudo via e tudo registrava e supervisionava. Através de anéis de uma tecnologia inexistente para os humanos, os gelos eram direcionados, controlados e recompensados durante toda a vida deles. Mas um evento que havia acontecido há dez anos, fez com que a credibilidade dos gelos fosse colocada em xeque, pois vidas humanas haviam sido perdidas e até hoje estavam sem a devida justiça.


Não bastasse a interessante e intrigante raça turisiana que vive na Antártida debaixo de toneladas de gelo, mas com um mundo totalmente tecnológico e sustentável, coisa impossível aos humanos, Raymundo ainda nos presenteia com um mundo totalmente diferente do que temos hoje. Nessa bela saga distópica, podemos encontrar o reino de Monde, onde vive a realeza e que são aliados dos gelos. Mas nem tudo são flores. Humanos que são, ou quase isso, eles vivem com suas divisões também, existem os bruxos, magos, tanto do bem quando do mal e nesse quesito, a bruxa-gênia Vuca, é o grande empecilho da rainha Regina, que nada mais é que sua tia. O ódio que a rainha nutre por Vuca nunca vai se extinguir enquanto ela viver, pois foi ela quem matou sua mãe, a grande gênia Facos, que era a rainha da Caverna.  

Não fosse, o bastante, ainda podemos encontrar uma raça de gigantes, os Góis, outra de diabos, diabos anões, ninfas, ciborgues criados com a tecnologia dos turisianos, os Geniacus, gênias e mais. A princípio pode parecer até uma grande salada de mundos, mas Teles soube muito bem como dosar cada tipo de personagem e reino apresentado na trama. Raymundo tem um estilo de escrita muito bom e que nos arrebata logo no começo, pois quando percebemos, queremos saber mais e mais de cada um desses personagens.

"A princesa Echerd de Monde tinha uma história bem diferente de suas duas irmãs, Pilar e Linda, pois fora expulsa do reino quando tinha treze anos de idade pelo próprio pai. O rei, pessoa muito autoritária, não conseguia domá-la, e, em vez de deixar sua educação por conta dos profissionais, preferiu mandá-la para algum outro país." 

A trama principal tem algumas subdivisões que vão sendo esclarecidas durante a leitura, mesclando com subtramas muito bem engendradas e que só enriquecem toda a história. Acostume-se a sair de um ambiente totalmente gelado e tecnológico para outro quente como o diabo e regado a magia e costumes principescos, porém tudo muito, mas muito bem colocado, devido a escrita fluída e aconchegante do autor; mas não se engane achando que Os Porões da Antártida não traz críticas socioeconômicas, pois elas estão lá em abundância e, além de tudo, são severas.

E se você, leitor/leitora, achar que isso é pouco, espere até conhecer nosso planeta irmão na história, o planeta Tera de onde vieram nossos querido gelos e de onde Vuca quer buscar mais poder e uma ligação, até então inédita entre os planetas. Será que vai dar certo? Descubram, pois vale cada centavo seu investido; e não se espantem se ao chegarem ao final dessa belíssima história se pegarem desejando mais, muito mais de tão boa que é a história.


Tenho que dizer que Os Porões da Antártida de Raymundo Teles e publicado pela editora Talentos da Literatura Brasileira do Grupo Novo Século, foi sem dúvida alguma, uma das melhores leituras do ano de 2020. Teles é um escritor de mão cheia e com um conhecimento gigante daquilo que se utilizou dentro de sua história tanto tecnológico quanto biológico. Seu mundo, suas criaturas e personagens são muito bem estruturados e bem embasados biologicamente, por exemplo. 
Fica claro que se você gosta de ficção científica, fantasia e um pouco de maquinações políticas, além de uma pitada de ação e mistério, mundos, criaturas, muita tecnologia e até uma história de amor, assim como eu, vai achar Os Porões da Antártida, I-M-P-E-R-D-Í-V-E-L.

Sobre o autor: Raymundo Teles estudou um pouco de quase tudo, desde engenharia eletônica, ciências da computação, biologia e história. Amante da natureza, aventureiro de caminhadas na floresta e andanças de motocicleta por trilhas e estradas, implementou projetos ambientais para a usina nuclear de Angra, onde trabalhou por muitos anos como supervisor da computação e monitoramento de processos. Mora no Rio de Janeiro, onde trocou a vida rural pela da cidade, e se ocupa com histórias, arte digital e viagens pelo Brasil.

Ficha Técnica:
Título: Os Porões da Antártida
Autor: Raymundo Teles
Editora: Talentos da Literatura Brasileira
Páginas: 456
Ano: 2019
ISBN: 9788542815924

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