[RESENHA #897] A GUERRA DO PARAGUAI - LUIZ OCTAVIO DE LIMA

 

Sinopse: Um épico latino-americano de interesse universal. Maior confronto armado da história da América do Sul, a Guerra do Paraguai é uma página desbotada na memória do povo brasileiro. Passados quase 150 anos das últimas batalhas deste conflito sangrento que envolveu Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, o tema se apequenou nos livros didáticos e se restringiu às discussões acadêmicas. Neste livro, fruto de pesquisas históricas rigorosas, mas escrito com o ritmo de uma grande reportagem, o leitor poderá se transportar para o palco dos acontecimentos e acompanhar de perto a grande e trágica aventura que deixou marcas profundas no continente sul-americano. Por uma narrativa repleta de lances surpreendentes, desfilam não apenas os governantes e líderes militares dos países diretamente envolvidos no conflito, que em momentos alternados viveram papéis de heróis e vilões, como ganham luzes as ações e os dramas de figuras menos conhecidas, mas igualmente fascinantes: a ardilosa amante do líder paraguaio Solano López; religiosos implacáveis; combatentes submetidos a dores e privações; mulheres e crianças testadas no limite da bravura; e escravos que viram na guerra o caminho para a liberdade. O livro também se ocupa de discutir (e algumas vezes desfazer) os mitos criados ao sabor dos ventos ideológicos que sopraram sobre o continente em diferentes períodos desde então.

Resenha/Opinião: Muitos que acompanham a Saga Literária já devem ter percebido o quanto eu gosto de ler livros sobre História, seja sobre a antiguidade, idade média ou mesmo sobre conflitos bélicos e um livro que eu queria ler há muito tempo é justamente sobre "A Guerra do Paraguai", conflito esse em que o Brasil esteve diretamente envolvido. O presente livro retrata justamente esse grande acontecimento histórico e o autor nos mostra um pouco sobre os bastidores dessa guerra.

A Guerra do Paraguai, também conhecida como a Guerra Grande ou Guerra da tríplice aliança foi a maior e mais sangrenta guerra que ocorreu na América do Sul. O conflito uniu de um lado argentinos, brasileiros e uruguaios contra um pequeno, o Paraguai. No início da leitura a narrativa aparenta ser uma obra de romance histórico, ou seja, em um primeiro momento o livro se assemelha aos livros de Laurentino Gomes. Contudo, ao longo da leitura essa impressão vai por água abaixo, pois Luiz Octavio nos apresenta um cenário bem interessante sobre o conflito.

No decorrer da leitura nós acompanhamos a história de Francisco Solano López, filho de Carlos Solano López, presidente vitalício do Paraguai. Francisco foi o líder supremo do Paraguai durante o conflito, mas também conhecemos o seu passado e a história de sua família. Solano López recebeu  educação formal de alto nível e inclusive frequentou a Academia Literária, local onde se destacou no campo da filosofia e matemática. Na adolescência López aperfeiçoou o seu domínio de idiomas, mas também adquiriu conhecimento nos campos da arte e história. López sempre demonstrou interesse pelas grandes batalhas históricas e desenvolveu um profundo fascínio por Napoleão Bonaparte. Aos 18 anos de idade Solano López foi enviado para a academia militar e teve uma ascensão meteórica, tanto é que aos 19 anos foi promovido ao posto de general de brigada, algo espantoso.

O interesse de Solano López por aspectos militares era tamanho que entre os anos de 1853 e 1856 viajou diversas vezes à Europa, onde buscou aperfeiçoar o seu conhecimento, mas também serviu para estudar sobre o sistema militar prussiano. Após a morte do seu pai em 1862, Solano López convocou o congresso paraguaio que o elegeu ao posto de presidente pelo período de 10 anos, ou seja, apesar da influência e poder de seu pai, Francisco Solano López demonstrou ser um homem estudioso, determinado e capaz de alcançar os objetivos que tanto almejava.

Vamos deixar um pouco de lado a história de Francisco Solano López e passamos ao Brasil, que na época era um Império. O Brasil naquela época não era um país aberto no sentido de ser democrático, na verdade como todo Império as suas políticas e vontades eram empregadas em grande parte por meio da força. Durante a Guerra do Paraguai o Brasil tinha como líder supremo Dom Pedro II, ele foi o segundo e último monarca do Brasil. Dom Pedro II foi o grande responsável pelas transformações pelo qual o nosso país passou no século XIX.

Ao longo dos 47 capítulos o autor nos informa que a Inglaterra nada teve a ver com essa guerra, tendo em vista que na minha época de ensino médio um motivos para a guerra foi o interesse da Inglaterra em ver o Paraguai enfraquecido economicamente, pelo contrário, as relações diplomáticas entre Inglaterra e Paraguai eram melhores do que as relações entre Brasil e Ingaltera.

Recordo-me que no ensino médio aprendi que a Inglaterra teve influência para que essa guerra saísse dos bastidores, tendo em vista que o Paraguai era um país altamente industrializado e isso não seria do interesse da Inglaterra que perderia influência na América do Sul, ao menos no campo econômico. Contudo, isso também desmentido pelo autor, pois Luiz Octavio tem a visão de que o Paraguai mal era capaz de fazer ferro fundido. Outra informação que é desmentida pelo autor reside no fato de que historiadores defendem que o Paraguai tinha um exército altamente preparado e mais equipados que os seus inimigos, até certo ponto eram até mais equipados com armas. Contudo, as suas forças não eram superiores.

Luiz Octavio de Lima através de seu livro reforça a figura de Dom Pedro II como um homem perseverante, determinado e sagaz, ele foi de suma importância para o Brasil no seu tempo, mas também para o Brasil vencer a Guerra do Paraguai, aliás, o autor nos apresenta figuras históricas que foram importantes para a proclamação da república, entre elas o Marques de Tamandaré, o Marechal Teodoro da Fonseca, Marechal Floriano Peixoto, Barão de Mauá, Duque de Caxias e tantos outros.

Aliás, foi no ano de 1864 que a Guerra do Paraguai iniciou e nessa época Venâncio Flores convocou o brasileiros para a "Cruzada Libertadora de Flores", recebendo o apoio e auxílio do barão de Tamandaré. Nessa oportunidade eles impuseram um bloqueio à Montevidéu, o objetivo era tomar o poder. Contudo, Francisco Solano López não demorou a emitir uma nota endereçada ao governo brasileiro definindo essa manobra política como um verdadeiro ato de guerra. 

Por trás dessa nota havia um grande receio por parte de Francisco, ele tinha medo de perder a passagem e navegação na bacia do Prata. Como resposta ao bloqueio, Francisco Solano López "confiscou" o navio Marquês de Olinda, do Brasil, pois o mesmo estava de passagem por Assunção em direção ao Mato Grosso, além do navio, o presidente do Mato Grosso acabou sendo capturado e nunca retornou ao Brasil. Após essas movimentações, a Armada Brasileira e o exército de Venâncio Flores finalmente partiram em direção a Paissandu, onde uma grande e sangrenta batalha ocorreu próximo a bacia do Prata e dessa forma teve início a Guerra do Paraguai.

Não há dúvidas que a Guerra do Paraguai foi um grande conflito bélico, envolveu grandes movimentações de militares pelo Brasil em direção ao Paraguai. Estima-se que o Brasil levou 139 mil homens para a guerra e desses, dos quais 50 mil faleceram. A Argentina entrou com aproximadamente 30 mil homens e 18 mil pereceram nos campos de batalhas, já o Uruguai forneceu 5 mil homens, dos quais 3000 mil jamais morreram no conflito. Quanto ao Paraguai, as mortes chegaram ao número de 80 mil baixas, algo entre 15 e 20% da população do país na época.

Em suma, o livro de Luiz Octavio de Lima é uma nova possibilidade para conhecer esse conflito sangrento que envolveu quatro nações, pois podemos conferir os atos desumanos, condutas movidas por rancor, mas também pela ganância. Muitos militares perderam suas vidas por um falso patriotismo, outros deram suas vidas para defender a sua honra e a sua terra, mas também para dar segurança a própria família. Essa foi uma guerra que no final das contas foi travada por inúmeros motivos, aqui temos heróis e vilões de ambos os lados. Contudo, esse é um livro escrito por um brasileiro, ou seja, não dá para considerar a visão do autor sendo totalmente imparcial, ainda assim é um belo retrato da guerra. Recomendo a leitura para todos aqueles que querem conhecer um pouco mais sobre a nossa história e sobre a famigerada Guerra do Paraguai.


Sobre o autor: Jornalista, Luiz Octavio de Lima atuou nas redações de O Globo, Folha de S. Paulo, Veja, O Estado de São Paulo, Época e Exame. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2015 com o livro Pimenta Neves, uma reportagem. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo em 2009. Também organizou os livros O Xingu dos Villas Boas e Maracanã, um lugar na História.

Ficha técnica:
Título:
A guerra do Paraguai
Autor: Luiz Octavio de Lima
Editora: Planeta
Páginas: 448
Ano: 2016
ISBN: 9788542207996
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