[RESENHA #838] O DIABO MESQUINHO - FIÓDOR SOLOGUB

 

Sinopse: O romance O Diabo Mesquinho, de Fiódor Sologub (1863-1927), escrito na passagem do século XIX para o XX, foi traduzido diretamente do russo, numa publicação inédita no Brasil. A obra conta as peripécias de Ardalión Boríssytch Peredónov, um professor do ginásio de uma pequena província russa do fim do século XIX, que busca uma esposa para alcançar o sonhado posto de inspetor. Numa série de intrigas e confusões, alimentadas por seus incorrigíveis circunvizinhos, o maldoso Peredónov passa a ser assaltado por estranhas alucinações, como a nedotykomka, que culminam num inexorável processo de loucura. Num enredo paralelo, mas que se mistura às diversas tramas e intrigas, temos o caso de amor da alegre Ludmila e o belo ginasiano Sacha, que conhece com ela as marcas ambíguas dos seus primeiros desejos. Peredónov, expressão máxima de uma sociedade mesquinha e decaída, tornou-se personagem tão marcante na sua época que seu nome passou a ser usado para caracterizar certos comportamentos egoístas e insensíveis, algo como Oblómov, do homônimo romance de Gontcharóv. As situações de O Diabo Mesquinho, escrito por Sologub durante dez anos (1892-1902), beiram o nonsense e tocam, ao mesmo tempo, em questões cheias de concretude e violência, relacionadas ao poder, à autoridade, ao funcionalismo público etc., sempre permeadas por flechadas irônicas, pessimistas e destituídas de psicologismos. A escrita pessimista de Fiódor Sologub, influenciada tanto pela narrativa de Cervantes (D.Quixote era seu livro de cabeceira) e pelo idealismo de Schopenhauer como pelo riso de Gógol e pelas questões de moralidade de Dostoiévski, mostra-nos um mundo no qual não há mais espaço para os ideais de perfeição, amor e beleza.

Resenha/Opinião: Escrito pelo autor russo Fiódor Sologub (1863-1927) e publicado no início do século passado, "O diabo mesquinho" é um livro que foi elaborado, polido e revisto durante dez anos pelo autor, mais especificamente entre os anos de 1892 e 1902. O livro foi traduzido e publicado no Brasil em 2008 por meio da Editora Kalinka.

Em "O diabo mesquinho" acompanhamos a vida de Ardalión Boríssytich Peredónov, um homem de origem humilde que trabalha como professor de ginásio  em uma cidadezinha no interior da Rússia. Peredónov é um homem interesseiro, rude, mal educado, prepotente e mulherengo. Apesar de levar uma vida relativamente boa para os padrões de sua época, ele deseja melhorar de vida, deseja ter um status social ainda melhor do que já possui e por isso almeja o cargo de inspetor da escola/ginásio. 

É nesse momento que Peredónov encontra dificuldades para conseguir o cargo que deseja, pois ele não possui qualidades e muito menos influência para tanto, o único modo claro que encontrou para conseguir o cargo que tanto almeja é se casando com Varvara Dmítrievna, sua prima de segundo grau. Varvara está sob a proteção da princesa local, uma mulher influente que para ver a sua protegida casada, faz uma promessa, quando a sua protegida estiver casada com Peredónov, este terá o cargo de inspetor.


O grande problema é que Peredónov quer o cargo de inspetor antes de casar com Varvara, pois na realidade ele não quer se casar com ela, tendo em vista que ela é uma mulher madura e nada atraente. Com o decorrer do tempo, Peredónov apresenta cada vez mais dúvidas sobre o seu futuro, ele não sabe se casa com Varvara para conseguir o tão almejado cargo, se fica solteiro ou se casa com algumas das pretendentes que surgem no seu caminho, pois elas são mais bonitas que Varvara.

Peredónov é um bom partido e bem visto na cidade em que mora, por isso ele é cobiçado pelas mulheres da sua cidade e por diversas famílias. As pessoas se aproximam de Peredónov para arranjar um casamento e ele passa a desconfiar de tudo e todos que querem lhe agradar ou simplesmente fazer uma cortesia, chegando ao ponto de desconfiar que querem envenená-lo por meio de um simples de chá. Enquanto Peredónov está com dúvidas sobre qual decisão tomar para o seu futuro, nós acompanhamos o cotidiano de uma cidade pacata, mas repleta de bajuladores.


Há algum tempo procuro me aprofundar na literatura russa, pois seus autores tecem diversas críticas sociais, mas também trabalham profundamente o psicológico dos personagens, isso fica claro por exemplo nos textos de Dostoiévski, Gogol, Tchekov, Tolstói, Bulgákova e tantos outros. Fiódor Sologub não fica para trás, pois ele apresenta um protagonista que aos poucos desenvolve uma paranoia e vai enlouquecendo, tendo em vista que ele desconfia de todos, mas também é acometido por algumas estranhas alucinações e para piorar toda a situação, ele se mostrar capaz de praticar atos rudes e insanos.

Peredónov conseguiu despertar vários sentimentos em mim, pois eu vi ele como o ser odioso, tendo em vista que demonstra ser uma figura oportunista, mas também senti pena e compaixão dele por sua condição psicológica, a bem da verdade é que ele demonstra ser uma figura completamente perturbada.


Fiódor Sologub aborda em seu romance um tema que até certo ponto é recorrente na literatura russa, a questão do status social, a busca incessável por um cargo que dê poder, respeito e condição financeira invejável. Aliás, na Rússia do século XIX e início do século XX era através dos cargos públicos que as pessoas conseguiam ter uma certa independência financeira. Contudo, esse funcionários públicos eram seguidos, bajulados e viviam cercados por inúmeras pessoas, em sua maioria falsas.

Os diálogos entre os personagens são rápidos e divertidos, há momentos hilários. Fiódor merece elogios pelos personagens apresentados, pois possuem personalidades próprias. Em certo ponto, Fiódor Sologub me faz lembrar Dostoiévski, pois ele apresenta situações grotescas, mas também sabe trabalhar como poucos a psicologia humana. Apesar de abordar temas delicados como a loucura e paranoia, o autor nos apresenta um enredo fascinante, pois há espaço para as críticas sociais e comportamentais, isso fica claro nas relações interpessoais que são permeadas de falsidades, intrigas e interesses pessoais. 

Fiódor faz uso da sátira (ironias), apresenta um humor ácido e isso me agrada bastante. Esse é um livro que pega o período da transição do realismo para o simbolismo, este último um movimento artístico do início do século XX. Em suma, "O diabo mesquinho" é um romance imperdível, recomendo para todos que gostam de literatura russa ou que apenas querem ler um livro de ótima qualidade.


Sobre o autor: Fiódor Sologub (1963–1927) foi um dos nomes mais representativos do simbolismo russo, que floresceu no início do século XX. Às vésperas das revoluções de 1905 e 1917, o momento simbolista, no qual o apuro na linguagem se fez tão presente em construções sapientemente elaboradas como às da escrita de Sologub, preparou o advento de novos caminhos estéticos na arte russa.

Ficha técnica:
Título: O diabo mesquinho (Mielkii Bes)
Autor: Fiódor Sologub
Tradução: Moissei Mountain
Editora: Kalinka
Páginas: 396
Ano: 2008
ISBN: 9788561096007
Onde comprar:  Amazon - Kalinka

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