[RESENHA #809] - CONTOS (QUASE) ESQUECIDOS - MACHADO DE ASSIS

Sinopse: Com frequência, as antologias realizam uma redução imprudente do universo machadiano: os mais de duzentos contos escritos ao longo de cinco décadas de exercício contínuo são congelados num universo de 20, talvez 30 contos. Pelo contrário, esta nova antologia de Contos (Quase) Esquecidos esclarece a obsessão com uma série de temas que estruturam a visão de mundo e moldam os exercícios ficcionais de Machado de Assis. Os contos aqui coligidos elaboram esses tópicos a partir de perspectivas diversas. E, numa espécie de olhar cubista avant la lettre, ora aprofundando análises, ora mudando radicalmente o ponto de vista.

Resenha/Opinião: Contos (Quase) Esquecidos é uma antologia de contos do célebre e cultuado autor nacional Machado de Assis e foi organizada pelo Prof. João Cézar Castro Rocha, o qual assina a nota introdutória da obra. Machado escreveu mais de 200 contos em sua carreira, mas diversos desses contos não ficaram conhecidos, principalmente aqueles que foram escritos antes do autor ser consagrado como romancista de primeira qualidade. Ao todo, João Rocha selecionou 30 contos e os distribuiu em quatro blocos temáticos: Música e Literatura; Política e Escravidão; Desrazão e Filosofia. Confira abaixo alguns contos que selecionei.

O anel de Polícrates: Escrito e publicado em 1882, esse conto foi inspirado pela lenda de Polícrates, um tirano que governou a ilha grega de Samos. A trama gira em torno de Xavier, um típico personagem Machadiano, um homem sonhador e com talentos, mas que não demonstrar possuir qualquer foco para alcançar seus sonhos e objetivos. Esse conto é marcado pela intertextualidade, aqui acompanhamos o relato de um evento particular em que demonstra as limitações da felicidade humana e os caprichos e influência do destino na vida humana.

Um homem célebre: Datado de 1888, aqui conhecemos a vida de Pestana, famoso compositor de polcas que estava profundamente incomodado e frustrado por não conseguir compor músicas clássicas. Apesar de ser admirado e ter o reconhecimento das pessoas e até mesmos sentir-se grato por isso, Pestana sentia-se envergonhado e aborrecido por não conseguir o seu objetivo, pois ele acreditava que através da música clássica seria imortalizado e eternizado. Contudo, ele esquecia que somente quando fazemos as coisas com amor é que seremos imortalizados e jamais esquecidos.


Um erradio: Publicado originalmente em 1894, nesse conto acompanhamos a história e vida de Elisiário, um homem branco vaidoso, pobre e inteligente que era professor de latim e "explicador" de matemática. Elisiário chegou a cursar direito, medicina e engenharia, mas não concluiu nenhum dos três cursos. Elisiário vagava pelas ruas do Rio de Janeiro sem muito destino ou objetivo, pois naquela época havia poucos empregos e os homens sem qualquer emprego ficavam simplesmente andando para cá e para lá.

Elisiário simplesmente não conseguia concluir nenhum dos seus planos e estudo, mas a vida sorriu para ele, pois entra em seu caminho D. Jacinta, filha do Dr. Lousada, um homem de posses. D. Jacinta fica apaixonada pelas ideias e beleza de Elisiário, iludida pela aparência desse homem, ela casa com ele e o incentiva a escrever um romance. Contudo, ele não consegue escrever tal romance, pois ele é fruto de um processo social e cultural erradio, o de pouco trabalho efetivo. Apesar de toda a capacidade e dons que possuía, Elisiário era simplesmente um homem acomodado.

Mariana: Publicado em 1871, temos Macedo narrando essa história. Ele é um homem que regressa da Europa, aliás, ele é um homem fútil, pois ao retornar para a sua cidade ele só percebe as mudanças que ocorreram no plano estrutural, seja o surgimento de novos prédios ou nas movimentações das pessoas na rua. Logo em sua chegada, Macedo marca um almoço com seus amigos de longa data, onde cada um fala sobre a sua vida. Um dos seus amigos é Coutinho, um homem que estava para se casar com Amélia, mas o seu casamento foi anulado. 

Enquanto o casamento ainda estava com data marcada, Mariana, uma mulher negra e escrava que fora criada pela família de Coutinho estava profundamente abatida e triste, pois no fundo ela nutria sentimentos de amor por Coutinho. Será que esse amor impossível vai ganhar força ou será que Mariana vai ter que se contentar em ser uma escrava até o fim dos seus dias?

Três tesouros perdidos: Esse foi o primeiro conto publicado pelo autor e isso ocorreu em 1858 quando ele tinha apenas 19 anos de idade. Aqui acompanhamos o Sr. F., um homem que é traído por sua esposa, Dona E. O Sr. F assume saber a verdade sobre essa traição e a existência de tal amante, ainda que não tenha qualquer meio para comprovar tal alegação. Esse homem que está atrapalhando a sua vida amorosa é conhecido como Sr. X e para se livrar dele o Sr. F oferece uma boa quantia de dinheiro para que ele mude de estado.

A situação que já estava ruim para o protagonista piora quando ele chega em casa e descobre que a sua esposa saiu de casa, ela foi embora com o seu melhor amigo, o Sr. P, ou seja, o protagonista se vê sem o dinheiro que pagou para a pessoa errada e sem a sua esposa.

Esse conto é interessante no sentido que o autor não individualiza os personagens por meio de nomes próprios, mas sim pela função que cada um tem na trama. Esse conto está presente no tema desrazão por tratar de aspectos emocionais, a falta de razão e a irracionalidade de conduta.

Contos (Quase) Esquecidos é um livro maravilhoso, a seleção dos contos foi magistral e muitos deles eu ainda não conhecia ou não estão em outras edições de contos que possuo do Machado de Assis. Essa foi uma leitura prazerosa, pois o autor aborda elementos comportamentais do homem comum daquele tempo, o que é bem interessante, mas também debruça sobre elementos da sociedade do seu tempo como questões de preconceito, econômicas e sociais. A Filocalia está de parabéns pela edição apresentada, é visível o esmero e capricho que empregaram na produção dessa obra. Essa é uma edição em capa dura e conta com sumário, prefácio, posfácio, revisão bibliográfica e ilustrações do Machado de Assis. 

Em suma, é uma boa oportunidade para os leitores revisitarem parte da história do Brasil, mas também se mostra uma excelente oportunidade para conhecemos mais de perto o grande talento do Machado de Assis e as histórias magníficas criadas por ele. Super recomendo a leitura de Contos (Quase) Esquecidos.

Sobre o autor: Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. É amplamente considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos, e sua obra integra o cânone da literatura universal.

Ficha técnica:
Título: Contos (Quase) Esquecidos
Autor: Machado de Assis
Organizador: João Cézar Castro Rocha
Editora: Filocalia (É Realizações)
Páginas: 440
Ano: 2020
ISBN: 9788569677376
Onde Comprar: Amazon - É Realizações

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