“Nesse momento, somos duas almas perdidas que se encontram, mas que receiam ser mais uma miragem no deserto triste que tem sido nossa caminhada.” p. 93
Apenas após o casamento tudo muda na vida de Paola, a máscara do seu marido cai e ela descobre que ele não tinha nada de príncipe encantado, não era verdadeiramente gentil e preocupado com ela. Após várias desentendimentos, ela se vê em meio a um relacionamento abusivo e certo dia ele sai das agressões verbais, parte para as agressões físicas e não demora muita até que isso vá longe demais e Paola acabe desfigurada e traumatizada.
“Pensei que seria somente uma tela sem uso porque alguém estragou todo o potencial, mas hoje, aqui nesta Caixa, você me mostrou algo. Os buracos estarão sempre presentes. Continuarei sempre rasgada e nunca serei admirada, mas, se um dia alguém quiser colar tudo com muita paciência, poderá depois pintar. Nunca será igual há um quadro de tela lisa, mas será um quadro que o pintor gostará de guardar para sempre.” p. 102
Vários anos depois, confinada numa instituição de ajuda a pessoas com traumas psicológicos, Paola conhece Sol, uma linda menininha que apesar de não confiar mais em ninguém além de seu pai e avós, vê nas cicatrizes de Paola a certeza que ela não iria machucá-la. As duas então tornam-se amigas, fazendo com que Paola precise lidar com seu trauma (que a afasta de homens) e tenha que lidar com o pai da menina, André, diariamente. Mas após algum tempo, ambos percebem que há mais do que mera cordialidade em sua relação e precisarão lidar com seus dolorosos passados para ter uma nova chance de felicidade.
O livro já começa com a Paola levando a surra que mudaria sua vida de vez e é uma descrição tão crua que não tem como não se sentir ultrajada, enraivada e desesperada junto com ela. E então segue para o presente e vamos descobrindo quem a Paola se tornou e como, dia após dia, lidou com as marcas visíveis e não visíveis dos abusos que sofreu. Ela é uma guerreira, uma sobrevivente, mas ainda não consegue se soltar do medo de viver aquilo de novo. Até que a Sol entra na história para nos dar aquele calorzinho que só uma criança pequena poderia dar numa história como essa. Junto com ela vem André e seu passado também sombrio.
A história certamente tem uma carga dramática muito pesada, mas a autora descreve a cenas quase poeticamente. Paola é uma personagem sofrida, mas que dá muita leveza às suas interações. É impossível não se contaminar pela forma incomum e bonita de ver a vida que ela desenvolveu após o dia em que quase morreu. Há também uma carga erótica inegável que dá força à história de Paola. Não são cenas mau colocadas só para envolver os protagonistas, mas sim meios de mostrar a libertação de suas amarras mentais.
Sobre a edição: O livro é todo fofinho, com diagramação combinando com a Paola (não tem outro jeito de descrever). Tem detalhes no início de cada capítulo e como é comum nos livros da Valentina tem também detalhes nos cantos superiores. Não vi erros de revisão, as folhas me pareceram cor marfim (não são amarelas, nem brancas) e tudo muito bem feito. A capa e contra-capa são maravilhosas!
Sobre a autora: Sofia Silva nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal. É licenciada em Ensino Básico (1º Ciclo) pela Universidade de Aveiro. Amante de literatura, em especial poesia e, nela, de Pablo Neruda. Sempre gostou dos sentimentos contidos nas palavras e do poder que exercem sobre os leitores. Ávida devoradora de romances, com predileção pelos dramáticos de final feliz, desde jovem participa ativamente do meio literário. Em Dezembro de 2014, iniciou-se na ficção através da plataforma Wattpad com a Série Quebrados, cujo foco são histórias sobre violência doméstica, deficiência físico e abuso sexual. Com mais de 1 milhão de leituras e o apoio fervoroso de leitoras brasileiras, publicou, dois anos depois, o seu primeiro livro na Amazon, Sorrisos Quebrados, atingindo o top 10 de vendas em ebook no Brasil.







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