[RESENHA #898] KING - HO CHE ANDERSON


Sinopse: Em 1964, Martin Luther King Jr. foi o mais jovem ganhador do prêmio Nobel da Paz. Em 1971, o aniversário de seu nascimento foi oficialmente transformado em feriado nacional norte-americano. Em 1999, uma pesquisa do instituto Gallup mostrou que Martin Luther King Jr. era, nos Estados Unidos, o americano mais admirado do Século XX.

Em 1991, quando Ho Che Anderson começou a pesquisar para uma biografia em quadrinhos de King estava decidido que seu livro não seria uma hagiografia, uma simples louvação ao maior líder do movimento negro naqueles decisivos anos das lutas pelos direitos civis dos Estados Unidos, nos anos 1950 e 1960. Anderson mergulhou na pesquisa histórica a respeito do que se sabe de King, mas também mergulhou numa pesquisa da linguagem dos quadrinhos, para melhor contar uma história tão complexa, tão estrondosa, tão carregada de simbolismo, de tantas consequências na vida de tantas pessoas.

A obra só foi finalizada 20 anos depois. O resultado é um retrato profundo, de um homem complexo, cheio de coragem e sabedoria, mas também cheio de dúvidas, angústias, frustrações… um grande ser humano com tudo o que é humano. Aclamada como um marco na história dos quadrinhos contemporâneos, é, principalmente, um livro emocionante. Segundo a revista Publishers Weekly, “Anderson leva os leitores para dentro do cotidiano de King, para dentro de carros, bares, salas de estar… para dentro da história. Ele faz a história palpável. Através de desenhos, King ganha vida”.

O livro ainda conta com o apêndice Black Dogs, e os dois podem ser adquiridos juntos em uma caixa de luxo, com tiragem limitada.

Resenha/Opinião: Martin Luther King Jr é uma das grandes figuras históricas que sempre me despertou interesse e curiosidade, pois ele foi um homem marcante e à frente do seu tempo, tendo em vista que ele foi um pastor protestante e ativista político, líder do movimento dos direitos civis dos Estados Unidos e lutou contra a pobreza, a Guerra do Vietnã, mas principalmente foi um líder em prol para o reconhecimento e igualdade de direitos para os negros, bem como lutou contra a segregação racial que estava profundamente enraizada no sul dos Estados Unidos, ou seja, ele foi um grande ativista no campo do direito e social.

A proposta de Ho Che Anderson em King é justamente falar sobre essa grande figura histórica e aqui o quadrinista nos apresenta a biografia de King em um estilo documental, ou melhor, conhecemos partes importantes de sua vida. Logo no início da leitura nos deparamos com alguns depoimentos tecidos por diversas e desconhecidas pessoas sobre a figura de King, cada um com a sua visão, alguns falam sobre o seu aspecto comportamental, outros sobre a sua luta adotando a paz, mas também sobre o seu papel na igreja e até mesmo sobre o seu carisma.


Ao longo da leitura fica claro que King possuía uma grande capacidade intelectual, a sua oratória era impecável e ele era admirado por muitas pessoas. Contudo, havia aqueles que o consideravam um homem comum, outros o temiam pelo seu poder, tendo em vista que ele movimentava multidões e estava lutando para transformar o país, algo que muitos não queriam, pois iriam ser considerados iguais aos negros.

King é uma belo romance biográfico em quadrinho, a narrativa é envolvente, convincente e também comovente, aliás, essa narrativa é multifacetada, pois também conhecemos King pela visão de outras pessoas. Ho Che Anderson esmiúça a vida de King desde a sua infância, ainda que de forma breve, passando pelo período da faculdade até a vida de adulto quando King lutava e liderava o movimento dos Direitos Civis, aliás, período esse conflituoso e tempestuoso, já que King enfrentou diversos perigos e inúmeras adversidades.


Anderson em sua obra nos apresenta a vida sub-humana que os negros levavam e eu digo sub-humana porque eles não eram colocados em igualdade de direitos em comparação aos brancos. Os negros eram brutalizados, passavam por agressões físicas e psicológicas, pois os brancos eram absolvidos por seus crimes, a impunidade reinava no sul dos Estados Unidos. Outro aspecto interessante é sobre os protestos organizados por King, pois ele era influenciado pelas crenças cristãs e também por Gandhi, dessa forma os seus protestos eram pacíficos, mas a polícia sempre arrumava um jeito de tornar tais protestos violentos e assim descer o sarrafo nos negros.

O quadrinista nos demonstra a construção da popularidade de Martin Luther King Jr, mas também o oposto como a tentativa de desconstrução da figura de King, a tentativa de afetar a sua popularidade e os seus protestos. Durante a leitura conhecemos aspectos culturais, sociais e políticos do sul dos Estados Unidos da época de King. 


Esse foi o meu primeiro contato com uma obra de Ho Che Anderson e gostei muito dos traços do quadrinista, bem como de todos os aspectos políticos e sociais apresentado por ele. Em suma, essa foi uma das melhores leituras que tive o prazer de realizar nos últimos tempos. Detalhe, Anderson levou 20 anos para finalizar essa obra que é fruto de um árduo trabalho e inúmeras pesquisas, todo esse trabalho reflete essa obra maravilhosa que é King!

A editora Veneta está de parabéns pelo trabalho realizado, pois a obra está com um ótimo acabamento gráfico, é uma edição em capa dura, o papel utilizado foi o offset, além disso a edição possuí notas pessoais e profissionais do Ho Che Anderson, mas também notas da edição brasileira que serve como complementos. A edição está simplesmente linda!! Impecável!!


Sobre o autor: 
Ho Che Anderson nasceu em Londres, em 1967, filho de mãe guianense e pai jamaicano, que o batizaram com esse nome em homenagem a Che Guevara e ao revolucionário vietnamita Ho Chi Minh. A família mudou-se para o Canadá quando Anderson tinha cinco anos de idade. Já adolescente decidiu ser quadrinista, sob a influência de autores como Howard Chaykin, Bill Sienkiewicz, os irmãos Jaime e Gilbert Hernandez, Frank Miller e José Munoz, mas também de pintores como Egon Schiele, Tamara de Lempicka e Edward Hopper.   Anderson estreou nos quadrinhos discretamente no final dos anos 1980, fazendo arte final para um gibi de super-heróis, Grendel, da editora Comico. Mas logo na sequência, em 1990, lançou pela Fantagraphics o gibi I Want To Be Your Dog, inspirada na música de mesmo nome de Iggy Pop and the Stooges. Em 1993, a mesma editora publicou o primeiro volume de King e Ho Che Anderson foi aclamado como um dos principais quadrinistas afro-americanos. De lá para cá, Anderson fez diversos quadrinhos, o mais recente deles, também lançado pela Fantagraphics, chama-se Godhead e é um suspense/ficção científica a respeito de uma corporação que constrói uma máquina para falar com Deus.   Em paralelo à sua carreira de quadrinista, Anderson têm exercido diversas outras atividades: fez reportagens para o Toronto Star, o maior jornal do Canadá, escreveu romances, tem trabalhado como ilustrador e feito desenhos animados. O mais recente desses desenhos animados é Governance (2020), a respeito da ativista Munira Abukar.

Ficha técnica:
Título:
King
Autor: Ho Che Anderson
Tradução: Dandara Palankof
Editora: Veneta
Páginas: 256
Ano: 2021
ISBN: 9786586691382
Onde comprar: Amazon - Veneta

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