[RESENHA #927] O GUETO INTERIOR - SANTIAGO H. AMIGORENA


Sinopse: Buenos Aires, início da década de 1940. Vicente Rosenberg, que emigrou sozinho da Polônia em 1928, é dono de uma loja de móveis, casado e tem filhos. Desfruta da grande cidade ao Sul: frequenta os cafés, trocou a comida judaica pelas empanadas, lê os jornais locais, sente-se perfeitamente em casa na língua castelhana. Não pratica a religião de seus antepassados. É um homem do século XX, um habitante satisfeito do Novo Mundo. Sua mãe, porém, permaneceu em Varsóvia. E em cartas esporádicas que consegue escrever ao filho vai relatando sua situação, que piora progressivamente quando os nazistas erguem o infame gueto para isolar a população judaica. À medida que o tempo passa, as cartas descortinam uma situação dramática. Pessoas abatidas à luz do dia. O sarcasmo assassino da soldadesca alemã. A fome, a doença e a animalização a céu aberto. A mãe já não tem esperanças: o fim de todos está próximo naquele lugar. É nesse ponto que Vicente começa a ficar afetado. Ele, que até então pouco se lembrava de sua condição judaica, percebe que, no tempo em que vive, tudo o que uma pessoa pode ser desaparece quando se é apontado como judeu. Ele, que fala várias línguas e não frequenta o templo, sente que tudo o que fizer vai ser inútil. Vicente passa a falar menos, a preferir o silêncio, a dizer apenas o essencial. A culpa ― por deixar a mãe no gueto, por ser judeu, por estar vivo enquanto massacram milhões dos seus ― o rói por dentro, reduzindo o homem jovem a uma espécie de carcaça ambulante. O mutismo avança e deixa família, amigos e funcionários desnorteados, incapazes de definir o seu estado e de ajudá-lo. Esse gesto vai impactar toda sua vida. E o futuro de seus descendentes. Com este romance pungente e arrebatador, Amigorena foi finalista dos principais prêmios literários da França e um dos maiores sucessos editoriais dos últimos tempos.

Resenha/Opinião: Em "O gueto interior" Santiago H. Amigorena nos apresenta a história de seu avô paterno, Vicente Rosenberg, um judeu nascido e criado na Polônia. Em 1920 Vicente participou da guerra dos poloneses contra os invasores soviéticos e foi capitão no exército liderado pelo herói polonês Józef Pilsudksi contra os soviéticos. Após a vitória contra os invasores, Vicente resolve frequentar a universidade e estudar direito. Contudo, cansado da miséria que espreitava a Europa após a Primeira Grande Guerra Mundial, mas também pelas perseguições em seu país contra os judeus, Vicente resolve mudar de vida.


Em 1928 que Vicente toma uma grande decisão, ele decide largar tudo na Polônia e deixa o país, incluindo a sua mãe e irmãos, bem como a Universidade onde frequentava o curso de direito e até mesmo a posição que tinha nas forças armadas. A primeira parada que ele realiza é em Bordeaux (França), mas o seu destino final é em outro continente, ele emigra para a Argentina e se instala na cidade de Buenos Aires e na capital ele realiza diversos trabalhos para sobreviver, mas com o passar dos anos ele começa um negócio de móveis, alcança a prosperidade e conquista a mulher da sua vida, uma judia bonita e inteligente com a qual é muito feliz e tem três filhos.

Mesmo com a distância, Vicente conversava com a sua mãe por cartas, mas nos últimos anos os contatos foram diminuindo e levando uma vida tranquila ele não tinha maiores preocupações com a sua família. Ele estava feliz com a vida que tinha. Mas a felicidade não dura para sempre, pois eclode a Segunda Grande Guerra Mundial e a Alemanha Nazista invade a Polônia no dia 1 de setembro de 1939, guetos são instalados em Varzóvia e a população judia é obrigada a viver nesses lugares em condições precárias.


Diante das notícias, a preocupação de Vicente com a sua mãe e irmãos aumenta, ele passa a ficar preocupado com os seus familiares e a falta de maiores notícias, além disso o remorso toma conta de si, pois ele acredita que não insistiu o suficiente para que a sua mãe mudasse para a Argentina, acreditando que a guerra não duraria muito tempo. Com tudo o que estava acontecendo na Polônia a impotência tomou conta de Vicente, a sua mãe poderia estar morrendo de fome ou sofrendo abusos físicos e psicológicos, mas ele nada poderia fazer.

Santigo nos apresenta um livro composto por partes ficcionais e reais envolvendo a Segunda Guerra Mundial, mas também a história de seu avô, aliás, o livro é baseado na história e memórias do avô do autor, por isso, é um relato e testemunho muito real dos horrores que uma guerra pode ocasionar, ainda que distante da destruição que estava ocorrendo na Europa e da destruição dos seus.


O Gueto I
nterior foi uma grande surpresa para mim, pois apesar do catálogo incrível que a Todavia detém, há alguns livros que passam despercebidos. A história apresentada é comovente e íntima, conhecemos as angústias e sofrimentos que Vicente Rosenberg enfrenta, mas também os seus pensamentos. Esse é um livro tocante, envolvente e profundo. É uma leitura de certa forma difícil, não na compreensão do texto, mas por falar sobre a dor e a culpa e o quanto esses sentimentos nos afetam. Eu posso dizer com tranquilidade e propriedade que essa foi uma das melhores leituras que realizei nos últimos tempos.


Sobre o autor: Santiago H. Amigorena nasceu em Buenos Aires, em 1962. Diretor de cinema, roteirista e ficcionista, vive em Paris e toda sua obra literária é escrita em francês.

Ficha técnica:
Título:
O gueto interior
Autor: Santiago H. Amigorena
Tradução: Rosa Freire d’Aguiar
Editora: Todavia
Páginas: 128
Ano: 2020
ISBN: 978-6556920085
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