[RESENHA #831] VÍRUS E LEVIATÃ - ALDO MARIA VALLI

 

Sinopse: No verão de 2020, após o primeiro lockdown, quando a primeira grande emergência estava passando, o jornalista italiano Aldo Maria Valli sentiu a necessidade de uma reflexão séria sobre o que havia acontecido nos meses terríveis que abalaram a Itália. As conclusões não são reconfortantes.

Resenha/Opinião: Publicado em 2021 pela Editora Danúbio, Vírus e Leviatã foi escrito pelo jornalista italiano Aldo Maria Valli. Dividido em 9 (nove) capítulos, o livro apresenta uma visão sobre as transformações ocasionadas com o advento da pandemia desde o ano de 2020, principalmente aquelas ligadas ao campo da filosofia política. A primeira das grandes mudanças foi justamente no aspecto político no Estado, no caso apresentado em questão, da Itália. Diante do caos, o país teve que deixar de lado o parlamentarismo, ainda que provisoriamente e o país passou a ser governado através de decretos da Presidência do Conselho, pois medidas céleres deveriam ser adotadas em face de uma crise inesperada, era necessário haver um controle social, justamente para evitar o caos.

O grande problema é que com o controle social, as liberdades individuais e coletivas foram cerceadas ou abolidas, mas ainda assim, essa medidas foram aceitas de bom grado pela população italiana e da maioria dos países no globo. Todavia, esse avanço que não deixa de ser autoritário no campo da política, ainda que por necessidade, ocorreu de forma muito rápida e sem qualquer tipo de resistência ou fiscalização.

Essa aceitação leva a questionar se tais medidas podem ocorrer novamente sob o pretexto de um protocolo sanitário, com o intuito de preservar a saúde da população para que regimes autoritários sejam implantados. Aliás, o quão perigoso seria o surgimento de um governo autoritário através de uma pandemia ou do caos? O que impediria de usarem como desculpas algum problema relacionado à saúde pública para que políticas nefastas sejam adotadas?

É interessante um argumento do autor que até mesmo a Igreja Católica aceitou de bom grado tais limitações, não houve por parte do papa e de seus subordinados qualquer movimento contra essas limitações sociais, nem ao menos apelaram aos princípios consolidados da Libertas Ecclesiae. Pelo contrário, muitos padres e pastores demonstraram apoio aos posicionamentos governamentais e pareciam estar interessados a fazer parte do Estado, em deter o poder civil. O direito ao culto, mesmo com possíveis restrições simplesmente foi violado. A liberdade religiosa foi atacada.


Aldo deixa claro que a utilização dos decretos emergências é uma forma para o despotismo estatista. Aliás, quanto mais a população e opinião pública é dominada pelo medo, mais está propensa ao controle. Outro grande problema que ocorreu e ainda ocorre em plena pandemia é a disseminação de notícias falsas, o que serve para desorientar o cidadão. É nesse momento que surge o governo para o autor, que se aproveita do momento para ditar o que é verdade e o que é mentira, caracterizando tal comportamento como uma das formas possíveis de despotismo.

Vírus e Leviatã é uma leitura interessante e necessária para compreender melhor o momento que vivemos sob o prisma da filosofia política, pois o autor tece críticas e análises sob o aspecto comportamental dos políticos e dos governos, o quanto eles se aproveitam do medo da população para realizar o controle sobre a sociedade, mas também para ditar normas de convivência, o que podemos fazer ou não. 

Fica claro ao meu ver que a mídia tem uma forte influência na construção do nosso medo e principalmente na construção da psicose do indivíduo em face de uma doença severa, mas que foi superdimensionada, digo isso com base em outras pandemias que já ocorreram na história da humanidade, épocas em que o ser humano não tinha o mesmo acesso que tem hoje aos hospitais, medicamentos e tratamentos. Aliás, o medo da morte inclusive serviu para que governos sucumbissem à narrativa terrorista ou mesmo para a imposição do confinamento. O grande problema é que esse confinamento serviu para que economias deteriorassem profundamente e com isso o desemprego atingiu níveis jamais imaginados.


Durante a leitura há outros questionamentos interessantes e entre eles as ideias de distanciamento social, utilização de máscaras e luvas. Eu particularmente sou favorável a utilização de equipamentos que nos projeta, bem como sou favorável ao distanciamento social. Contudo, tais diretrizes não podem deixar de serem vistas pelo aspecto dogmático. São com os dogmas que o ser humano é preenchido com ideias e crenças alheias e isso restringe a nossa liberdade de escolha, nos sobrecarrega.

Em suma, Vírus e Leviatã é um livro curto, mas ele engana pelo tamanho que apresenta, pois o autor nos apresenta uma obra extremamente crítica e questionadora, nos leva a refletir sobre aspectos políticos e sociais, bem como nos demonstra que a pandemia nos trouxe sérias restrições no que tange a nossa liberdade de escolha, ao nosso ir e vir.


Sobre o autor: ldo Maria Valli é um jornalista italiano nascido em 1958. Graduado em Ciências Políticas pela Università Cattolica del Sacro Cuore, de Milão. Trabalhou em diversos veículos de comunicação, com destaque para a revista Ares, o jornal Avvenire e a emissora de televisão RAI. Desde 1996 atua como vaticanista no telejornal TG3, em Roma. Acompanhou o papa João Paulo II em mais de 40 viagens internacionais. Escreveu diversos livros sobre política, religião e jornalismo. Mantém o blog Duc in altum.

Ficha técnica:
Título:
Vírus e Leviatã
Autor: Aldo Maria Valli
Tradução: Diogo Fontana
Editora: Danúbio
Páginas: 96
Ano: 2021
ISBN: 9788567248072
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