[RESENHA #784] ENTREVISTA COM O VAMPIRO - ANNE RICE


Sinopse: Quando Anne Rice começou a escrever um romance sobre vampiros, no final dos anos 60, pensava estar apenas utilizando seu repertório de tradições de Nova Orleans e as histórias de terror vitorianas que lia quando menina. Logo ela percebeu que os personagens que estava criando eram fortes, expressivos, e um canal perfeito para a projeção de suas próprias tragédias e angústias.

Entrevista com o vampiro rapidamente se transformou num dos grandes fenômenos cult de nosso tempo. Mistura equilibrada de elementos góticos com erotismo, de modos modernos com narrativa romântica, de extrema crueldade com paixões arrebatadoras, o livro revela em ritmo febril um mundo de vampiros em permanente dilaceramento interno, empenhados em orgias inconfessáveis de vida e morte.

O romance apresenta o vampiro Lestat, ousado, sedutor, um tanto sórdido, pronto para destruir mitos, nem que para isso desencadeie assassinatos em massa. Prosseguem com Lestat em sua saga, Louis, o "entrevistado" deste primeiro livro, e Armand, seu amigo. O quarto personagem fundamental de Entrevista com o vampiro é uma criação surpreendente de Anne Rice: a vampirazinha Cláudia, mescla de inocência e maldade infantil.

Entrevista com o vampiro não é um livro de terror. É, isto sim, um retrato provocante de uma época de vertiginosa vampirização em todos os meios e sob todas as formas. É também a prova real de que é possível fazer ficção de alta qualidade com qualquer tema, desde que nele se injete o sangue que Anne Rice faz correr nas veias de sua obra de estreia.

Resenha/Opinião: E lá se vão mais de trinta anos, trinta e cinco para ser mais exato, desde a minha primeira leitura de Entrevista com o Vampiro de Anne Rice. Posso dizer que foi exatamente este livro que bateu o martelo definitivo com relação ao meu gosto literário. Anne Rice quebrou barreiras, reinventou um clássico do horror e mostrou que é possível poetizar o sobrenatural e mais especificamente, os vampiros.

Louis de Ponte du Lac tem uma vida desgraçada, vive pelos bares se embebedando, jogando e arrumando encrenca para que alguém possa, finalmente, dar um descanso à sua alma. Ironicamente, pouco tempo antes, Louis era um homem feliz que tinha tudo que um homem desejaria, uma propriedade, dinheiro, cuidava da mãe, de sua irmã e seu amado irmão. Mas o destino quis que as coisas fossem diferentes e num minuto, Louis perde tudo. Sem coragem para dar fim a própria vida, segue noite após noite atrás de alguém com mais coragem que ele. Finalmente, ele encontra, mas não do jeito que esperava.

É nesse ponto que Louis encontra Lestat, um vampiro, que não tem escrúpulos e escolhe suas vítimas de uma forma que lhe traga benefícios, mesmo que seja apenas para saciar sua sede infindável de sangue, mas com Louis, Lestat tinha algo bem claro em mente: sua propriedade e riqueza. Logo Louis descobre que ser um "não-vivo" era mais penoso do que ser um vivo melancólico e arrasado pela vida. Não bastasse ter se transformado em uma criatura da noite que necessita de sangue para viver, não necessariamente humano, ainda tinha que conviver com Lestat em sua propriedade.

"Estava enterrado no cemitério de St. Louis, em Nova Orleans, e fiz tudo para evitar passar por aqueles portões. Mas, mesmo assim, pensava nele constantemente. Bêbado ou sóbrio, via seu corpo apodrecendo no caixão e não  conseguia suportar."


Amor e ódio, mais ódio, diga-se de passagem, era o que Louis sentia com relação ao seu hóspede indesejado. Seus empregados e escravos já estavam notando muitas coisas estranhas com seu patrão e aquele homem estranho. Até que Lestat tira o sossego da propriedade com um ataque na fazenda de Louis e isso faz com que ambos tenham que fugir para a cidade de Nova Orleans, onde as coisas realmente ficam ainda piores.

Não demora muito e Lestat já apronta e transforma uma garotinha em vampira e a leva para morar com eles. Cláudia, de imediato se afeiçoa aos dois vampiros e durante muitos anos vivem juntos. Lestat percebe que Cláudia é muito mais vampira que Louis, pois aceita sua condição e até sente prazer a cada vítima que faz. Porém, com o passar dos anos, sua personalidade vai se consolidando e traz uma profunda insatisfação, pois sabe que vai ter que passar a eternidade em um corpo de criança. 

Louis por outro lado, fica cada vez mais infeliz e introspectivo, o que faz com que Lestat fique furioso com ele, travando diálogos sobre a vida e morte, futuro, vítimas, a infelicidade de Louis, a ferocidade de Lestat e as mudanças de Cláudia, que a cada dia se distancia da criança adorável que era. Sua personalidade vampiresca acaba entrando em atrito com a de Lestat e ela bola um plano que vai mudar totalmente a vida deles. Mais uma vez a morte iria se mostrar de uma forma brutal.


Toda a história de Entrevista com o Vampiro é contada pela perspectiva de Louis, pois nos dias atuais e após vários séculos de infelicidade vampiresca, ele precisa colocar para fora toda a sua experiência e o faz com um jovem reporter que está na busca de uma história interessante. E um encontro em um bar facilita essa necessidade de ambos. Claro que no começo, o jovem reporter acha que Louis está apenas brincando com essa história toda de vampiros, mas aos poucos e com algumas ações de Louis, fica cada vez mais crédulo.

Para que não conhece a escrita de Anne Rice, principalmente em Entrevista com o Vampiro, ela se mostra bem fluida, teológica, quase poética em muitas passagens, pois Rice trouxe uma nova visão do mundo vampírico mostrando que é possível ser passional, ter consciência, amar e ainda assim ser uma criatura das trevas. 

O trato de todos os personagens, muitas vezes, beira o erotismo também, pois o amor entre as criaturas é diferente, já que seus corpos estão mortos, mas suas mentes continuam vivas e em evolução. Por isso, Cláudia fica insatisfeita e furiosa com sua vida, pois sua mente e sua personalidade continuavam a crescer e aprender com os anos. Já Louis, a cada dia ficava mais infeliz com a sua "não-vida" e, assim como antes, não tinha coragem para dar um fim ao seu sofrimento. Então, por séculos ele foi "vivendo" da melhor forma que pode, se alimentando de animais e só em último caso de seres humanos, o que lhe trazia um enorme arrependimento a cada vítima.

"Era um homem. Tinha sua faca de cabo de osso nas mãos, para se defender. E eu a tirei facilmente e a enfiei em seu coração. Caiu de joelhos, os dedos apertando a Lâmina, sangrando. Ver o sangue, sentir seu aroma, me enlouqueceu. Acho que gemi alto. Mas não o agarrei, não poderia."


Os embates filosóficos que Anne proporciona em Entrevista com o Vampiro, dão um "sabor" muito sofisticado para uma história de "horror" [em aspas mesmo, pois não considero Entrevista com o Vampiro uma história de horror e sim um drama com sangue]; pois os questionamentos de vida e morte, amor e ódio estão todos presentes na principal figura de Louis de Pointe du Lac.

Lestat, apesar de ser o personagem mais famoso de Anne, funciona como um contra-argumento a todas as questões filosóficas e teológicas de Louis. Anne o apresenta como um vampiro experiente, mas não tanto, que não se importa com ninguém além de si mesmo. Furioso, vingativo, violento, inteligente e também sensual, Lestat é a figura que predomina em toda a história de Entrevista com o Vampiro e suas várias sequências, diga-se de passagem. Talvez o leitor não sinta adoração por Lestat nesse primeiro "encontro", mas Anne é tão brilhante que de uma certa forma, depois de tudo, o que predomina na mente do leitor é justamente o mais odiado: Lestat.

Louis é um personagem que talvez a maioria das pessoas seriam, se o vampirismo fosse real, pois a imaginação é vasta e uma das coisas que muita gente gostaria de ser é um vampiro. Viver eternamente, conhecer o mundo, não se preocupar com nada além de um "sanguinho" noturno, opa... e é aí que a coisa pegaria, pois vampiros precisam que outros morram todos os dias para que eles sobrevivam pela eternidade e até nesse ponto, Anne, nos mostra que essa questão pode deixar qualquer um louco, até mesmo um vampiro experiente.


Entrevista com o Vampiro ainda nos leva aos confins da Europa, onde lá conhecemos outros vampiros de uma casta mais antiga que seguem regras rígidas e violentas àqueles que não as cumprem. Louis também descobre que pode ser violento e vingativo quando necessário, não que sua consciência lhe deixe em paz depois disso, mas é interessante ver como Anne o faz ser exatamente aquilo que ele nunca quis; como Lestat.

O mundo de As Crônicas Vampirescas de Anne Rice, que se inicia com Entrevista com o Vampiro, é bastante vasto e além disso se entrelaça com a história das Bruxas Mayfair, então o leitor tem que ter um pouco de paciência, pois os embates filosóficos de toda a série, por vezes, podem parecer lentos, mas cada um deles é necessário para se entender, engendrar e amar todos seus personagens vampirescos.

É bem claro para mim que no mundo da literatura fantástica existe o vampiro antes de depois de Entrevista com o Vampiro. Basta seguir as produções literárias, cinematográficas e de outras mídias e notar as mudanças apresentadas por Anne Rice ainda lá nos idos anos 70; e isso perdura até os dias de hoje. Lestat ainda é um dos personagens mais amados e odiados de todos os tempos no mundo vampírico e gótico, um feito que poucos conseguiram até hoje. E que permaneça assim.


A editora Rocco teve a brilhante idea de reformular a edição de Entrevista com o Vampiro e deu uma bela roupagem nela. Capa dura, com uma ilustração muito bem sacada e linda, por sinal, papel amarelado, fonte agradavelmente perfeita e um trabalho editorial de tirar o fôlego. Fico muito contente que a editora tenha resolvido atualizar esse grande clássico da literatura gótica vampírica, dando mais alguns séculos de vida ao que, ao meu ver é uma das melhores histórias de vampiros contemporâneos que existem. Não vou nem dizer que é I.M.P.E.R.D.Í.V.E.L, porque na verdade é O.B.R.I.G.A.T.Ó.R.I.O.
 
Sobre a autora: Howard Allen O’Brien nasceu em 4 de outubro de 1941, na cidade norte-americana de Nova Orleans — cenário de muitas das “crônicas vampirescas” —, e resolveu adotar “Anne” como primeiro nome ao ingressar na escola. O sobrenome Rice veio do marido, seu amor de juventude, o poeta e pintor Stan Rice.

Formada em ciência política e escrita criativa pela San Francisco State University, Anne Rice enveredou pela literatura sobre seres fantásticos, como vampiros, bruxas e afins após perder a filha, Michele, vítima de leucemia, em 1972. Devastada pela perda, Rice escreveu seu primeiro livro, Entrevista com o vampiro, em pouquíssimas semanas. O livro chegou ao público brasileiro pela tradução de ninguém menos que Clarice Lispector.e ganhou uma bem-sucedida adaptação para o cinema, em 1994, com Tom Cruise e Brad Pitt.

Três anos depois da morte do marido, em 2002, a escritora resolveu abandonar o ateísmo e abraçou a fé católica, iniciando uma nova fase em sua vida e carreira, trocando o irresistível vampiro Lestat por Jesus Cristo, anjos e redenção. Não importam as fases e as crises existenciais pelas quais ela passe, a rainha do romance gótico sobrenatural (e sensual) nunca sai de moda.


Ficha Técnica:
Título: Entrevista com o Vampiro
Autora: Anne Rice
Tradução: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 320
Ano: 2020
ISBN: 9788532531834
Onde Comprar: Amazon

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6 Comentários

  1. Amo essa série!!! Foi um dos primeiros livrosque li na adolescência. Engraçado como a gente marca essas experiências.

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    1. Tico, Anne me marcou bastante na minha minha adolescência e foi determinante no meu gosto pelos livros. Costumo dizer que Agatha Christie me faz gostar de ler e Anne Rice me viciou. Abraços.

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  2. Eu sou doido pra ler esse livro! O filme está na lista dos meus preferidos da vida, o livro deve ser melhor ainda!!

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    1. Mas Douglas do céu, se o filme está entre os seu preferidos da vida, então o livro vai ser seu preferido também. Leia e ame-o. Abraços.

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  3. Oi Jeffa, tudo bem?
    Deve ser uma sensação boa poder pegar uma edição nova de um livro querido assim. Nunca li essa obra mas sua resenha despertou meu interesse.
    Beijos

    Quanto Mais Livros Melhor

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    1. Oi, Pri. Tudo bem. Espero que com você também esteja tudo certo. Olha quando soube que a Rocco iria dar uma nova roupagem para Entrevista com o Vampiro fiquei muito animado, pois a gente tinha conseguido a parceria com eles fazia bem pouco tempo. A editora não decepcionou e me deixou muitíssimo feliz de poder reler esse clássico tanto da minha vida como do mundo literário em si. Valeu cada minuto de leitura. Espero que ele seja um preferido seu também num futuro bem próximo. Beijos.

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