[RESENHA #906] A PRAGA ESCARLATE - JACK LONDON


Sinopse: “...Uma epidemia que surgiu num país chamado Brasil e que matou milhões de pessoas...”

Uma doença misteriosa varreu a humanidade no início do século XXI, deixando poucos sobreviventes e uma sociedade reduzida à brutalidade. Nesse mundo devastado, um velho professor universitário conta para seus três netos as desventuras que viveu para escapar da peste, em meio a desertos e cidades mortas.

Escrito em 1912 e ilustrado por Gordon Grant, A Praga Escarlate é um livro pioneiro do gênero pós-apocalíptico, por um dos mais célebres escritores do século XX, autor de clássicos como O Chamado Selvagem e Caninos Brancos. Como um profeta, Jack London viaja mais de cem anos na história e traz à tona algumas das questões mais profundas da contemporaneidade: somos mesmo uma sociedade civilizada? Ou um bando de bárbaros camuflados por tecnologias e convenções sociais?

Resenha/Opinião: A ficção científica certamente está entre os gêneros literários que mais aprecio, isso se deve por sua diversidade, tendo em vista que há inúmeros subgêneros, seja cyberpunk, distopia, ficção especulativa, space opera, new weird e tantas outras. Contudo, nesse vastíssimo mundo da ficção científica aquela que me chama mais atenção é justamente a ficção científica pós-apocalíptica, pois nesse subgênero nós podemos acompanhar o comportamento humano, as dificuldades enfrentadas pelo ser humano em cenários desoladores, a sua luta pela sobrevivência, bem como o anseio por um futuro melhor.

Escrito por Jack London, "A Praga Escarlate" é um dos primeiros livros ou talvez o primeiro livro de ficção científica pós-apocalíptica, pois foi escrito e publicado em 1912, ou seja, há mais de um século. Aqui acompanhamos a história de senhor com mais de 80 anos de idade e seus netos. Esse velho homem é o último sobrevivente de um mundo que não existe mais, um mundo onde os homens tinham acesso a educação e ao trabalho, mas sobretudo viviam certa harmonia em uma sociedade regida por leis, usos e costumes.


Esse homem era um professor universitário em sua juventude na cidade de São Francisco e viu a sua vida mudar drasticamente no ano de 2013, pois nesse ano surgiu a Morte Escarlate, um vírus que espalhava rapidamente e matava os infectados em dezenas de minutos. Com o advento da Morte Escarlate diversos estudos foram realizados por cientistas, apesar da letalidade, inicialmente não havia um grande temor sobre esse vírus e o quanto ele poderia impactar na vida em sociedade, pois o ser humano se mostrara capaz de achar curas para as novas doenças. Contudo, a Morte Escarlate era algo diferente, era extremamente letal e em pouquíssimos dias afetou toda a cidade de São Francisco, bem como o mundo.

Aos poucos o professor viu as pessoas ao seu redor sucumbirem pela doença, as pessoas morriam aos montes, a cidade de São Francisco se tornou um caos e ele não viu outra alternativa a não ser fugir da cidade para algum lugar menos movimentado e ele fez isso na companhia de outras pessoas. O grande problema é que tal vírus era transmitido pelo ar e não havia muita segurança, à qualquer momento o professor e seus companheiros poderiam ser infectados. Enquanto se distanciava de São Francisco, o homem precisou enfrentar alguns obstáculos para preservar a sua vida, algo que fez com sucesso e anos após vagar nos Estados Unidos afora, encontrou uma vila, uma comunidade controlada por um homem feroz e temido, ou seja, um bruto.

É nessa vila que ele se estabelece e cria laços familiares. Contudo, após dezenas de anos vivendo em tal lugar, o professor acompanha a degradação do homem, pois passa a levar uma vida desregrada, uma vida que não é baseada em qualquer valor social, humanitário ou cristão, mas uma vida baseada na lei do mais forte. Os conhecimentos científicos são perdidos, o homem se torna incapaz de construir máquinas, elaborar cálculos, ler ou escrever. É nessa vila que o professor agora idoso vive na companhia de seus netos, crianças e adolescentes que são rudes, mal educadas e não demonstram um pingo de respeito pelo avô, elas só querem zombar e caçoar do velho homem, mas ainda assim ele é em certa medida paciente com os seus netos, pois enquanto conta o passado da humanidade para eles, tenta de alguma forma apresentar valores éticos e morais para os netos, ele tenta de alguma forma passar algum ensinamento valioso para eles.


Em "A Praga Escarlate" acompanhamos a degradação humana, tendo em vista que as instituições governamentais deixaram de existir após o surgimento de um vírus letal que ceifou 99% da população e os sobreviventes, pessoas imunes, passaram a viver em um estado primitivo, onde não havia qualquer instituição reguladora que estabelecesse normas de condutas para uma vida em sociedade. A degradação humana reside justamente no fato da ignorância reinar, no sentido em que os humanos perderam todos os conhecimentos tecnológicos adquiridos ao longo de séculos. Outro aspecto que demonstra essa degradação é que as gerações pós-apocalipse simplesmente não tiveram o interesse em aprender a ler e escrever, simplesmente vivendo através da força bruta, mas também com escárnio e desprezo em face dos mais fracos.

Jack London nos apresenta um romance de ficção científica curto, mas substancial, reflexivo e envolvente. É interessante acompanhar a história através dos olhos do velho protagonista, pois ele viveu o que poderia ser considerado o ápice do ser humano nos campos da cultura e tecnologia, mas de um momento para o outro ele passa a viver em um mundo em que o homem é quase um ser primitivo.

"A Praga Escarlate" é uma ótima porta de entrada para aqueles que desejam adentrar no universo da ficção científica, mas principalmente nas histórias pós-apocalípticas. Em suma, essa é uma história atemporal, envolvente e que certamente poderia ser publicada nos dias de hoje. Eu recomendo esse livro para todos que desejam uma leitura rápida.


Sobre o autor: Jack London nasceu em uma família pobre de São Francisco, em 1876. Interrompeu os estudos com 13 anos para trabalhar em uma fábrica de enlatados, por um salário miserável. Aos 17, após ler Moby Dick, se alistou na marinha e foi para o Japão. Quando voltou para os EUA, passou a atuar como vagabundo e ladrão de galinhas, chegando a ser preso e cumprir pena em Nova York.   London voltou para a casa de sua família e concluiu o ensino fundamental, ingressou no Partido Social Trabalhista, cursou seis meses da faculdade e foi premiado por um artigo no jornal acadêmico. A partir de então, se converteu em um dos autores de maior sucesso na história da literatura norte-americana, sendo um nome pioneiro no novo mundo das revistas de ficção e atingindo sucesso mundial. Entre suas obras mais célebres estão O Chamado Selvagem (1903), O Lobo do Mar (1904), Caninos Brancos (1906), e Martin Eden (1909).


Ficha técnica:
Título:
A Praga Escarlate
Autor: Jack London
Tradução: Roberto DeNice
Editora: Veneta
Páginas: 104
Ano: 2021
ISBN: 9786586691443
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