[RESENHA #886] O ÚLTIMO DUELO - ERIC JAGER


Sinopse: No século XIV, em plena Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra, Jean de Carrouges, um cavaleiro normando recém-chegado das batalhas na Escócia, volta para casa e se depara com mais uma ameaça mortal. Sua esposa, Marguerite, acusa o escudeiro Jacques Le Gris ― um velho amigo e companheiro de corte do cavaleiro ― de estupro. Sem saída após Carrouges fazer um apelo formal, o tribunal decreta a realização de um julgamento por combate, o que também coloca o destino de Marguerite à prova. Se seu marido perder o duelo, ela será sentenciada à morte por falso testemunho.

Enquanto tropas inimigas pilham o país, a loucura ronda a corte francesa, exércitos islâmicos ameaçam o cristianismo e pragas ceifam a vida de muitos, Carrouges e Le Gris se encontram equipados com suas armaduras em um monastério parisiense, alguns dias depois do Natal, em 1386. O que se segue é o último duelo autorizado pelo Parlamento de Paris, uma luta feroz com lanças, espadas e adagas ― diante de uma multidão que incluía o próprio rei Carlos VI, entre outros membros da nobreza ― que termina com os dois combatentes feridos, mas apenas um fatalmente.

Baseado em ampla pesquisa realizada na Normandia e em Paris, O último duelo é o retrato vívido de uma era turbulenta e de três personagens inesquecíveis presos em um triângulo fatal de crime, escândalo e vingança. Uma narrativa sobre um drama humano comovente, a história real de um delito terrível e um trabalho envolvente sobre intriga histórica cujos temas, mesmo séculos mais tarde, ainda ecoam com força, tanto que baseou a superprodução homônima de Ridley Scott para o cinema, estrelada por Jodie Comer, Ben Affleck, Matt Damon e Adam Driver. 

Resenha/Opinião: Publicado originalmente em 2004, O último duelo recebeu uma nova edição, agora pela Editora Intrínseca. Para quem não sabe, o livro foi escrito por Eric Jager, professor universitário, crítico literário e especialista em literatura medieval. Esse livro é um resgate histórico de um fato que marcou a França e fala sobre um duelo que ocorreu em plena Guerra dos Cem Anos, mais especificamente no ano de 1386. Esse foi O último duelo legalizado que ocorreu em terras francesas, tendo em vista que foi reconhecido pelas autoridades legais, bem como pelo próprio rei da França, Carlos VI.

A história apresentada por Jager se passa nas últimas décadas do século XIV, digo últimas décadas, pois é necessários voltar alguns anos e décadas antes do ano de 1386 para entendermos melhor a relação entre o cavaleiro Jean de Carrouges e o escudeiro Jacques Le Gris, mas também para conhecer a história de ambos e suas linhagens. Carrouges e Le Gris eram amigos de longa data, tamanha era a intimidade e amizade entre eles que Jean de Carrouges convidou Le Gris para ser padrinho de seu filho, convite esse que foi prontamente aceito, tendo em vista que essa era uma posição de honraria e confiança. Contudo, não tardou para a má sorte recair sobre a vida de Jean, pois ele perdeu o filho e se tornou viúvo.

Mesmo diante de toda perda e dor a amizade entre Jean e Jacques permaneceu inabalável, mas essa amizade estava com os dias contados, pois Jean tinha um temperamento difícil, ao menos essa era a impressão que passava. Por outro lado, tal temperamento foi atiçado quando o Conde Pierre d'Alençon passou a conceder benesses ao escudeiro, Jacques Le Gris. Essas atitudes do conde serviram como uma afronta ao cavaleiro Jean, pois ele entendi que era a pessoa de direito e fato a receber tais agrados e benesses, tendo em vista a sua superioridade na sociedade feudal francesa em relação ao escudeiro.


Diante dos favorecimentos, Jean passou a ficar enciumado e a sua amizade com Jacques foi esfriando com o passar do tempo. Em determinados momentos o cavaleiro procurou o próprio Conde com o objetivo de obter justiça, mas foi tudo em vão, pois o Conde já tinha eleito o seu favorito, Le Gris. Diante dos insucessos, Jean não perdia uma oportunidade de lutar pela França, seja em território francês ou mesmo estrangeiro, pois ele queria juntar uma grande fortuna através da guerra, ele queria ser reconhecido como um grande guerreiro. O fato era que Jean nunca conseguiu obter riquezas através da espada, mas conseguiu ser reconhecido como um grande guerreiro. Contudo, tal fama não foi suficiente para que o Conde concedesse as terras que tanto almejava.

Enquanto recebia as negativas do Conde Pierre d'Alençon, Jean de Carrouges casou-se novamente e agora Marguerite de Thibouville, filha de Robert de Thibouville, um importante nobre francês. Esse nobre tinha um histórico obscuro, pois em determinado momento ele apoiou a Inglaterra durante a Guerra dos Cem Anos, mas tal apoio e passado não foi um impeditivo para Jean, pois o Robert foi perdoado pelo rei e passou a apoiar a França. Contudo, o real interesse de Jean eram as riquezas e terras que poderia obter com o casamento. Todavia, a terra que ele mais desejava acabou caindo nas mãos de Jacques e isso o enfureceu profundamente.

A amizade entre Jean e Jacques não existia mais, o ódio que Jean nutria por Jacques estava cada vez mais profundo em seu ser, isso o estava corroendo e mais problemas surgiam entre eles. Para amenizar essa situação, ambos foram convidados para uma festa, só que eles não sabiam que o outro seria convidado, só que o inimaginável ocorre, pois a paz é selada entre eles e isso ocorreu através de um beijo dado por Marguerite de Thibouville, esposa de Jean na boca de Jacques Le Gris. Esse beijo ocorreu por um pedido de Jean, pois ele acreditava que a amizade entre ambos retornaria ao ponto que era antes.

O grande problema é que Jacques era conhecido como um homem galanteador e tal beijo mexeu profundamente com ele, tendo em vista que ele ficou profundamente apaixonado por Marguerite, ao mesmo tempo ele acreditava que Marguerite gostava dele, algo que era infundado. Desse momento em diante ele não tira a esposa do cavaleiro da cabeça e em determinado dia ele faz uma visita surpresa a Marguerite, justamente em um dia em que ela encontrava-se sozinha, algo totalmente raro e inaceitável para os padrões da época, levando em conta a posição e status de Marguerite. Durante essa visita o inimaginável ocorre, um dos mais horrendos crimes da humanidade é praticado, pois Jacques viola Marguerite, ele pratica conjunção carnal contra a vontade dela, ou seja, um estupro é cometido.

Quando Jean retorna para a propriedade de sua família, ele encontra Marguerite fria e desolada, diante dessa situação ele fica sabendo o que ocorreu e novamente entra em um ciclo profundo de ódio e fúria. Os próximos passos que Marguerite e Jean tomam são justamente para buscar a reparação, seja moral ou financeira dos atos cometidos por Jacques Le Gris contra Marguerite. Enquanto Jean espalha aos quatro ventos o ocorrido, Jacques nega veementemente que tenha cometido um crime, mas que tal ato foi fruto do amor entre ambos. Jean buscando justiça não procura o Conde Pierre d'Alençon, pois ele sabe do favorecimento que sempre ocorreu, dessa forma ele vai direto para Paris onde busca a reparação por todos os danos causados e é justamente em Paris que após muitas deliberações entre as autoridades e o próprio Rei Carlos VI que Jean invoca o direito de realizar um duelo em que Deus será o julgador e o vencedor do duelo será o detentor da verdade. Esse direito, é claro, foi reconhecido e o rei autorizou o duelo, mas tal duelo seria até a morte.


Eric Jager em O último duelo nos apresenta diversos fatos históricos que culminam no famoso embate que envolveu o cavaleiro Jean de Carrouges e o escudeiro Jacques Le Gris, embate esse que ocorreu devido a acusação de estupro proferida por Jean em face de Jacques, tendo em vista que o escudeiro teria violentado a esposa de Jean. Esse fato percorreu os quatro cantos da França e ganhou notoriedade, tanto que chegou ao conhecimento do Rei Carlos VI, culminando no duelo até a morte entre ambos, e aquele que sobrevivesse era considera inocente aos olhos de Deus e de todos, pois acreditavam que o sobrevivente foi salvo por Deus.

Apesar do livro estar focado nas histórias de Jean de Carrouges, Marguerite de Carrouges (Marguerite Thibouville) e Jacques Le Gris, esse é um livro que nos permite conhecer de forma íntima aspectos da política, sociedade, cultura medieval e até mesmo do direito, ou melhor, do ordenamento jurídico daquela época. O estupro naquele período era considerado um crime contra honra e um dos poucos crimes que permitia o duelo. Contudo, o ofendido na verdade era o esposo, pois a mulher era representado por seu esposo, ela não detinha direitos e liberdade para fazer uma representação perante o seu soberano ou mesmo diante dos tribunais legais da época.

Mesmo diante de inúmeras informações apresentadas pelo autor e também por não haver diálogos no livro, a narrativa ainda assim é envolvente e tem um bom ritmo, ou seja, em nenhum momento eu achei a leitura maçante ou enfadonha, pelo contrário, eu queria ler mais e mais para saber dos desdobramentos, sejam eles nas relações interpessoais ou mesmo no campo jurídico. Aliás, a narrativa não ocorre apenas demonstrando os fatos e ótica do acusador e sua família, mas também pela ótica do acusado. Outro aspecto interessante é acompanhar a amizade entre Jean e Jacques, bem como toda a degradação que ocorreu entre eles.

No decorrer da leitura nos deparamos com momentos de suspense, desejos de assassinato, escândalos, bem como tramas de vingança. Todos esses elementos são de extrema importância em um bom romance, mas ainda que esse livro não seja um romance e sim puramente histórico, há esses elementos em uma prosa instigante. Eric Jager retrata a França do século XIV de forma magistral, incluindo aspectos estarrecedores como o estupro, pois os filhos concebidos de estupro eram considerados filhos legítimos do marido legal, ou seja, o estuprador não teria nenhuma vínculo com a vítima pelos ditames legais, uma vez que a concepção de uma criança só poderia ocorrer através de orgasmos, algo impossível através de um crime horrendo. Em suma, O último duelo é um livro incrível e o mais importante, o autor não toma partido de nenhum dos lados. Recomendo a leitura para todos aqueles que amam história, mas também para aqueles que desejam compreender um pouco mais sobre os usos e costumes da Idade Média.

Sobre o autor: Eric Jager é crítico literário especializado em literatura medieval. Tem um ph.D. pela Universidade de Michigan e deu aulas na Universidade de Columbia. Professor premiado de inglês na UCLA, é autor de The Book of the Heart, um estudo sobre a imagem do coração na literatura medieval.

Ficha técnica:
Título:
O último duelo
Autor: Eric Jager
Tradução: Rodrigo Peixoto
Editora: Intrínseca
Páginas: 320
Ano: 2021
ISBN: 9786555603446
Onde comprar: Amazon - Intrínseca

Postar um comentário

10 Comentários

  1. Tenho muitos livros da editora Intrínseca, dificilmente me decepciono com livros sobre mundo medieval.Acredito pela sua resenha, que não será diferente com este.Uma época dificil de se viver, numa sociedade cheia de ignorância e medo. O tema do livro já é fascinante , vale a pena ler.bjus.

    ResponderExcluir
  2. oi
    Eu adorei a sugestão é bem interessante, gosto de livros que se baseiam em fatos reais...Também gostei da escrita do autor.

    ResponderExcluir
  3. É simplesmente uma obra maravilhosa, a história nos faz entender e refletir que estamos vivendo de maneira igual, estamos num duelo, o livro tem temas interessantes como política, sociedade, romance, suspense, é uma ótima indicação de livro abraços.

    ResponderExcluir
  4. Livros de época me prendem muito! Não conhecia este livro nem o autor, mas com certeza vou procurar para ler!

    ResponderExcluir
  5. Muito bom! Livros com contexto medieval chamam muito minha atenção. Gostei de sua resenha, super completa e bem descrita. Não conhecia o livro ou autor e gostei de poder conhecer mais por aqui!

    ResponderExcluir
  6. Adorei a tua resenha e já fiquei com vontade de ler, gosto muito de livros que misturam ficção e pesquisa histórica.

    ResponderExcluir
  7. Oi Yvens, tudo bem?
    Não sei se iria me acostumar com o texto sem diálogos. Mas eu sempre gostei muito de história, minha matéria preferida na escola, por isso acho que eu também ficaria vidrada querendo saber o que aconteceu em seguida com eles. E a época medieval por ser muito diferente da nossa realidade, é muito interessante. Dica anotada!
    beijinhos.
    cila.

    ResponderExcluir
  8. Tua resenha me chamou atenção para esse livro, é do tipo que eu gosto de leitura, anotadíssimo!

    ResponderExcluir
  9. Oi, tudo bem? Não conhecia o livro mas achei bem interessante toda a trama trazida pelo autor. Um dos pontos que mais valorizo quando conheço uma obra é a capacidade do autor de pesquisar e trazer informações históricas consistentes. Me chamou atenção também citar a Escócia. É um dos países que mais pesquisei nos últimos tempos. Um dos motivos foi a série Outlander. Sua resenha ficou incrível! Feliz 2022. Um abraço, Érika =^.^=

    ResponderExcluir
  10. Oi, tudo bem? Não conhecia o livro mas achei bem interessante toda a trama trazida pelo autor. Um dos pontos que mais valorizo quando conheço uma obra é a capacidade do autor de pesquisar e trazer informações históricas consistentes. Me chamou atenção também citar a Escócia. É um dos países que mais pesquisei nos últimos tempos. Um dos motivos foi a série Outlander. Sua resenha ficou incrível! Feliz 2022. Um abraço, Érika =^.^=

    ResponderExcluir