[RESENHA #826] CONFISSÃO DE UM ASSASSSINO - JOSEPH ROTH

 
Sinopse: Em um dos restaurantes parisienses preferidos pelos exilados da Revolução Russa de 1917, Golubtchik, um cliente de hábitos soturnos, brinda os últimos frequentadores da noite com uma história mirabolante de desdém, espionagem, traição, amor, despeito e, claro, assassinato. Roth faz uma sedutora e espirituosa incursão no romance noir sem abdicar de elementos tão característicos de sua prosa: o espaço literário no Leste Europeu, os tipos irremediavelmente desajustados, a riqueza de detalhes narrativos e a vulnerabilidade de suas personagens perante a história, a estrutura social e a ameaça do mal.

Resenha/Opinião: Publicado originalmente em 1936 e escrito por Joseph Roth durante o seu exílio em Paris, em "Confissão de um assassino" a narrativa ocorre em uma única noite, basicamente no restaurante russo Tari-Bari, local repleto de emigrantes e expatriados russos, pessoas essas que abandonaram o seu país após a Revolução Russa de 1917. 

Aqui acompanhamos Semion Semionovich Golubtchik, um ex-integrante da polícia secreta russa Orkhrana que revisita suas memórias. Golubtchik é um homem que está perdido em um turbilhão de paixão e desespero. Golubtchik (apelido russo pejorativo que significa pombinho) conta que possui o sangue da linhagem real e afirma possuir o nome do príncipe Krapotkin, de quem ele jura ser filho. Contudo, o antigo integrante da Okhrana conta que foi criado como um filho bastado por sua mãe camponesa e seu pai de criação, um ex-guarda floresta. Aliás, a sua mãe possuía uma beleza ímpar, motivo esse que chamou atenção do príncipe sedutor.


A impossibilidade de carregar o nome do príncipe, seja em documentos ou de forma pública, mexeu profundamente com Golubtchik, que passou a nutrir um ódio profundo por seu pai biológico. Desde o momento que tomou conhecimento da sua linhagem, Semion Semionovich Golubtchik iniciou uma jornada em busca do reconhecimento da paternidade, bem como de todos os direitos passíveis de serem reconhecidos por ser filho do príncipe. 

O grande problema nessa busca é que em determinado momento, Golubchik foi ameaçado por seu pai biológico e é justamente por isso que ele ingressa na Okhrana, a famosa polícia secreta do Czar. Esse ingresso foi motivado mais por um sentindo de ódio e vingança, pois ele queria ficar sabendo de tudo que estava acontecendo com a família real. Aliás, em certo momento Golubchik afirma que a vida política e pública não são nada mais do que o resultado de paixões privadas e elas se confundem.


No período em que esteva na Orkhrana, surge no caminho do jovem bastardo uma modelo parisiense que está em São Petersburgo na companhia do estilista francês Chabron, trata-se de Letícia. A modelo foi na cidade para apresentar as novas criações do estilista à alta sociedade russa. Simeon Semionovich Golubtchik ao conhecer Letícia fica perdidamente apaixonado, mas esse amor acaba se tornando em um misto de amor com desprezo, bem como desejo e amargura.

Diante dos infortúnios e amarguras da vida, Golubtchik busca o caminho da redenção, mas ele sempre encontra obstáculos e barreiras. Golubtchuk é obrigado em alguns momentos a tomar alguns desvios e isso acaba levando-o para um caminho que o impede de progredir nessa redenção como homem ou pelo menos serve como algum tipo de atraso. É em um desses caminhos inesperados que ele encontra Lákatos, um amigo que somente surge em sua vida para o desencaminhar. Golubtchik segue firme no propósito de conquistar a redenção mesmo diante dessas idas e vindas ou aventuras e desventuras.

Esse foi o meu primeiro contato com a escrita de Joseph Roth e rapidamente o autor me conquistou, pois a sua escrita é clara e lúcida, mas também dotada inteligência e sagacidade, ou seja, é difícil não ficar admirado por sua profundidade, elegância e capacidade de escrita. O autor aborda em seu livro o quão profunda e complexa é a identidade do ser humano, ao mesmo tempo demonstra a luta pelo reconhecimento de um filho que foi considerado como bastardo e a sua busca pela redenção. 


É interessante conferir algumas peculiaridades do regime czarista presente na trama como a burocracia, a alta sociedade ou nobreza russa, mas também o sistema de espionagem russo. Fica claro, ao menos me leva crer que o autor teve entre as suas inspirações como escritor o célebre autor russo Fiódor Dostoiévski, pois Joseph Roth trabalha o aspecto humano de forma intensa, ele explora a natureza humana como uma dramaticidade ímpar. É magistral como o autor trabalha o amor, o ódio, a justiça, ambição, egoísmo e até mesmo a loucura.

Roth apresenta um enredo profundamente descritivo e minucioso, isso em momento algum me incomodou, mas talvez possa incomodar aqueles leitores que não estejam acostumados com enredos mais descritivos. Em suma, eu adorei ler "Confissão de um assassino" e recomendo para todos que queiram desbravar a literatura europeia. Deixo meus parabéns para a editora Mundaréu que está publicando livros inéditos no Brasil.


Sobre o autor: Roth nasceu em Brody, cidadezinha na Galícia, então leste do Império Austro-Húngaro e hoje dividida entre Ucrânia e Polônia. Em 1916, abandonou seus estudos na Universidade de Viena para servir o exército austríaco na Primeira Guerra Mundial.

Após o fim da guerra, trabalhou como jornalista em Viena, Berlin (foi colaborador do notável Frankfurter Zeitung entre 1923 e 1932) e Paris, para onde foi em razão da tomada do poder pelos nazistas na Alemanha, em 1933. Paralelamente à atividade de jornalista, escreveu romances, peças, novelas e contos, como Jó – Romance de um homem simples (Companhia das Letras), Hotel Savoy e A lenda do santo beberrão (os dois últimos publicados pela Estação Liberdade).

Viveu seus últimos anos em Paris, com dificuldades financeiras e sofrendo de problemas de saúde e de grande nostalgia. Morreu pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, depois de um colapso ao saber do suicídio de um amigo, o dramaturgo alemão Ernst Toller, exilado em Nova Iorque.

A Mundaréu publicou sua obra-prima Marcha de Radetzky, seu ensaio Judeus em exílio, o romance Confissão de um assassino – narrada em uma noite e a crônica “Um apolítico vai ao Reichstag” (texto complementar à edição de Uma juventude na Alemanha, de Ernst Toller).

Ficha técnica:
Título: Confissão de um assassino
Autor: Joseph Roth
Tradução: Marcus Tulius Francos Morais
Editora: Mundaréu
Páginas: 160
Ano: 2020
ISBN: 9786587955001
Onde comprar: Amazon - Mundaréu

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