[RESENHA #902] A ARANHA NEGRA - JEREMIAS GOTTHELF

 
Sinopse: Uma das novelas mais marcantes do século XIX, admirada por nomes como Thomas Mann, Walter Benjamin e Elias Canetti, A aranha negra foi escrita em 1842 por Jeremias Gotthelf, pseudônimo do pastor protestante suíço Albert Bitzius (1797-1854). Inspirada em lendas medievais, na Bíblia e nos surtos de peste negra que assolaram uma vila da região do Emmental nos séculos XIV e XV, a narrativa se inicia com uma festa de batizado e o relato da terrível história da aranha negra, que no passado aterrorizou e dizimou a população local após a quebra de um pacto com o diabo.

Resenha/Opinião: Imagine que a Peste Negra, a pandemia que varreu da face da Terra aproximadamente um terço da população mundial durante o século XIV, tenha sido causada não pela bactéria Yersinia pestis e sim em decorrência de um pacto com o diabo. Mesclando fatos históricos, passagens bíblicas e elementos do folclore suíço e alemão, o pastor protestante Albert Bitzius, sob o pseudônimo de Jeremias Gotthelf, constrói aqui uma poderosa narrativa em formato de novela, usando com maestria a técnica do emolduramento narrativo (uma história dentro de uma história). O resultado é uma aclamada obra que conquistou célebres admiradores, entre eles Thomas Mann, que dizia admirá-la "como praticamente nenhuma outra peça da literatura mundial".

A narrativa tem início no século XIX, no vale de Emmental, onde vamos acompanhar os preparativos de uma tradicional família suíça para o batizado de seu mais novo membro. Aqui também vamos ser apresentados a algumas das crenças e costumes da região, o que nos permite conhecer um pouco mais da cultura popular local. Muitos familiares vêm de longe para conhecer a nova casa da família e acompanhar o batizado do recém-nascido. Em um dos intervalos entre uma refeição e outra, a família se reúne em torno da casa para jogar conversa fora, é quando um pedaço de madeira enegrecido chama a atenção dos presentes, e o avô, patriarca da família, decide contar uma história.


Nessa primeira narrativa do avô, somos levados ao século XIII. A região do vale estava então sob o domínio da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos (que foi fundada com a missão de acolher e cuidar dos cruzados feridos e doentes mas acabou, com o tempo, perdendo seu caráter religioso e sendo corrompida pelas intensas batalhas em terras pagãs) e era "governada" pelo déspota Hans von Stoffeln. Oprimidos pelo tirano comendador, os habitantes do vale levavam uma vida dura e repleta de miséria, e a esperança por dias melhores ia aos poucos se extinguindo. Foi quando o diabo apareceu e os propôs um pacto.

O povo desesperado, que acreditava já estar no fundo do poço, viu que era possível a situação piorar, e da forma mais grotesca. Essa narrativa corresponde ao primeiro surto de Peste Negra que atingiu a Suíça e ocupa a maior parte do livro. A segunda história narrada pelo avô se passa 200 anos depois, no século XV, e corresponde ao segundo e mais devastador surto da peste naquela região.

A novela de Gotthelf possui muitas facetas e é repleta de simbolismo. O contexto histórico da Peste Negra é muito bem amarrado a ficção, costurando fatos e personagens reais com passagens bíblicas e crenças populares, adicionando elementos de horror e fantasia em alguns pontos. Além de rica em detalhes sobre a vida camponesa e o folclore local, a narrativa de Gotthelf ganha um sabor a mais nos momentos de tensão, quando o autor muda o tempo em que os eventos são narrados, dando a impressão de que estamos ali presenciando a ação. Danse Macabre, comportamento coletivo equivocado, o anticristo, o auto endeusamento... São muitos os elementos que podem ser encontrados na obra, mas o que mais me chamou a atenção foi o conceito de dualismo: a coexistência do bem e do mal, do sagrado e do profano, de Deus e do diabo (no caso, a aranha). A ideia de que seja necessário a presença do maligno para que os homens permaneçam tementes a Deus é um convite a reflexão.


"A Aranha Negra" foi, e ainda é, objeto de muitos estudos nos campos da literatura e da filosofia. Essa edição da Editora 34 conta com um belo posfácio de Marcus Vinicius Mazzari, no qual o tradutor apresenta material de seus estudos bem como referências de outros estudiosos que analisaram a obra. A tradução também é primorosa. Além da forma peculiar de narrar, Gotthelf usa e abusa do complexo dialeto suíço-alemão, o que com certeza exigiu muito do tradutor. Mas todos os termos, até mesmo aqueles que não têm uma tradução direta, são devidamente explicados e contextualizados, assim como os acontecimentos históricos e as passagens bíblicas, nas inúmeras notas de rodapé que o livro apresenta. Todo esse cuidado enriquece ainda mais a experiência de ler essa grande obra que é "A Aranha Negra".

Por: Diego Rodrigues

Sobre o autor: Jeremias Gotthelf, pseudônimo de Albert Bitzius, nasceu em 1797 na comuna suíça de Murten, cantão de Friburgo, filho de um pastor reformado. Passou a infância na aldeia de Utzenstorf, na região do Emmental, no cantão de Berna. Em 1812 se matriculou numa escola em Berna, e, entre 1817 e 1820 frequentou nesta cidade o curso superior de teologia, iniciando em seguida o vicariato (estágio preparatório para o exercício pastoral) em Utzenstorf, Göttingen e Herzogenbuchsee. Em 1832, após várias viagens pela Alemanha, assumiu o cargo de pastor de Lützelflüh, no cantão de Berna, trabalhando também como comissário de educação da cidade e administrador de um abrigo para crianças pobres. Em 1837, influenciado pelas ideias de Pestalozzi, estreou na literatura com o romance O espelho-camponês ou História da vida de Jeremias Gotthelf, descrita por ele mesmo. A partir de então adotou o nome do narrador deste romance e desenvolveu uma prolífica carreira como escritor, redigindo mais onze romances e dezenas de escritos variados, incluindo a novela A aranha negra (1842), sua obra mais conhecida. Faleceu em 1854, em Lützelflüh, aos 57 anos, reconhecido como um dos grandes autores de língua alemã do século XIX.

Ficha técnica:
Título: A Aranha Negra
Autor: Jeremias Gotthelf
Tradução: Marcus Vinicius Mazzari
Editora: 34
Páginas: 168
Ano: 2017
ISBN: 9788573266597
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