[RESENHA #938] A FAZENDA AFRICANA - KAREN BLIXEN

Sinopse: O grande continente africano despertou na sofisticada aristocrata dinamarquesa a sibila da natureza, capaz de esquecer o dia da semana e a hora do dia, mas que redescobriu o sentimento que a punha em contato com coisas como a direção dos ventos, as fases da lua ou a captação dos humores do mundo [.] Nunca poderá ser por demais enfatizado o papel que a fazenda africana representou na alma desta nobre europeia, cultivada e dolorosamente presa nas malhas da tradição familiar, para a libertação não só de suas criadoras como de sua libertação tout court.


Resenha/Opinião: Publicado originalmente em 1937, "A Fazenda Africana" é um livro de memórias que relata o período em que a autora passou no Quênia, entre os anos 1914 e 1931. Dividida em cinco partes, a obra nos permite uma profunda imersão no continente africano, com vívidas descrições de paisagens deslumbrantes, da vida selvagem e dos costumes e crenças de tribos nativas. Mas o mais interessante de se observar nessa leitura é o choque cultural que se dá entre Blixen e os nativos e a curiosa relação que se desenvolve entre ambos: de um lado, uma europeia criada no seio das mais conservadoras tradições familiares, de outro, um povo que carrega o estigma de selvagem mas que muitas das vezes se mostra mais humano que a mais avançada civilização.

Apesar de não ser uma obra de cunho antropológico, o livro de Blixen não deixa de ser um convite à reflexão sobre as relações raciais e o chamado eurocentrismo. De fácil leitura, a obra também não é desprovida de emoções. Além de ter o poder de nos transportar para outras paragens, Blixen nos presenteia com relatos tocantes, como a relação que desenvolve com uma criança nativa e o vínculo criado com um filhote de gazela que visita a fazenda. Mas nem tudo é uma maravilha. Vale lembrar que estamos falando de uma época em que a África era vista como um "parque de diversões" para o resto do mundo. 

Violência, exploração e devastação da flora, fauna e da cultura nativa, tudo isso está presente aqui. As passagens sobre as caçadas e a forma como a autora se refere aos trabalhadores da fazenda em alguns momentos podem incomodar, mas ao mesmo tempo são elementos que compõem e documentam o contexto histórico eurocentrista em que a obra foi escrita.

"A Fazenda Africana" foi uma leitura bem fora da caixinha pra mim e que me surpreendeu bastante. Sempre conservei um ar de curiosidade sobre o continente africano e nesse ponto a leitura foi um verdadeiro deleite. Ao mesmo tempo, me dei conta do quão pouco, ou quase nada, conheço da literatura africana, e já estou providenciando algumas obras do continente para encaixar em minhas futuras leituras.


Sobre a autora: Karen Blixen nasceu em 1885, em Rungsted, Dinamarca, mas foi sua mudança para a África, em 1914, que marcaria definitivamente sua vida e sua carreira como escritora. Recém-casada com o primo sueco, o barão Bror Blixen-Finecke, muda-se com ele para uma fazenda de café no Quênia. Divorcia-se pouco depois, assumindo sozinha a administração da fazenda por mais dez anos, até que a seca e a crise do café obrigaram-na a voltar para a Dinamarca. Ela adota, então, o pseudônimo de Isak Dinesen, e escreve em inglês. Nos anos 1950, a saúde de Blixen estava muito frágil. Em 1959, viaja pelos Estados Unidos sendo homenageada e visitada por escritores como E.E. Cummings, Marianne Moore, Pearl S. Buck, Carson McCullers e Arthur Miller. Morre em 1962.

Ficha técnica:
Título: A Fazenda Africana
Autor: Karen Blixen
Tradução: Claudio Marcondes
Editora: Sesi SP
Páginas: 448
Ano: 2018
ISBN:
 9788550403816
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