[RESENHA #791] O PROCESSO - FRANZ KAFKA


Sinopse: Um dos principais romances de Franz Kafka, O processo foi publicado pela primeira vez em 1925, ano seguinte à morte do autor. A obra foi editada por Max Brod, que foi guardião dos manuscritos do escritor tcheco por intermédio de seu testamento. Neste livro, Kafka lança o leitor mais uma vez em uma realidade absurda, na qual um bancário se vê envolvido em um processo judicial inexplicável. Em seu aniversário de 30 anos, Josef K. é surpreendido por dois guardas logo que acorda. Após os homens tomarem o café que deveria ser dele, comunicam-no que está preso, embora não lhe deem motivo algum para isso. Sem saber quem o denunciou nem o motivo de sua prisão, ele luta contra autoridades que o ameaçam e o chantageiam, embora nunca apresentem o embasamento legal da investigação. O processo, ao lado de A metamorfose, é uma demonstração inequívoca da potência literária de Franz Kafka. Um romance que não soa datado mesmo um século depois de sua publicação original.

Resenha/Opinião: As coisas no mundo "Kafkaniano" são sempre muito interessantes. Mesmo tendo lido apenas dois livros desse autor brilhante, já me tornei fã imediatamente no primeiro livro, que foi, como a maioria, A Metamorfose. Mas se lá, na metamorfose, Kafka se utilizou da metáfora e do fantástico, incluindo altas doses de crítica sócio-econômica-cultural, em O Processo, o autor se utilizou da "culpa sem motivo", da hipocrisia e do autoritarismo, construindo, assim, uma narrativa espetacular.

Trazendo seu principal personagem, Josef K., para uma situação constrangedora, Kafka desconstrói toda a mítica por detrás dos Tribunais da época onde a liberdade era apenas uma ilusão temporária, demonstrando por "a mais b" que qualquer um teria a sua parcela de culpa a ser difundida dentro das páginas de um processo em todo seu extenso, complexo e absurdo Tribunal de Justiça.


K é acusado de algo que nem ele mesmo sabe o motivo e ninguém o informa disso. Através de escusas intermináveis de seus interlocutores, fica sem saber direito o que fazer e com quem falar, porém é nessa hora que ele decide que a única coisa a se fazer efetivamente é apenas ignorar e não dar a devida atenção por uma coisa que, obviamente, só pode ser um grande engano. Uma coisa tão absurda e idiota como a impetração de um processo contra ele, um funcionário e cidadão honesto e cumpridor de todos os seus deveres, não poderia ser nada além de um engano.

Mas as coisas acabam se deteriorando e K. é chamado para sua primeira inquirição perante o Juízo de Direito e daí descobre um labirinto cheio de curvas enganosas, perigosas e corruptas. Aprende que não pode confiar em ninguém, mas acaba se envolvendo com pessoas que não deveria.

"Josef, querido Josef, pense em você, em seus parentes, em nosso bom nome. Você era até agora nosso orgulho, não pode se a nossa vergonha." 

É extremamente interessante acompanhar a história de Josef K. em um mundo onde a individualidade e a liberdade estavam prestes a ser tomadas por causa da guerra. Mas esses sintomas já se espalhavam por várias cidades e países europeus através dos temíveis processos, que poderiam ser impetrados contra qualquer um a qualquer momento e que poderiam durar anos e anos a fio. 

É nesse ponto que Kafka nos apresenta um sistema de justiça totalmente degringolado de razão e capacidade jurídica eficaz. Na verdade não passava de uma simples enrolação até o ato da condenação e retirara de toda a liberdade que o réu, caso não estivesse detido, tivesse ou poderia ter. As instruções eram tão esdrúxulas e ditatoriais que nem poderia se imaginar que aquilo tudo acontecia em um Tribunal, que na verdade não passava de uma sala alugada pelo governo onde se enfurnavam dezenas de pessoas para ouvirem ladainhas jurídicas sem sentido ou simplesmente ficarem esperando ouvirem seus nomes e nada mais.


A crítica ferrenha de Franz Kafka se dá através de seu personagem Josef K., que trata a justiça com arrogância e não dá mais importância do que uma leve dor de estômago em um dia chuvoso. É através de K, que toda a vilania do judiciário daquela época é posta na mesa e vê-se que a maioria das guloseimas estavam mais do que podres. K descobre o sucateamento da Justiça, a relação advogado-cliente e toda a situação caótica em que um réu, diga-se novamente, culpado ou não, tinha que passar para tentar provar que era inocente. 

A humilhação e o medo da descoberta do processo naquela sociedade, foi uma constante em todos os personagens apresentados pelo autor, demonstrando que uma mancha na reputação de qualquer réu nunca seria limpa e a sociedade simplesmente o puniria por isso até o fim de sua vida, além da sentença, claro, que na maioria das vezes chegava de surpresa sem defesa ou qualquer outro ato contraditório do imputado.

"O processo não era outra coisa senão um grande negócio, como aqueles que ele mesmo muitas vezes fechara com vantagem para o banco - um negócio no qual distintos perigos estavam à espreita e precisavam ser repelidos." 

Por essas e outras que Franz Kafka nos apresenta um romance perturbador, claustrofóbico e bastante crítico para uma sociedade que estava prestes a se embrenhar nas consequências terríveis de uma grande guerra mundial. Toda essa "liberdade" que achamos ter é colocada abaixo nesse romance que só prova que a humanidade é a mais cruel e pérfida inimiga da.... humanidade.


Seguindo o modelo tradicional de suas publicações, a editora Edipro, através do selo Via Leitura, nos apresenta mais uma belíssima edição em brochura e com uma capa que demonstra totalmente o caos apresentado na história de Josef K. A edição ainda conta com fontes muito agradáveis e papel pólen [amarelinho]. E como disse antes, não tem como negar que, felizmente, O Processo de Franz Kafka e publicado pela editora Via Leitura é sim, I.M.P.E.R.D.Í.V.EL.


Autor: Franz Kafka lamentou durante toda a vida não ter tido mais tempo para escrever - formado em Direito, trabalhava para uma companhia de seguros. Ainda assim, engloba uma das produções mais influentes da literatura do século XX. Nascido em 03 de julho de 1883, em Praga, parte do Império Austro-Húngaro na época, falava tcheco, mas todos os seus romances e contos foram escritos em alemão, língua materna de sua família. Muitas de suas obras foram publicadas postumamente graças a seu amigo Max Brod, que ignorou o último desejo de Kafka, a destruição de todos os seus manuscritos. Faleceu em 03 de junho de 1924. 

Ficha Técnica:
Título: O Processo
Autor: Franz Kafka
Tradução: Mariana Ribeiro de Souza
Editora: Via Leitura [Edipro]
Páginas: 192
Ano: 2020
ISBN: 9788567097848

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