[RESENHA #863] BLUES - R. CRUMB


Sinopse: Blues, de Robert Crumb, é uma celebração da beleza de uma arte popular sufocada sob os golpes da tecnologia e das modas.

Por suas páginas passeiam Charley Patton, Robert Johnson, Jelly Roll Morton, Bessie Smith e outros músicos hoje esquecidos, mas também B.B. King, Janis Joplin, Jimi Hendrix e James Brown, em histórias em quadrinhos, cartazes, capas de discos, ilustrações e anúncios que o quadrinista fez nos últimos 50 anos. Grande especialista em blues e música popular (não industrial), colecionador de discos raros, Crumb é, ele próprio, um talentoso músico.

Resenha/Opinião: Eu tive um contato prévio com o trabalho do Robert Crumb alguns anos atrás e apesar de breve eu fiquei fascinado com ironia e prosa que ele emprega em suas histórias. Outros fatos que me chamaram atenção nesse breve contato foram os traços, algo que remonta aos cartoons das décadas de 30 até 50. Diante desse meu fascínio eu não pensei duas vezes em ler Blues", quadrinho que foi publicado pela editora Veneta nesse ano de 2021. Ah, para quem não sabe, Robert Crumb é um dos grandes nomes do movimento underground norte-americano e sempre apreciou a música negra, especialmente o Blues.

A hq começa com uma história chamada Patton, não é sobre o grande general americano da Segunda Guerra Mundial, mas Charley Patton (acima citado) e aqui conhecemos como foi a sua vida como músico, sendo ele um dos precursores do blues raiz, mas também conhecemos o próprio desenvolvimento do blues em um período que antecedeu a indústria fonográfica.


Uma das histórias é baseada na música My Guy (Meu cara) que fez sucesso no início dos anos de 1960. Aqui temos uma mulher que é perdidamente apaixonada  por um homem que ela chama de "meu cara", ele é tão precioso para ela que o amor parece ser doentio. Temos uma breve história chamada Purple Haze (Névoa Púrpura) e acredito que muitos já sabem que na verdade é a famosa música de Jimmy Hendrix, aqui o protagonista é ninguém mais, ninguém menos do que Hendrix. Trata-se de uma história psicodélica, Hendrix simplesmente não tem certeza sobre as coisas que estão ao seu redor, não sabe se é noite ou dia, se está feliz ou sofrendo, só sabemos que ele está cantando enquanto sob o efeito de alguma droga alucinógena.

Robert Crumb nos traz uma grande história e mistério sobre o blues, pois ele nos apresenta a lenda sobre o pacto feito com o diabo pelo músico Robert Johnson, pois é dito que ele era um péssimo músico, foi ridicularizado pelo seu modo de tocar e ficou sumido durante algum tempo. Contudo, quando ele reapareceu tornou-se um grande músico e fez um enorme sucesso, algo que era considerado inexplicável.


Outra história que quero destacar trata-se de "É a vida" e aqui acompanhamos a trajetória de Tommy Grady durante a sua vida e até mesmo o após a sua morte. Tommy estava sempre acompanhado de seu violão e treinava constantemente, mas ele vivia bebendo, algo que influenciava nas brigas com sua mulher. Em determinado momento, Tommy encontra dois amigos que estão indo para Memphis, pois eles vão gravar algumas músicas nessa cidade e Tommy acaba fazendo companhia aos dois, pois não tinha nada melhor para fazer e consegue até mesmo gravar uma música em Memphis. Essa história é muito interessante, pois percebemos que empresários viajavam pelo interior dos EUA nos anos de 1930 para descobrir novos talentos do blues, esse tipo de procedimento ficou conhecido como estúdio de gravação de campo.

Crumb nos apresenta em "Blues" uma coletânea de histórias que estão ligadas diretamente ao universo da música, ele fala um pouco sobre a música country, mas o foco é o Blues. Ao longo da leitura nos deparamos com histórias e narrativas sobre a vida de músicos como Charley Patton, Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Jelly Roll Morton e até mesmo B. B. King aparece. Durante a leitura fica claro que Crumb defende a superioridade do Blues sobre a música moderna e ele vai além, pois considera o Blues como a música verdadeira, isso não me incomodou, mas pode incomodar alguns leitores que amam outros gêneros musicais.

Outro aspecto bem positivo sobre o quadrinho e as histórias é que Crumb diferencia as sensações e o apreço pelas músicas através dos personagens, nos faz fantasiar e imaginar alguns momentos marcantes do Blues e dos grandes músicos que construíram esse gênero musical. Blues tem histórias marcantes e outras não tão relevantes, mas isso é algo normal e aceitável, tendo em vista que Crumb nos apresenta diversas histórias e o que não foi relevante ou marcante ao meu ver poderá marcar outros leitores.


Sobre o autor: Robert Crumb nasceu na Filadelfia em agosto de 1943. É um dos principais nomes da contracultura, e hoje o mais importante quadrinista do Ocidente. Sua influência foi definitiva no trabalho de autores tão diversos como Moebius, Andrea Pazienza, Alan Moore, Daniel Clowes, Chris Ware e os irmãos Hernandez. Seu gibi Zap Comix é o marco fundador dos quadrinhos underground. E mesmo o mundo das artes plásticas o celebra como um dos mais importantes artistas do nosso tempo. Crumb teve seus trabalhos exibidos em alguns dos principais museus do mundo, como o Centro George Pompidou em Paris e a Bienal de Veneza. Seu original para a capa da antologia do Fritz the Cat foi vendido, em um leilão realizado em 2017, por 717 mil dólares, o valor mais alto atingido até hoje por uma peça de quadrinhos norte-americana.

Ficha técnica:
Título: Blues
Autor/Quadrinista: R. Crumb
Tradutor: Daniel Galera, Rogério de Campos
Editora: Veneta
Páginas: 100
Ano: 2021
ISBN: 9788576164272
Onde comprar: Amazon - Veneta

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