[RESENHA #793] A REVOLUÇÃO DOS BICHOS - GEORGE ORWELL


Sinopse: Publicado em 1945, A revolução dos bichos alçou o posto de um dos maiores clássicos da literatura moderna e projetou seu autor, George Orwell, como um dos mais influentes da história. Esta é uma fábula atual, que satiriza o totalitarismo, a tirania e a busca pelo poder. Às vésperas de sua morte, o velho porco Major reúne os animais de uma fazenda para compartilhar seu sonho de ver os bichos governando a si próprios, sem a opressão dos homens, em uma sociedade igualitária. Depois da morte de Major, a revolução é instaurada pelos porcos Snowball e Napoleon, mas a utopia não dura muito. Eleito pela revista Time como um dos cem melhores livros já publicados em língua inglesa, A revolução dos bichos é um alerta contra os perigos da corrupção humana até mesmo nos mais bem-intencionados projetos políticos. Após sua publicação, foi interpretado no Ocidente como uma crítica ao comunismo, fato negado pelo próprio Orwell, adepto do socialismo e avesso a manipulações políticas. Mais de sessenta anos depois de escrita, a obra mantém o vigor inabalável de uma alegoria sobre as fraquezas humanas que podem levar à derrocada das grandes revoluções políticas.

Resenha/Opinião: É impressionante o quanto a literatura pode ser impactante na vida dos leitores, pois existem, ou existiram, escritores que fizeram questão de jogar na cara da sociedade a realidade cruel e sem máscaras através dos anos. Talvez, desde a popularização da literatura caindo no gosto do público, sempre existiu e sempre existirá aqueles que fizeram, fazem e irão fazer a diferença nesse mundo imaginário mas que muitas vezes de imaginário nada tem.

Demorou, mas, finalmente conheci a escrita de George Orwell através de uma de suas máximas [sim, tem mais de uma], A Revolução dos Bichos, que foi publicada originalmente em 1945 e que nesse ano de 2021 viu uma enxurrada de publicações pelo fato de ter entrado em domínio público, que pela Convenção de Berna, a qual o Brasil também faz parte, juntamente com o Reino Unido, em janeiro de 2021 completou-se 70 anos da morte do escritor, o que automaticamente coloca toda sua obra em domínio público, como disse acima.

Edições à parte, a editora Edipro nos trouxe um belo exemplar no formato usual do selo Via Leitura, ou seja, brochura, papel pólen, fontes agradáveis e uma capa especialmente linda que capta bem a história da fazenda dos bichos. Além de tudo isso, ainda vem com alguns mimos como marcador de páginas e dois cartões no formato Cartão-Postal com a temática do livro. Mas, será que isso tudo vale o preço? Será que essa história é tão boa quanto dizem que é?


Tendo a premissa dessas duas perguntas, que podem valer para qualquer literatura que nós leitores desejarmos ao longo da nossa vida, a única resposta viável que eu posso dar para ambas é: sim; mas isso pelo meu ponto de vista, que pode ser bastante diferente do seu. Por isso essa resenha pode, talvez, te ajudar a decidir se vale a pena ou não tentar descobrir por si a resposta das duas perguntas acima.

Orwell, nos apresenta em A Revolução dos Bichos, uma distopia que também pode ser encarada como uma fábula metafórica ou uma metáfora "fabulática" [palavra inventada, eihn], onde os bichos de uma fazenda querem mudar a vida que levam quando um dos porcos mais velhos, o major, tem um sonho e acaba o compartilhando com seus companheiros de "cela" da fazenda Solar.

É à partir desse ponto que as coisas começam a mudar na fazenda, pois os bichos, inflamados com o discurso do velho major decidem que as coisas realmente precisavam mudar, pois nada era favorável aos animais; tudo levava ao desconcertante apetite insaciável do ser humano em ter, possuir, comer, matar, bater, destruir e muito mais; e isso já estava na hora de parar.

"Só vou repetir, lembrem-se sempre do seu dever ser inimigo do homem e de tudo o que ele faz. Tudo o que anda em duas pernas é inimigo. Tudo o que anda em quatro pernas ou tem asas é amigo. E lembrem-se também de que, na luta contra o homem, não podemos ficar parecidos com ele." 


E foi assim que aconteceu. Todos os bichos da fazenda Solar se uniram e colocaram pra fora dali os humanos que eram seus donos, os quais deixaram tudo para trás e fugiram com medo da fúria dos animais. Assim que a vitória foi confirmada pelos bichos a alegria tomou conta de todos eles, pois agora estavam livres e tinham toda a fazenda para si mesmos. Agora era a hora de viverem de forma plena e igualitária.

Claro que os animais perceberam que precisariam continuar trabalhando para poderem se alimentar, mas obviamente que agora toda a colheita seria somente deles. Todos concordaram também que os porcos, por serem muito mais inteligentes dentre os animais, deveriam ser os que organizariam toda a fazenda para que da melhor forma possível todos teriam as mesmas condições de vida e para isso, deveriam viver sob suas próprias regras, as quais foram criadas e deveriam ser obedecidas sempre.

Orwell, escancara toda a ideia de revolução por um ideal em comum a uma raça explicitando suas minúcias e demonstrando na prática que com planejamento correto e engajamento, sempre é possível vencer, e assim é mostrada a vitória dos revolucionários da fazenda Solar. O grande problema dessa revolução vitoriosa é como ela deve ser sustentada e é nesse ponto que [me perdoem o trocadilho] a porca torce o rabo, mais exatamente, o porco.


É interessante ver como Orwell fez a correlação humana em cada personagem animal, por exemplo: o cavalo pode representar a classe trabalhadora que tem toda a força e a cada dia tem que trabalhar mais e mais para receber, de uma certa forma, menos ao passar de cada ano. Os felinos podem ser representados como os oportunistas que aparecem sempre na hora exata em que podem receber alguma coisa que queiram ou precisem, entre muitas outras correlações.

Mas, a maior de todas fica por conta dos porcos, que são tidos como os inteligentes e mais racionais do bando; àqueles que sabem fazer as contas e como direcionar cada tarefa e suas recompensas, sejam pra si ou para seus companheiros e essa é uma das demonstrações que mais impressionam em toda a história. 

Juntamente com uma enorme crítica social, Orwell dá um grande tapa na cara nas camadas revolucionárias que se encontram por todo o mundo e isso acontece de uma forma tão clara, explícita e violenta que chega ser inacreditável que A Fazenda dos Bichos foi escrita nos anos 40 e não na atualidade. Aliás, outra coisa a se dizer é que a escrita do autor é extremamente agradável, fluida e te prende do começo ao fim de tão gostosa que é a leitura.


George, demonstra por meio de sua distopia uma história surpreendentemente atual e desconcertante. Uma verdadeira aula de como nem tudo é o que parece e ao mesmo tempo, tudo é mais do mesmo, fazendo com que nós leitores nos identifiquemos ora com uma turma, ora com outra, seja por sermos de uma determinada classe social ou pelo simples fato das enormes similaridades com os tempos em que vivemos nos dias de hoje. É realmente, impressionante a mensagem que o escritor passa para a humanidade através de uma história de animais revolucionários numa fazenda qualquer num lugar qualquer em um tempo qualquer. George Orwell era um visionário e demonstrou aquilo que muita gente sabe mas insiste em não "enxergar": a mudança pode acontecer, mas se você mesmo não mudar, de nada vai adiantar.

"Os quatro porcos ficaram esperando, trêmulos, com a culpa escrita em cada ruga de seus semblantes. Napoleon então os mandou confessar seus crimes. Eram os mesmos quatros porcos que haviam protestado quando Napoleon abolira as reuniões de domingo." 

Leiam A Revolução dos bichos de George Orwell, publicado pela editora Via Leitura e tirem suas próprias conclusões, mas digo com toda a segurança que essa leitura é absolutamente I.M.P.E.R.D.Í.V.EL.


Autor: George Orwell (1903-1950) foi escritor, jornalista e ensaísta político. Nascido na Índia, ainda sob o domínio britânico, cresceu na Inglaterra, no interior de Oxfordshire. Já na infância, compunha poemas e sonhava em tornar-se um escritor famoso. Depois de concluir seus estudos, alistou-se na Polícia Imperial Britânica. Serviu na Birmânia de 1922 a 1927, quando retornou à Inglaterra. Nessa época, decidiu pedir demissão da polícia e dar início à sua carreira de escritor. Entre 1928 e 1929, morou em Paris, período em que escreveu contos e romances que ninguém queria publicar. Ele os destruiu todos na mesma época. Somente a partir de 1934 passou a viver com a renda proporcionada por seus escritos. Filiado ao Partido Operário de Unificação Marxista, lutou na Guerra Civil Espanhola em 1939. Na ocasião, um ferimento a bala danificou suas cordas vocais, prejudicando de modo permanente a sua voz. Morreu em Londres, em 1950, de tuberculose, aos 46 anos de idade.


Ficha Técnica:
Título: A Revolução dos Bichos
Autor: George Orwell
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza
Editora: Via Leitura [Edipro]
Páginas: 96
Ano: 2021
ISBN: 9786587034102

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