[RESENHA #808] FILHOS DE SANGUE E OSSO - TOMI ADEYEMI

 

Sinopse: Zélie Adebola se lembra de quando o solo de Orïsha vibrava com a magia. Queimadores geravam chamas. Mareadores formavam ondas, e a mãe de Zélie, ceifadora, invocava almas. Mas tudo mudou quando a magia desapareceu. Por ordens de um rei cruel, os maji viraram alvo e foram mortos, deixando Zélie sem a mãe e as pessoas sem esperança. Agora Zélie tem uma chance de trazer a magia de volta e atacar a monarquia. Com a ajuda de uma princesa fugitiva, Zélie deve despistar e se livrar do príncipe, que está determinado a erradicar a magia de uma vez por todas. O perigo espreita em Orïsha, onde leopanários-das-neves rondam e espíritos vingativos aguardam nas águas. Apesar disso, a maior ameaça para Zélie pode ser ela mesma, enquanto se esforça para controlar seus poderes ― e seu coração. Filhos de sangue e osso é o primeiro livro da trilogia de fantasia baseada na cultura iorubá O legado de Orïsha e está sendo adaptado para o cinema.

Resenha: Filhos de Sangue e Osso foi publicado originalmente no Brasil em 2018 por meio da Editora e esse é o primeiro volume da trilogia "O legado de Orïsha". Tomi Adeyemi nos leva para o reino de Orïsha (leia-se Orixá) em um continente africano fantástico, esse é um reino que por temer o poder da magia resolveu exterminar tal poder de seus horizontes e isso ocorreu de forma brutal. Contudo, a magia é como a água e o ar, você simplesmente não consegue exterminá-los ou afastá-lo e uma hora tudo pode explodir.

Aqui conhecemos a história e vida de Zélie Adebola, uma órfã que perdeu a sua mãe pelas mãos dos soldados do rei Saran, pois quando percebeu que a magia estava perdendo força, um grande massacre foi ordenado contra todos os maji do reino de Orïsha - pessoas essas que ligadas aos deuses, portanto, pessoas que dominavam a magia. O grande problema é que o massacre ocorrido ceifou a ligação com os deuses e todas as crianças que teriam a incumbência de carregar a magia, apenas são lembranças de um passado. 

Zélie é uma garota marcada pela dor, principalmente por não ter mais a mãe, mas também por relembrar o passado, um período em que as terras de Orïsha vivam em plenitude com a magia. Nessa época os Mareadores formavam as ondas, os Queimadores geravam as chamas e a mãe de Zélie invocava as almas, pois ela era um ceifadora. A dor da garota só aumenta por saber que ela é uma divinal, ou seja, alguém que nasceu para dominar a magia e se tornar um maji.

Apesar de toda a dor e dificuldade que surge em sua vida, Zélie não está sozinha, ela mora com o seu pai e o irmão mais velho, Tzain. Determinada a mudar o seu futuro e também o da sua terra, Zélie é treinada por Mama Agba, uma velha senhora do seu vilarejo que sempre apoiou os divinais e é com ela que a garota domina a arte da luta com bastão. Em paralelo, conhecemos a jovem princesa Amari, filha do Rei Saran. A garota está em luto e sofre porque a sua amiga morreu, aliás, a sua amiga foi assassinada por ser uma divinal e morreu pelas mãos do seu pai, Saran. Desse momento fatídico em diante, Saran muda de comportamento e passa a ser uma jovem rebelde.

Insatisfeita com a política adotada por seu pai, a jovem busca formas de trazer a magia de volta para o seu mundo e ela encontra uma forma quando consegue furtar um pergaminho que foi encontrar pelo exército de Saran, pois aparentemente é possível de trazer a magia de volta ao seu mundo e ela pode ser um fator importante nas políticas e destino do reino de Orïsha. Por fim, temos Inan, irmão de Amari e descendente direto do rei Saran. Inan é o legítimo herdeiro do trono, ele é um jovem que busca seguir os passos do pai e acredita piamente que seu pai é o único capaz de manter o reino seguro. Contudo, o destino prega peças e nem sempre das mais felizes ou seguras, pois a magia começa a manifestar no corpo do jovem príncipe e isso o leva a questionar tudo o que sempre acreditou, mas também temer por seu próprio futuro.

A literatura fantástica é um nicho que tem muitos leitores no Brasil, mas por inúmeros motivos não é um gênero que consegue emplacar best-sellers ou mesmo finalizar algumas das diversas sagas que já foram publicadas e olha que muitas sagas fantásticas já chegaram ao Brasil. Dessa forma eu fico feliz com a investida da Editora Rocco que investe na trilogia "O Legado de Orïsha" de Tomi Adeyemi, primeiro por ser uma trilogia de literatura fantástica, é claro. Contudo, outro aspecto que salta aos olhos é que essa trilogia é ambientada em um continente africano, temos aqui uma alta fantasia e para melhorar o cenário, esse é um livro recheado de mitos e cultura iorubá. Aqui podemos conhecer e acompanhar os costumes, deuses, crenças, mitos e línguas, além é claro, de personagens fortes e personagens negras. Existe uma verdadeira aula sobre a mitologia religiosa africana, o que vem para quebrar barreiras e demonstrar que podemos e devemos explorar a cultura e religião africana, ainda que seja para estudos.

Em "Filhos de Sangue e Osso" temos uma receita clássica que é aproveitada, aliás, que é repetida em muitos livros de literatura fantástica, o que particularmente não me incomoda nem um pouco, mas talvez possa incomodar muitos leitores do gênero: a jornada do herói. O ponto positivo é a história que foi muito bem construída, a narrativa é excepcional e certamente irá envolver muitos leitores, sejam aqueles iniciantes no gênero ou até mesmo os mais cascudos (experientes).

Tomi é magistral ao construir Zélie, pois ela é uma personagem que precisa enfrentar a perda de sua mãe, precisa enfrentar a dor e as dificuldades, bem como os perigos desse mundo onde perseguiram aqueles que dominam a arte da magia. A autora explora muito bem todo o sofrimento apresentado pela protagonista, mas também todo o preconceito inerente ao mundo criado pelo Rei Saran. Outra personagem que merece destaque é Amari, a filha do rei, pois ela foi criada isolada de tudo e não teve qualquer contato com o mundo exterior. Ela simplesmente é ignorante, pois não possui informações sobre como a sua família conquistou o trono e muito menos como o seu pai governa o reino, ou seja, ela está alheia aos acontecimentos mundanos. Ela recebe apenas o afetado de uma criada, um maji.

É interessante o contraponto apresentado pela autora no que tange as realidades de Zélie e Amari, pois elas possuem vidas completamente distintas uma da outra, são mundos completamente diferentes. Contudo, essas diferenças servem para unir os diferentes, pois em nome de uma causa maior as diferenças devem ser deixadas de lado e isso é um ensinamento posto pela autora. Devemos sempre deixar as diferenças de lado para aprendermos, mas também para crescer em vida.

Em Filhos de Sangue e Osso podemos ver o quanto o ser humano pode explorar o próximo, vemos o preconceito contra aqueles que carregam o dom da magia, contra aqueles que possuem a marca dos cabelos brancos, algo que passa a ser uma bandeira para a perseguição. É possível ver como a opressão paira no ar, como a repressão serve para esmagar a minoria ou um grupo de reprimidos, mas esses que são subjugados e oprimidos encontram forças para reagir e lutar contra o sistema. Durante a leitura podemos ver que a dor serve como combustível para superar as dificuldades, assim como a amizade e o amor são aliados para a mudança do mundo.

Em suma, apesar de ser um livro de literatura fantástica, a autora aborda diversos temas como questões políticas, sociais, religiosas e até mesmo filosóficas. Essa é uma leitura que nos faz pensar o quanto a intolerância, o ódio e o preconceito ainda estão presente em nossa sociedade dita "moderna". Pode dizer com tranquilidade que Filhos de Sangue e Osso foi uma das melhores leituras de literatura fantástica que realizei nos últimos anos.

Sobre a autora: Tomi Adeyemi, é uma autora nigeriana-americana e coach de escrita criativa que vive em San Diego, Califórnia. Depois de se graduar com honras em Literatura de língua inglesa pela Universidade de Harvard, estudou mitologia, religião e cultura africana em Salvador, no Brasil. Quando não está trabalhando nos seus romances ou vendo videoclipes da banda BTS, pode ser encontrada postando sobre escrita criativa em tomiadeyemi.com.

Ficha técnica:
Título: Filhos de Sangue e Osso
Autora: Tomi Adeyemi
Tradução: Petê Rissatti
Editora: Rocco
Páginas: 560
Ano: 2018
ISBN: 9788568263716
Onde Comprar: Amazon

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